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Crítica

Phantom Blade Zero é uma ode ao combate, mas não do jeito que você imagina | Review

Primeiro grande jogo da S-Game mostra um carinho louvável com os detalhes

Omelete
7 min de leitura
25.10.2026, às 21H00.
Phantom Blade Zero

Créditos da imagem: Divulgação/S-Game

É engraçado pensar que, entre as dezenas de jogos que já analisei na minha carreira, Phantom Blade Zero é o game que eu mais conhecia e entendia desde o primeiro momento em que coloquei minhas mãos em sua versão final, acima de franquias preferidas e séries consolidadas ao longo de vários jogos. Para além das três sessões de teste que já havia participado — uma em 2024, e duas em 2026 —, também tive um contato extenso com vários dos nomes que fazem parte da construção do fascinante universo Kungfupunk.

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Essa nomenclatura vem da mente de Soulframe Liang, CEO da S-Game e criador do conceito original desse game, que exala excentricidade em quase toda interação. Conhecemos seu escritório (carinhosamente apelidado de S-Office), e só de olhar para as prateleiras é possível entender ao menos uma fração da míriade de referências que construíram sua visão artística.

Mangás que vão de Demon Slayer a títulos da Clamp, inúmeros artbooks de jogos como Bloodborne e Elden Ring, estatuetas que remetem à cultura tradicional chinesa e, claro, uma quantidade intimidadora de lâminas em suas mais diferentes formas ajudam a captar como a história de Phantom Blade se torna algo tão plural, misturando o Wuxia que conhecemos dos filmes com uma estética mais sombria e que traz elementos do steampunk.

Soul, o protagonista, embarca em uma jornada que entrelaça vingança e a própria sobrevivência: em um duelo contra seu irmão de criação, Zuo Shang, ambos saem gravemente feridos, e só não morrem devido a um acordo com o Artífice da Carne. A misteriosa entidade dá um Coração Maculado a ambos; o órgão garante uma sobrevida para a dupla, mas com a validade de 66 dias.

Phantom Blade Zero
Divulgação/S-Game

O ambicioso Zuo Shang, naturalmente, procura formas de sobreviver a essa maldição, enquanto Soul busca finalizar sua vingança — e talvez estender sua expectativa de vida no processo. Ainda que simples em sua premissa, o enredo se enriquece muito no mundo semi-aberto com missões paralelas, documentos e memórias narradas que ajudam a entender um pouco mais sobre o passado dos irmãos, assim como as nuances políticas que regem esse cenário.

Mesmo que as estruturas que sustentam o enredo sejam louváveis, é nítido desde o primeiro trailer que Phantom Blade Zero é, primordialmente, sobre o combate, mas não de uma forma que coloque a apertação de botões ou o timing impecável para defender e atacar em primeiro plano. Ambos são parte essencial da jogabilidade; antes deles, entretanto, está a constante sensação de que, acima de tudo, a S-Game queria homenagear o kung fu.

Em pleno 2026, não é impressionante que um game tenha algumas dezenas de armas à disposição do jogador. O que levanta as sobrancelhas é o carinho com que cada uma delas foi desenhada: sob coordenação do lendário Donnie Yen e do diretor de combate Yang Liu, vemos animações únicas de golpes e finalizações para todo o repertório de Soul, reforçando a identidade própria de cada lâmina.

Sobre isso, ainda se adiciona o processo de adquirir as novas espadas, adagas e afins. Pura e simplesmente, é maneiro demais levar um pedacinho de todos os chefões do jogo consigo. Cem por cento dos chefes te deixam uma “lembrancinha” para que você guarde com algum carinho as memórias daquela batalha, seja uma espada de cobre ou uma imponente Arma Fantasma. É ainda mais divertido que esses presentinhos te liberem novas possibilidades no mapa, servindo como instrumento para avançar em setores que estavam bloqueados por obstáculos específicos.

Phantom Blade Zero
Divulgação/S-Game

As tais Armas Fantasmas, vale citar, são armamentos mais poderosos que podem ser usados de forma limitada. Elas variam entre ferramentas de invocação, como um terço que faz brotar três monges dourados no campo de batalha, a machados gigantes e uma cabeça de leão como aquelas que vemos em danças tradicionais (mas essa cospe fogo). Esse repertório faz com que as possibilidades de combo sejam quase infinitas, instigando o jogador a testar todas as combinações que o game tem a oferecer.

Com tudo isso em suas mãos, qualquer jogador ficaria frustrado se tivesse que assumir uma postura defensiva ao longo das batalhas. Caso esse seja seu receio, pode ficar tranquilo: Phantom Blade é, sim, desafiador em alguns momentos e vai pedir que você tenha um bom timing para se defender, mas é fácil perceber que tudo se facilita ao manter o pé no acelerador enquanto ataca.

