Agente Kim: Reativado é Busca Implacável com (mais) anabolizantes
So Ji-sub vive a fantasia de todo pai protetor, mas k-drama tem boa base emocional
Por mais que o primeiro Busca Implacável, lá em 2008, tentasse fazer Liam Neeson parecer um grande herói de ação, o norte-irlandês de (então) 56 anos tinha pouco mais do que a altura (impressionantes 1,96m) depondo ao seu favor nesse sentido. Não que houvesse problema, é claro – o seu Bryan Mills, afinal, tinha um “conjunto muito particular de habilidades”, e existia em um cenário no qual a memória do compacto Bourne de Matt Damon ainda estava fresquinha na cabeça do público do gênero.
O meu ponto é menos que Neeson não se parece com um astro de ação tradicional, mas que So Ji-sub certamente se parece com um. A comparação é oportuna porque o novo k-drama do ator, que tem se tornado habitué nas séries de ação sul-coreanas (ano passado, ele fez a boa Sem Piedade), despertou imediatamente comparações com Busca Implacável uma vez que se soube da sinopse, onde um ex-agente secreto precisa utilizar métodos brutais há muito enterrados para resgatar a filha adolescente, vítima de um sequestro.
Aos 48 anos, So Ji-sub não está assim tão longe da idade de Neeson quando fez o seu primeiro longa de ação, mas Agente Kim: Reativado o vende muito melhor como herói crível deste filão. Enfiado em ternos bem cortados, com o cabelo arrumado de maneira impecável e óculos de armação grossa, o seu Kim Do-hyeon pode estar aclimatado ao disfarce de banqueiro comum, mas há músculos protuberando pelas mangas, a pose rígida de quem está acostumado a caminhar por ambientes onde um movimento errado pode ser fatal, e acima de tudo um senso de perigo que se esconde por trás dos olhos inquietos.
Enfim: So Ji-sub nos diz, sem nem fazer muito esforço, que este homem está longe de ser ordinário. É uma variação interessante do que ele fez em Sem Piedade, uma atuação muito mais soturna, mas que tinha um efeito similar: lá, a sua excepcionalidade o fazia um peixe fora d’água no mundo de regras e padrões da máfia; aqui, ela o transforma em um perigo latente, e um mistério intrigante, num universo muito mais slice of life, corriqueiro. Afinal, por que este homem reprime quem é, ao ponto de se submeter a humilhações terríveis ao invés de revidar, como bem pode fazer?
Este dilema está no coração de Agente Kim: Reativado. Tanto que a série dedica quase todo o seu primeiro episódio a traçar paralelos entre a situação do protagonista e de sua filha, Kim Min-ji (Seo Su-min), que sofre bullying na escola e, embora idolatre o pai solteiro que a criou, tampouco entende a filosofia dele de se submeter calado a todo tipo de injustiça. O roteirista Nam Dae-joon, que vem de aventuras românticas da tela grande (Love Reset, The First Ride, etc), constrói uma observação de até onde a recusa à violência, a resignação, funciona como estratégia de vivência em um mundo de poderes desequilibrados.
Nesse contexto, como qualquer bom herói de ação, Kim Do-hyeon é um grande equalizador. Pai solteiro, funcionário de escritório subestimado… mas dono de força física e, sim, habilidades muito particulares que o ajudam a combater elementos teoricamente muito mais poderosos do que ele. Agente Kim: Reativado não é uma narrativa com grandes ambições, a princípio: o que ele quer ser é uma boa história sobre o homem comum desfazendo o que lhe foi feito de errado. Um velho favorito, sem dúvida.
Para isso, o k-drama está mais do que disposto a gastar tempo e investimento emocional na história dessa ofensa, e dos agravantes em torno dela. Não se trata de material para um primeiro episódio muito empolgante, mas é excelente base para construir a catarse que Agente Kim quer provocar depois.
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