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Mangás e Animes
Entrevista

Ado, a cantora sem rosto que amou o Brasil e abraçou latinidade

Artista japonesa quer voltar ao país com plateia maior e mais açaí

Omelete
10 min de leitura
22.09.2026, às 08H00.

Uma voz conhecida por milhões, mas uma identidade guardada por pouquíssimos: essa é a vida da cantora japonesa Ado, famosa por se apresentar em todo o mundo sem nunca ter revelado seu rosto ou nome.

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Conhecida por seus trabalhos em One Piece Filme - Red, Beyblade X e o filme live-action de Blue Lock, Ado se interessou por música ainda muito jovem. Aos 11 anos, ela se interessou pela carreira artística graças ao NicoNico, um dos serviços japoneses mais populares do universo dos covers e vocaloides - aos 14, ela começou.

Felizmente para nós, a aposta de Ado deu certo. Ela participou de várias colaborações e fez seus próprios covers no início de sua carreira. Até que, em 2020, ela fez sua grande estreia profissional com a Pony Canyon, gravando as músicas "Call boy" e "Taema Naku Ai iro" para a coletânea Palette 4. Após isso, chegou a hora de Ado dar o seu grande salto, e naquele mesmo ano ela assinou com a grande gravadora Virgin Music, onde lançou seu hit de trabalho "Usseewa". Antes do ano acabar, a música alcançou o primeiro lugar no Top 50 do Spotify Japão, dando gás para ainda mais sucessos.

Porém, foi com One Piece que a cantora se estabeleceu internacionalmente. Suas músicas para Uta, uma das protagonistas de One Piece Filme - Red [leia a nossa crítica], colocaram a artista na playlist de milhares de fãs ao redor do mundo - inclusive no Brasil, onde ela fez um show histórico apenas com a sua silhueta à vista, em agosto de 2025. Na ocasião, o repórter Breno Deolindo descreveu o espetáculo como “uma experiência que se torna cada vez mais visceral” e “uma quebradeira quase sem pausas”.

Ado explicou ao Omelete que não mostrar o rosto é um dos maiores desafios para uma cantora que passeia tanto pelo pop quanto pelo rock. “Como me apresento em silhueta e minha aparência fica escondida, às vezes sinto que pode ser difícil comunicar o que estou tentando expressar. Por exemplo, mesmo se eu colocar a mão no peito, ela pode desaparecer na sombra do meu corpo, e mesmo se eu sorrir, o público não consegue ver”.

Apresentação da cantora japonesa Ado
Instagram/@ado_staff_official/Reprodução

Apesar disso, ela consegue reverter a situação desafiadora com uma fórmula simples. “Se eu quiser que o público me veja colocando a mão no peito, por exemplo, posso me virar de lado ou fazer gestos maiores fora do contorno do meu corpo, em vez de diretamente na frente dele. Tento encontrar maneiras de fazer meus movimentos parecerem o mais claros possível”, continuou.

Assim como a plateia que lotou o Espaço Unimed aproveitou seu show, Ado também viveu experiências que tornaram o Brasil inesquecível para ela - especialmente pelos nossos sabores. Pega pelo estômago, ela contou que “ama açaí” e que teve a sorte de se hospedar próximo a uma loja dedicada à iguaria. “Quando fui lá, descobri que era a Oakberry, um lugar pelo qual eu já tinha curiosidade. Foi aí que aprendi que a Oakberry se originou no Brasil, então fiquei muito feliz de poder experimentar lá”, lembrou. E para além do nosso açaí, outras frutas também marcaram a visita dela para sempre. “Senti que as frutas e os abacates tinham um gosto diferente dos do Japão”. “As frutas tropicais em particular eram realmente deliciosas”.

E ela quer mais - não apenas o açaí. Apesar de ter se apresentado em uma das casas de show mais tradicionais do país, ela não esconde que deseja retornar para um palco ainda maior. “Eu adoraria voltar e ver todo mundo no Brasil novamente. Da próxima vez, ficaria feliz se pudesse me apresentar em um local ainda maior. Ainda não esqueci quantas pessoas foram me ver e o quão felizes todos estavam. Eu definitivamente quero voltar”, afirmou.

