Do ensino aos festivais: Como o governo coreano “exporta” o cinema do país
Omelete fala com diretor da academia pública de cinema que formou Bong Joon-ho
Créditos da imagem: Cena de Parasita (Reprodução)
Esta lista faz parte da KOREA WEEK, semana especial de conteúdo sul-coreano (k-drama, k-pop e mais!) em todas as plataformas do Omelete. Fique de olho na nossa seção KOREA para acompanhar tudo.
Não é segredo para ninguém que os produtos culturais mais populares dos últimos anos ao redor do mundo são, quase sem exceção, sul-coreanos. Do cinema de Park Chan-wook (Oldboy) e Bong Joon-ho (Parasita), passando pelos k-dramas que monopolizam a atenção do público no streaming, e chegando até à legitimação do k-pop como força global imparável, a Coreia do Sul é indiscutivelmente o país mais bem-sucedido do mundo na missão de exportar seus artefatos culturais para o resto do mundo.
Pois bem: a seguir, o Omelete destrincha os bastidores do investimento governamental que está por trás dessa “máquina” de produção e exportação global de conteúdo. Em parceria com o Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), pudemos conversar com Joh Keun-shik, diretor executivo da Korean Academy of Film Arts (KAFA), uma das instituições mais importantes nesse processo cultural estabelecido pelo poder público sul-coreano, e berço de grandes cineastas do país (incluindo Bong Joon-ho).
Para insight adicional – e algumas falas menos “institucionais”, por assim dizer –, também falamos com o cineasta Jang Kun-jae, um formando da KAFA que se tornou nome forte do cinema independente da Coreia do Sul. Seu longa mais recente, Por Que eu Odeio a Coreia (2023), causou polêmica e curiosidade dentro do país por buscar um retrato honesto da misoginia sistêmica dentro da sociedade sul-coreana.
Exibido gratuitamente em São Paulo (SP) em maio, quando Jang veio à cidade brasileira realizar uma masterclass na Cinemateca, o longa ainda não garantiu distribuição comercial por aqui, mas tem sido figurinha carimbada em mostras e festivais pelo país. Confira o grosso dessas duas conversas, que formam um bom panorama do ecossistema cinematográfico sul-coreano, a seguir.
A KAFA: Nascida da crise, formando talentos para o entretenimento sul-coreano
A Korean Academy of Film Arts foi estabelecida em 1984 pelo governo sul-coreano, em um momento de profunda crise, como nos conta Joh Keun-shik: “Naquela época, a indústria [do audiovisual] enfrentava sérias dificuldades, como o declínio do público nos cinemas, o sucateamento dos ambientes de produção e a escassez de profissionais qualificados”.
A ideia, diante desse cenário, era “criar um sistema estruturado de formação de talentos para garantir o crescimento sustentável do setor”. Trata-se, portanto, de uma instituição pública – ou seja: o governo custeia integralmente as mensalidades dos alunos.
“[A KAFA só aconteceu porque] a sociedade sul-coreana encerrou a ditadura militar, e depois alcançou a democratização processual no início dos anos 1990”, completa Jang Kun-jae. “Particularmente durante o governo do presidente Kim Dae-jung [1998-2003], muitas políticas culturais foram implementadas sob o slogan ‘apoiar sem interferir’ e tornaram-se as sementes para o renascimento do cinema coreano”.
Não por acaso, o período citado por Jang é justamente aquele em que o restante do mundo passa a reconhecer a “onda coreana” (ou hallyu) no entretenimento. Medo (de Kim Jee-woon), Memórias de um Assassino (de Bong Joon-ho) e Oldboy (de Park Chan-wook) saem todos no mesmo ano (2003), enquanto grupos de k-pop das primeiras gerações (H.O.T., Shinhwa, S.E.S., BIGBANG, Super Junior, Girls’ Generation) estabelecem o formato consagrado da indústria musical do país, e k-dramas como Sonata de Inverno (2002) e Meninos Antes de Flores (2009) formam o público da TV sul-coreana fora do país.
A KAFA se tornou então campo fértil para a formação de artistas que, posteriormente, teriam grande impacto nesse contínuo de crescimento. Não foi só Bong Joon-ho que saiu das turmas da instituição, mas também Im Sang-soo (A Empregada, O Gosto do Dinheiro), Hur Jin-ho (Uma Família Normal, Ligações Perigosas), Jang Joon-hwan (Save the Green Planet!, Hwayi: O Garoto Monstro), Choi Dong-hoon (O Grande Golpe, Assassinato, Alienoide) e Jo Sung-hee (Nova Ordem Social, O Garoto Lobisomem), entre tantos outros.
“Pelo fato de não ser, em termos jurídicos, uma instituição de ensino convencional que outorga diplomas acadêmicos tradicionais, a academia pôde, com o passar dos anos, operar seu currículo e suas especializações de forma extremamente flexível, adaptando-se com agilidade às transformações da indústria cinematográfica”, relata o diretor executivo Joh Keun-shik, que cita como exemplo a inclusão recente no currículo de uma matéria sobre o uso de inteligência artificial no cinema.
