Oscar escancara que o k-pop não é mais meme — é hegemonia
Vitórias de Guerreiras do K-Pop selam transição importante para o gênero
Créditos da imagem: Guerreiras do K-Pop (Reprodução)
Para uma fatia considerável do público, o k-pop existe como entidade cultural há menos de 15 anos. Era 2012 quando “Gangnam Style”, de PSY, viralizou ao redor do mundo e colocou muita gente diante de um produto da bem azeitada indústria musical sul-coreana pela primeira vez. E, embora tenha sido um sucesso legítimo nas paradas estadunidenses, quebrado recordes no YouTube e se infiltrado até em discussões sérias entre líderes políticos, “Gangnam Style” ainda hoje é vista mais como meme do que como canção.
Parte disso tem a ver com a forma como PSY usa o humor como combustível para o seu k-pop irrepreensivelmente infeccioso, é claro — mas outra parte é simplesmente relutância ocidental em levar a cultura sul-coreana a sério. A recepção de outros grupos de k-pop neste lado do mundo (grupos que fazem arte bem mais sóbria do que PSY, inclusive, como o BTS e o Stray Kids) endossa essa visão: de 2012 para cá, artistas sul-coreanos cujo sucesso cruzou o Pacífico foram vistos como, na melhor das hipóteses, curiosidades benéficas.
As vitórias de Guerreiras do K-Pop e “Golden” no Oscar 2026, no entanto, sinalizam uma mudança importante nesse paradigma. A dominação cultural do longa da Netflix, durante quase todo o ano de 2025, expôs não só a força e o tamanho do fandom que já se reúne em torno do k-pop, como obrigou a indústria estadunidense a repensar sua relação com o gênero. Legitimá-lo em uma plataforma como o Oscar (ou o Grammy, onde “Golden” também levou uma estatueta), é introduzi-lo a um cânone institucional ocidental ao qual o k-pop definitivamente não tinha acesso antes.
E não se engane: o Oscar de “Golden” foi um Oscar para o k-pop. A compositora EJAE, que também proveu a voz cantada de Rumi no filme, já escreveu para grupos de k-pop como Red Velvet, aespa, TWICE, NMIXX, Le Sserafim, Kep1er e KARD. O produtor Teddy Park, enquanto isso, foi por anos o principal nome da YG Entertainment, uma das grandes gravadoras do ecossistema do k-pop, produzindo BLACKPINK, BIGBANG e 2NE1. Em 2016, fundou a The Black Label, casa de grupos e solistas como MEOVV, Jeon Somi, Taeyang e Allday Project.
São, enifm, artistas do mesmíssimo sistema que produziu “Gangnam Style” (de fato, PSY lançou seu grande hit justamente pela YG Entertainment), que deu à luz o BTS, e que produz todos os anos um oceano de artistas e canções que nem sempre chegam às paradas ocidentais, mas que frequentemente influenciam e transformam o fazer pop ao redor do mundo de forma palpável. E a música só tem a ganhar ao reconhecê-los como tal.
Acima de tudo, o k-pop reflete de volta para o pop ocidental o que ele poderia ser se não tivesse vergonha de ser pop. Apaixonado por ganchos melódicos e abraçando a artificialidade de certas construções visuais do gênero, o pop sul-coreano segue o procedimento consagrado por Andy Warhol e cia. ao encontrar significado dentro do que é “marquetável”. Na era em que o pop estadunidense foi engolido e digerido por outros gêneros, como R&B, country e folk — de Taylor Swift a Billie Eilish, é cada vez mais difícil encontrar uma popstar ocidental que encha a boca para dizer que é uma popstar —, o k-pop se apresenta como porto seguro para as transgressões que saíram de moda por aqui.
“Golden” foi sensação cultural porque é uma canção pop brilhantemente escrita, sem precisar se disfarçar de qualquer coisa que não é. Dar o Oscar a ela, e a Guerreiras do K-Pop, é apontar que eles devem servir como exemplo a ser seguido, e assim coroar o que já parecia inevitável para quem esteve prestando atenção: o k-pop não é mais exceção, nem meme. É hegemonia.