Essa latinidade e a fome por mais sucesso refletem bem o trabalho da artista na trilha sonora de Blue Lock, um universo que debate o egoísmo e ganância no mundo do futebol. Para o live-action, a cantora compôs “Monstruo”, uma música contagiantemente latina da qual ela se orgulha muito.

“Esta foi a minha primeira vez assumindo uma música com uma influência latina tão forte. Eu já estava interessada em música latina, então fiquei muito feliz por ter a oportunidade de cantar esse tipo de música como algo meu”

Ela então relembrou os bastidores da canção: “Ao mesmo tempo, passei por muitas dificuldades com a pronúncia em espanhol e com o sentido de ritmo marcante da música latina. A abertura em particular, onde o violão latino transita para os vocais à capela, realmente marcou minha memória porque foi difícil desacelerar o ritmo no ponto certo enquanto mantinha tudo equilibrado”. Ouça a música abaixo:

Ainda no universo do futebol, Ado seguiu os passos de sua veterana Sheena Ringo e cantou a música tema da Seleção Japonesa de Futebol para a Copa do Mundo de 2026, algo inesquecível para qualquer artista. “Sou muito grata pela oportunidade de cantar a música do uniforme da seleção japonesa. Nem sempre fui uma fã ávida de futebol, mas sinto que atletas e cantores têm algo em comum”, revelou.

Fã autodeclarada de Michael Jackson e música latina, Ado é uma das promessas para o futuro da música japonesa e, mesmo sem rosto, imprimiu uma representação de si mesma na mente de seus mais de 6 milhões de ouvintes mensais no Spotify. Por aqui, estamos ansiosos para ver que futuro brilhante ela nos reserva.

Você encontra a entrevista exclusiva completa a seguir:

Pedro Ribeiro: Você costuma frequentar eventos e sair em público normalmente sem se preocupar em ser abordada por fãs ou jornalistas?

Ado: Sim. Eu vou a eventos como qualquer outra pessoa. No Japão, há muitas bandas indie se apresentando em casas de shows pequenas, e às vezes eu mesma compro um ingresso e vou ver bandas ou idols tocando em locais para cerca de 100 pessoas ou até menos.

PR: Como é a sensação de ser famosa e anônima ao mesmo tempo?

Acho estranho, sim. Mesmo tendo me tornado famosa, minha vida cotidiana não mudou tanto. É por isso que, quando me vejo na TV, às vezes me pego pensando: "Nossa, eu pareço algum tipo de estrela", quase como se estivesse assistindo a outra pessoa.

PR: Você tem uma voz muito potente e sempre canta em tons mais guturais nos seus shows. Como é a sua rotina de cuidados com a voz?

Sou especialmente cuidadosa quando venho usando muito a minha voz. Quando machuco a garganta, tenho tendência a ter febre ou pegar um resfriado, então realmente quero evitar isso.

Nos dias em que canto muito, uso vapor para manter a garganta hidratada ou bebo chá de mel com gengibre. Às vezes também como alimentos um pouco gordurosos. Sempre gostei de comida pesada e gordurosa, mas quando estava cansada, teve até uma vez em que comi ramen dois dias seguidos. Não era nem que eu quisesse ramen em particular — eu estava mais pensando: "Estou cansada, então talvez precise de algo gorduroso".

Isso vai soar terrível, mas já cheguei a comer ramen enquanto tomava banho de banheira. Olhando para trás, acho que aquilo provavelmente foi longe demais, mas como moro sozinha, muitas vezes acabo comendo algo gorduroso assim.

PR: Falando em shows, você fez uma excelente apresentação no Brasil no ano passado. Eu estava lá e me diverti muito. Senti que transmitiu muita transparência e sinceridade. Quão desafiador é expressar seus sentimentos de trás de uma cobertura/tela?

Um show ao vivo não é apenas um lugar onde as pessoas vão para ouvir música gravada — elas vão para ver o artista. Então, normalmente, as expressões faciais e a performance física também fazem parte dessa expressão. Mas como me apresento em silhueta e minha aparência fica escondida, às vezes sinto que pode ser difícil comunicar o que estou tentando expressar. Por exemplo, mesmo se eu colocar a mão no peito, ela pode desaparecer na sombra do meu corpo, e mesmo se eu sorrir, o público não consegue ver.