Comemorando seu 20º aniversário este ano, o Curso de Produção de Longa-Metragem da KAFA mira em alunos já graduados, além de cineastas independentes, e funciona até mais como um laboratório de cinema do que como uma faculdade. Os longas produzidos ali serão tema de uma mostra especial em São Paulo (SP) ainda este ano, de acordo com Joh Keun-shik, mas de uma forma ou de outra eles não ficam parados na gaveta…
Produção e distribuição: o modelo sul-coreano de “exportar” entretenimento
“O suporte governamental ao cinema na Coreia do Sul se estrutura em três pilares principais: formação, produção e internacionalização”, cita o diretor executivo da KAFA. A academia representada por Joh Keun-shik, portanto, é só o primeiro passo da máquina bem azeitada que coloca o entretenimento sul-coreano no topo da cadeia alimentar global.
O apoio direto à produção de longas é “operado por meio de fundos de investimento e subsídios destinados a filmes independentes, artísticos e de diversidade”, de acordo com o diretor executivo. Por fim, o governo também “subsidia os custos de participação nos principais festivais de cinema do mundo – como Cannes, Berlim e Veneza –, e fornece suporte para o marketing de distribuição internacional destes títulos”.
Esses passos a mais são operados por instituições que trabalham próximas à KAFA, mas ainda possuem sua independência, como a Corporação de Promoção do Cinema (fundada em 1973, ainda durante a ditadura militar na Coreia, mas significativamente expandida por governos posteriores), e a KOFIC, definida por Joh como “uma instituição independente de deliberação coletiva liderada pelo setor privado”.
O diretor da KAFA ainda elogia o KOBIS, a plataforma de dados de bilheteria oficial da Coreia do Sul (que ele chama de “sem paralelos no cenário global”), e os investimentos públicos e privados em fundos especializados no setor audiovisual. “Consolida-se assim um sistema financeiro sustentável, que permite ao cinema coreano manter uma alta participação de mercado em seu próprio país e, simultaneamente, alcançar conquistas expressivas no exterior”, completa.
Tudo muito eficiente e bonito, mas há um outro lado a se explorar nessa história…
O outro lado: interesses em conflito no entretenimento sul-coreano
O alto investimento – literal e metafórico – de players públicos e privados na indústria do entretenimento sul-coreana leva a um mercado de “alto risco” para os artistas, na definição do próprio cineasta Jang Kun-jae. E este é um cenário de construção histórica, também.
“No final dos anos 1990, a entrada de grandes conglomerados como Samsung, Daewoo, CJ e LOTTE na indústria cinematográfica serviu como base para a formação do atual ecossistema industrial”, comenta ele. “Por outro lado, por meio da integração vertical que abrange investimento, produção e distribuição, essas empresas criaram um sistema de monopólio de mercado, o que simultaneamente acarretou problemas que impediram a indústria cinematográfica coreana de se desenvolver de forma saudável”.
Na ativa desde os anos 2000 (inicialmente como ator, para estrear na direção com Eighteen, de 2010), Jang conhece bem essa indústria. E sua disposição recente para abordar temas sociais espinhosos em produções como Porque eu Odeio a Coreia rendeu-lhe má fama no establishment cinematográfico do país – em conversa com o Omelete, ele até mesmo se refere a uma “período de blacklist” para o projeto, que demorou anos para encontrar financiamento.
“Liderada por grandes conglomerados, a indústria cinematográfica sul-coreana transformou-se em um ecossistema que replica filmes, apoiando-se nos sucessos existentes ao invés de tentar criar novos materiais”, declara. “Para manter um ecossistema saudável, é necessário focar menos em grandes produções de alto risco e alto retorno e dar mais atenção aos filmes de médio e pequeno orçamento que trazem propostas variadas”.
“Deve-se dizer também que nosso último governo, do ex-presidente Yoon Suk-yeol [figura conservadora da política do país, tomou posse em 2022 e foi deposto em 2025, após tentar aplicar um golpe] extinguiu diversas políticas de apoio à cultura, o que também influenciou no fato da Coreia do Sul estar demorando mais para recuperar seu setor artístico e cultural pós-pandemia em comparação com outros países”, completa o cineasta.
Em Porque eu Odeio a Coreia, a protagonista Gye-na (Go Ah-sung, de O Hospedeiro) decide largar toda a sua vida no país natal para se mudar para a Nova Zelândia, como consequência direta do ecossistema sócio político da Coreia. “Somos um país conservador, com uma forte tendência ao familiarismo centrado no patriarcado. Por essa razão, muitas jovens sentem que a sociedade coreana é opressiva e optam pela migração internacional como uma alternativa”, diz Jang.
Apesar da dificuldade de financiamento, no entanto, permanece o fato: Porque eu Odeio a Coreia eventualmente recebeu dinheiro do Programa de Apoio à Produção de Cinema Independente do KOFIC, e tem sido singularizado como representante sul-coreano em diversos festivais e mostras internacionais por aparatos adjacentes ao governo – como o próprio Centro Cultural Coreano no Brasil, por exemplo.
O diretor da KAFA, Joh Keun-shik, defende que “o apoio do governo [à indústria audiovisual] não tem como objetivo apenas os resultados comerciais”: “[A ideia é] manter um sistema de apoio separado para filmes independentes, filmes artísticos e filmes de diversidade, criando um ecossistema onde a comercialidade e a artisticidade coexistem. Essa tem sido a direção consistente da política de cinema coreana”.
Na próxima matéria da Korea Week: descubra como os filmes sul-coreanos chegam ao Brasil, seja em festivais ou no circuito comercial!
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