Cena de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Créditos da imagem: Lucasfilm/Divulgação

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Artigo

Indiana Jones que se cuide! Aventuras arqueológicas invadem filmes e TV em 2022

Um ano antes do retorno do aventureiro às telonas, sua influência volta a ser sentida

Omelete
6 min de leitura
Eduardo Pereira
06.05.2022, às 16H23

Após mais de dois anos de pandemia da covid-19 e algumas doses de vacina, o zeitgeist hollywoodiano parece empenhado em celebrar o fim da clausura estrita por meio de grandes aventuras globais. Como aconteceu em 2015, quando diferentes produções (de diferentes gêneros) se debruçaram sobre a gramática dos filmes de espionagem, a telona e a telinha de 2022 têm dedicado um espaço e tanto para a exploração de catacumbas, a descoberta de antigas civilizações e a busca por tesouros perdidos em cenários paradisíacos variados. Esse movimento não poderia ser mais apropriado, já que se anuncia no horizonte de 2023 o retorno de um icônico chapéu e um temido chicote. Mas será que Indiana Jones não periga encontrar uma tumba já revirada, quando retornar de seu mais recente sabático?

Criado por George Lucas e desenvolvido ao lado de Steven Spielberg para as telonas, Jones foi fortemente influenciado pelo sonho nunca realizado de Spielberg em dirigir um filme de 007. O espião britânico, protagonista da mais célebre franquia de filmes de espionagem de todos os tempos, basicamente ditou a gramática do gênero dos anos 1960 em diante, estabelecendo clichês inconfundíveis que se tornaram essenciais tanto como instrumentos de repetição, quanto de subversão. Apoiado nas revistinhas pulp dos anos 1930 e em séries e filmes como Gunga Din (1939), O Tesouro de Sierra Madre (1948) e As Minas do Rei Salomão (1950), Indiana Jones fez o mesmo no cinema de aventura: a partir de Os Caçadores da Arca Perdida (1981), tornou-se para as gerações futuras a pedra fundamental do gênero, ofuscando quem o precedeu.

Isso, é claro, foi há mais de 40 anos, e por mais que permaneça vivo em toda sorte de produto licenciado ou serviço de exibição de filmes on demand da Disney, Jones já começa a esmaecer enquanto grande ícone da cultura pop atual — hoje muito bem servida de todo tipo de aventura, secular e surreal, pelos super-heróis de Marvel ou DC. Ao mesmo tempo, entretanto, sua influência segue vivíssima nessas mesmas produções e em outras, o que projeta sobre o filme vindouro do personagem (seu quinto, com mais um retorno de Harrison Ford) uma pressão pela confirmação de sua relevância. Em um contexto onde qualquer sucesso financeiro significa mais e mais sequências, a nova aventura do arqueólogo pode ir de despedida a recomeço, contanto que confirme o interesse de um público em renovação por mais histórias do tipo.

Cena de Cavaleiro da Lua
Marvel Studios/Divulgação

A menção a 2015, parágrafos acima, não foi à toa: no ano em que Sam Mendes revisitou muitas das marcas clássicas de James Bond em 007 Contra Spectre, o cheiro de naftalina da franquia sessentona atingiu um ápice inédito, desagradando público e crítica em uníssono. No mesmo ano, filmes que usavam a saga como base para sátiras ou homenagens, como Missão Impossível: Nação Secreta, Kingsman - O Serviço Secreto, O Agente da U.N.C.L.E. e até a comédia escrachada A Espiã Que Sabia de Menos, escancaram a necessidade de renovação ao serem mais relevantes que sua própria pedra fundamental. A saída vista foi dedicar os cinco anos seguintes à construção de uma narrativa que equilibrasse o saudosismo característico a Bond com renovação. Em 2021, nasceu 007 - Sem Tempo Para Morrer, um filme que colocou uma mulher preta como 007 e matou seu principal personagem pela primeira vez em 59 anos.

Só que Bond é muito mais à prova de balas que Jones, e a despedida melancólica de Daniel Craig no ano passado aconteceu de forma mais simbólica do que oficial; o personagem, todos sabem, deve retornar mais francamente modernizado dentro de alguns anos. Diretamente conectado à imagem de Ford, o mesmo seria difícil de acontecer com o arqueólogo, ao menos que o desejo do público por mais aventuras do personagem fizesse disso uma necessidade. Esse seria, certamente, o resultado mais lucrativo para Disney e para Lucasfilm, mas os paralelos com o espião inglês podem prenunciar um belo deslize.

Da lucrativa franquia de games da Naughty Dog, Uncharted: Fora do Mapa praticamente abriu 2021 levando o que é a mais explícita homenagem a Indiana Jones dos últimos 15 anos para as telonas, e usando Tom Holland e Mark Wahlberg como pontes populistas a dois demográficos complementares aos fãs do arqueólogo: fãs do cinema de ação dos anos 2000 e adolescentes entusiastas da Marvel. Partindo da mesma origem, Sonic 2 - O Filme não fez feio ao homenagear fases dos games inspiradas pelos filmes dos arqueólogos, colocando o ouriço e companhia em grandes catacumbas cheias de armadilhas em seu terceiro ato adrenado.

Cena de Sonic 2: O Filme
Sega/Divulgação

E não para por aí, claro! Com Sandra Bullock fazendo volta triunfal à comédia, Channing Tatum com seu típico carisma bobão e até Brad Pitt flexionando seus músculos cômicos, Cidade Perdida uniu todas as referências possíveis ao cinema de aventura para tirar sarro, mas também professar uma honesta admiração ao gênero. E, no streaming, o elegante Poirot de Kenneth Brannagh desfilou seu vasto bigode nas paisagens deslumbrantes do Egito em Morte no Nilo, enquanto Oscar Isaac conheceu pessoalmente divindades do país na mais recente nova série do MCU, Cavaleiro da Lua. O ano ainda guarda um sanguinolento mergulho na mitologia nórdica em O Homem do Norte; o retorno de Chris Pratt domando dinossauros em Jurassic World: Dominion; e o que promete ser uma extravagância de mitos e referências comandada por Taika Waititi em Thor: Amor e Trovão.

O que todas essas produções trazem em comum é o uso da gramática das aventuras arqueológicas como pano de fundo para algo que transcende as convenções do gênero, o que se aplica até para O Homem do Norte e sua mescla entre filme histórico/de arte/de ação. Envolta em grande segredo, a trama do quinto Indiana Jones não foi revelada, mas como é praxe da franquia deve misturar misticismo a alguma tensão histórica (como já aconteceu com a luta contra nazistas em busca de elementos mágicos bíblicos como a Arca Perdida e o Santo Graal). A única vez em que a saga fugiu dessa fórmula, com um mergulho na ficção científica em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008), o aventureiro quase acabou preso em sua própria tumba.

Logo, paira sobre a produção a dúvida sobre como Jones encontrará o público em 2023: empolgado pelo terreno preparado por tantas menções ao gênero por ele definido, em 2022, ou cansado; talvez, pior: acostumado a um sabor mais moderno de aventuras do que o velho arqueólogo é capaz de proporcionar. Nas mãos do diretor James Magold recai a responsabilidade de conseguir mais sucesso na modernização do personagem do que um de seus pais, o lendárioSpielberg, e isso ainda levando em conta que 14 longos anos se passaram desde o mais recente fracasso. Se a resposta for negativa, talvez seja a prova definitiva que ele mesmo se tornou relíquia de museu.

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