Fugindo dos clichês de soulslike — gênero que quase não se aplica nesse game, por sinal —, não há uma barra de stamina para limitar seus ataques e esquivas. Além dos pontos de vida, seu único recurso gerenciável é o Sha-Chi, energia que viabiliza os golpes pesados e que se esvai ao executar defesas comuns. A grande sacada é que o Sha-Chi é totalmente reabastecido ao trocar sua arma principal durante os combates, incentivando combos que misturam seus armamentos ao invés de punir sua agressividade.

Do outro lado do combate, os inimigos possuem sua própria barra de Sha-Chi, que é drenada quando acertamos um parry ou até golpes comuns. Quando ela chega a zero, a vulnerabilidade permite ativar ataques especiais com maior segurança e causar dano massivo em um curto período de tempo.

Curiosamente, mesmo para um estúdio que está estreando em títulos desse porte, o aspecto técnico dá bastante suporte para essa complexidade no combate. É muito fácil “resetar” as melhorias feitas em uma arma e reaproveitar os recursos gastos nela para aprimorar outra lâmina. Da mesma forma, é raro encontrar cenários que não recompensam o jogador pela exploração — trazendo justamente os materiais necessários para polir seus equipamentos, assim como pílulas de história.

Phantom Blade Zero
Divulgação/S-Game

Dentro desse mesmo ângulo, a estética adotada para cada uma das áreas de Phantom Blade impressiona, abrangendo a natureza viva e a vastidão de uma floresta vermelha, ou a verticalidade urbana da imponente cidade de Pangzhen. No viés artístico, também é essencial abordar a trilha sonora de Caisheng Bo, que traduz para notas musicais a improvável combinação da cultura tradicional chinesa com elementos contemporâneos e distópicos.

Do outro lado da moeda, há algumas lombadas no percurso que evidenciam a inexperiência. O ritmo da história pode soar confuso ou cansativo em alguns momentos, e um ou outro ambiente apresenta as famigeradas paredes invisíveis, especialmente com objetos que possuem hitboxes nada intuitivas.

Entre esses pontos negativos, fica o destaque quase cômico para o pulo mais inútil que já vi em games. O botão X, como de costume, faz com que Soul dê um salto, mas ele é mais usado em momentos de corrida por paredes do que, de fato, para pular por obstáculos ou de uma plataforma a outra — lembro de apenas duas vezes que o usei dessa forma em mais de 20 horas de campanha. Era mais fácil deixar essas interações com o botão Bola, que já serve para a maioria das ações no jogo, e usar o X como atalho para alguma das opções no repertório de combate.

Claro, nenhum desses fatores faz com que o trabalho da S-Game perca seu valor. O estúdio já se mostrou, mais de uma vez, interessado em colher feedback de seus jogadores e comunidade para aprimorar o game. Durante o período de review, inclusive, alguns colegas reportaram uma melhoria significativa na performance em PCs depois de uma atualização; na minha experiência, um bug com a árvore de habilidades foi corrigido após alguns dias.

Phantom Blade Zero
Divulgação/S-Game

O lançamento de Phantom Blade Zero no dia 29 de outubro encerra um ciclo de desbravamento de territórios desconhecidos para a S-Game, que teve disposição para gastar rios de dinheiro no marketing: um estande destacado por todos os visitantes da gamescom latam 2026, no mínimo três oportunidades para que jornalistas e criadores de conteúdo viajassem até Beijing para conhecer os estúdios, e várias outras iniciativas internacionais que não ganham tanto destaque no Brasil.

Acredito que, depois da estreia, um novo ciclo se inicia: Phantom Blade Zero é um dos melhores jogos de ação do ano — ou talvez, sem rodeios, um dos melhores do ano. Novata, a S-Game terá de aprender como lidar com um inevitável sucesso estrondoso; a temporada de premiações se aproxima, e tanto o público quanto o júri vão colocar as minúcias do jogo em um microscópio enquanto já anseiam pelo próximo capítulo na história do estúdio.

Para qualquer pessoa que já tenha se divertido com os clássicos filmes de artes marciais, ou àqueles que se divertem com chefões criativos e desafiadores, Phantom Blade Zero é praticamente obrigatório. Quando cada luta é uma nova oportunidade de testar combinações diferentes, a única opção possível é querer cada vez mais — e a obra da S-Game tem muito mais do que o suficiente para saciar essa vontade.

Nota do Crítico

Phantom Blade Zero

Phantom Blade Zero

29 de outubro de 2026
Ação, Kungfupunk
Desenvolvedora: S-Game
Publicadora: S-Game
Classificação: 14 anos
Plataformas: PlayStation 5 , PC
Testado em: PlayStation 5

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