Esse aspecto pode ser desafiador, mas também encontrei maneiras de contornar isso. Se eu quiser que o público me veja colocando a mão no peito, por exemplo, posso me virar de lado ou fazer gestos maiores fora do contorno do meu corpo, em vez de diretamente na frente dele. Tento encontrar maneiras de fazer meus movimentos parecerem o mais claros possível.

PR: E quais são as suas memórias dessa rápida viagem ao país? Teve tempo de visitar algum lugar ou provar alguma comida tradicional?

Eu amo açaí, e ouvi dizer que havia uma loja perto de onde eu estava hospedada. Quando fui lá, descobri que era a Oakberry, um lugar pelo qual eu já tinha curiosidade. Foi aí que aprendi que a Oakberry se originou no Brasil, então fiquei muito feliz de poder experimentar lá.

Também senti que as frutas e os abacates tinham um gosto diferente dos do Japão. As frutas tropicais em particular eram realmente deliciosas.

Visitei o Brasil durante a temporada de verão no Japão, mas como as estações são invertidas no Brasil, o tempo parecia mais de outono ou inverno, e me lembro de estar muito frio. Cheguei a me perguntar se comer um açaí naquele frio era a melhor ideia, mas eu queria muito um, então fiquei feliz de qualquer forma.

Há tantas pessoas apaixonadas no Brasil que, de alguma forma, eu sempre associei o país ao verão. Por isso, fico feliz por ter descoberto que o Brasil também tem estações mais frias.

PR: Podemos esperar um novo show da Ado por aqui nos próximos anos? Já existem planos concretos?

Eu adoraria voltar e ver todo mundo no Brasil novamente. Da próxima vez, ficaria feliz se pudesse me apresentar em um local ainda maior. Ainda não esqueci quantas pessoas foram me ver e o quão felizes todos estavam. Eu definitivamente quero voltar.

PR: E de modo geral, quem mais te inspira na sua carreira como cantora?

O cantor que mais respeito é Michael Jackson. A forma como ele conduziu a carreira dele foi completamente diferente da minha, mas acho que ele verdadeiramente personificou a palavra "estrela". Ele acreditava em levar sonhos para as pessoas e continuou dando esperança a tantos. Acho que ele foi uma presença verdadeiramente linda. Ele era uma pessoa tão extraordinária que eu nunca conseguiria fazer justiça a ele com minhas palavras, e quero aprender tanto com o caráter dele quanto com a forma como ele se comportava. Tenho um enorme respeito por ele, tanto como cantor quanto como performer.

PR: Você gravou os vocais para o vídeo comemorativo do Japão para a Copa do Mundo de 2026. Como foi fazer parte da história do esporte do seu país? O que te inspirou na gravação dessa música?

Sou muito grata pela oportunidade de cantar a música do uniforme da seleção japonesa. Nem sempre fui uma fã ávida de futebol, mas sinto que atletas e cantores têm algo em comum. Os atletas têm uma equipe os apoiando, com técnicos e comissão desenvolvendo estratégias, mas no final das contas são os próprios jogadores que têm que atuar. Mesmo que tenham companheiros de equipe, cada jogador está sozinho no momento em que está realmente jogando.

Acho que o mesmo se aplica a cantar ao vivo. Eu também tenho uma equipe me apoiando, mas quando subo ao palco e entrego minha performance, estou lá sozinha.

Nesse sentido, cantei essa música relacionando minha própria experiência com o que os jogadores passam.

PR: Por favor, fale-nos sobre o novo single “Monstruo”, que é a música tema de BLUE LOCK. Como foi a gravação? Qual foi a parte mais divertida ou a mais desafiadora?

Esta foi a minha primeira vez assumindo uma música com uma influência latina tão forte. Eu já estava interessada em música latina, então fiquei muito feliz por ter a oportunidade de cantar esse tipo de música como algo meu.

Ao mesmo tempo, passei por muitas dificuldades com a pronúncia em espanhol e com o sentido de ritmo marcante da música latina.

A seção de abertura em particular, onde o violão latino transita para os vocais a cappella, realmente marcou minha memória porque foi difícil desacelerar o ritmo no ponto certo enquanto mantinha tudo equilibrado.

*Colaborou Breno Deolindo

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