Marvel's Wolverine escancara o baixíssimo nível do debate de games nas redes sociais
Jogo está sofrendo uma onda de críticas que, muitas vezes, são baseadas em falácias
Não há dúvidas de que Marvel's Wolverine será o próximo fracasso da Sony — ao menos, na visão de uma maré homogênea de usuários de internet que se tornou vocal até demais nos últimos dias. O fim do embargo de gameplay trouxe uma série de questionamentos acerca das mecânicas de combate e exploração do jogo; essas questões logo se tornaram afirmações incontestáveis de que a Insomniac não vai entregar algo minimamente aceitável no dia 15 de setembro.
Em meio a esse turbilhão, não existe espaço para ponderar: ou você se junta à corrente, ou você está defendendo os preços abusivos que são cobrados pelos games de hoje em dia. Apesar de todo esse maniqueísmo, fica aqui o apelo para que pensemos um pouquinho antes de ventilarmos todas as frustrações nas redes sociais.
Tudo começou com a batalha de chefão contra o Protótipo de Sentinela, extremamente similar a um jogo antigo de Ben 10, e também muito parecida com o primeiro boss de NieR: Automata, que é uma das coisas mais geniais que essa indústria produziu na última década; os elementos em tela também lembram bastante um cenário do elogiadíssimo Hi-Fi Rush, ou o último inimigo de Hades 2, indicado a jogo do ano em 2025.
Isso significa que a luta é boa? Definitivamente não. Tive o privilégio de testar Wolverine bem antes do game chegar às prateleiras, e já apontei que a batalha tinha seus problemas. Um ritmo esquisito, em que o Sentinela demora um pouco demais para morrer, foi minha principal crítica na época; e ainda que o tribunal da internet discorde, me recuso a acreditar que um boss é bom ou ruim por seguir um tropo que existe há décadas.
Videogames, afinal, são um veículo artístico de interatividade. A sensação de segurar o controle não é substituída por clipes assistidos no YouTube. Só se sabe da qualidade de um produto como esses quando se está apertando os botões.
Ironicamente, outro clipe que circula por aí é mostrando os botões que seriam apertados durante o combate, tentando apontar que basta apertar o R2 várias vezes para realizar os combos… sendo que os botões de ataque em Marvel's Wolverine são quadrado e triângulo.
Entre as respostas do post original é até possível encontrar o “autor” do vídeo dizendo que o fez como brincadeira, mas o estrago já está feito. Ontem, um colega me perguntou se o jogo ia ser só “andar pra frente e apertar R2”, o que talvez diga mais do que os milhões de visualizações que a postagem já acumulou.
Mais uma vez: outro ponto levantado no preview que fizemos foi sobre como o combate pode ficar cansativo com uma boa quantidade de horas jogadas. Caso esse problema se confirme na versão final do game, ele ainda passa longe de ser algo que vai cravar a sua qualidade — o próprio Marvel's Spider-Man se tornava repetitivo em certos momentos, mas era sustentado por sua excelente exploração.
Essas nuances e qualquer discussão saudável sobre elas são jogadas no lixo quando se pisa nas redes sociais. O diálogo entre gamers em ambientes online nunca passou muito da validação de opinião (e da consequente briga infantil caso os interlocutores discordem), e os últimos anos provaram que esse modus operandi é suficiente para soterrar projetos antes mesmo deles verem a luz do dia.
Highguard não fechou seus servidores em um mês e meio por ser um jogo horroroso, e o último Dragon Age acumulou mais ódio de pessoas que não passaram perto de comprá-lo do que daqueles que de fato colocaram as mãos no game.
É compreensível que a crescente nos preços e as decisões cada vez mais absurdas dos grandes players do mercado acumulem frustração no público, mas não é como se os games estivessem à beira da morte e só GTA 6 pudesse nos salvar com seu realismo, inovação e atenção aos detalhes.
Ainda há muita coisa excelente para se jogar em todas as plataformas, basta olhar os indicados a Jogo do Ano em 2025 — e para muitas pessoas, é bem possível que Wolverine seja um título memorável.
Ao mesmo tempo, ninguém é obrigado a gostar de um ou outro game. Se Wolverine nunca esteve no seu radar, pra que perder tempo reclamando dos controles na internet? Aos que anseiam pelo game e estão decepcionados com os caminhos que a Insomniac escolheu, será que não é melhor esperar para ter certeza de que a visão dos desenvolvedores não faz sentido?
No cerne, videogames são uma forma de entretenimento, e não existe muita diversão em ficar procurando todos os defeitos em algo que ainda nem está disponível para o público. Os tempos de pagar R$10 por um clássico de PlayStation 2 no camelô já passaram, mas duvido que as crianças que se apaixonaram pelos jogos daquela época ficariam felizes com todo esse esforço que os adultos de hoje fazem para gostar de videogame.
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