Séries e TV

Artigo

Como Game of Thrones mudou a história da televisão

Série inspirada em livros de George R.R. Martin colocou as produções da TV em um novo patamar

Camila Sousa
17.04.2021
13h00
Atualizada em
17.04.2021
14h05
Atualizada em 17.04.2021 às 14h05

A televisão e o cinema sempre tiveram uma relação curiosa. Enquanto os longas lançados nas telonas sempre eram vistos como obras grandiosas, as séries de TV eram tidas por muito tempo como produtos “menores”, para onde atores e diretores iam quando estavam perto de encerrar suas carreiras. Com o tempo, no entanto, isso foi mudando. Produções como Breaking Bad e Família Soprano mostraram que a televisão poderia ser muito mais e entregar tramas tão densas - se não mais - do que o cinema. 10 anos após o lançamento de sua primeira temporada, Game of Thrones provou também que a televisão poderia também ser blockbuster.

Lançada em 2011, a primeira temporada do seriado estabeleceu o universo de Westeros e já surpreendeu ao mostrar que ninguém ali estava à salvo. Com um orçamento estimado entre US$ 50 e US$ 60 milhões, o primeiro ano não teve grandes batalhas, mas terminou com um momento que ecoou em toda a cultura pop nos anos seguintes: o nascimento dos dragões de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke). O seriado acertou bastante ao alimentar o fascínio do público pelas criaturas, que há muito estavam extintas dentro da história. Ainda que pequenos no começo, os animais tinham o potencial de protagonizar grandes momentos - e foi isso o que aconteceu.

Divulgação

A cada temporada, Drogon, Viserion e Rhaegal foram crescendo, ao mesmo tempo em que Daenerys amadurecia e alcançava mais poder. No nono episódio da 5ª temporada, “The Dance of Dragons”, Dany está em perigo e seu “filho mais velho”, Drogon, aparece para salvá-la. O momento é catártico por mostrar a reação de todos à chegada daquela criatura poderosa e também ressoa no público: o amor de Daenerys por seus dragões reflete a relação do espectador com eles, afinal, quem não ficou com medo ao ver Drogon recebendo várias flechadas? A sequência é uma boa definição da fórmula que fez Game of Thrones ter sucesso: uma cena visualmente grandiosa, mas que também tem um significado emocional: enquanto Daenerys voava pela primeira vez nas costas de seu filho, os fãs também se sentiam mais livres.

Amor e batalhas

Se os dragões são parte da importante da mistura de ação e emoção que faz parte de Game of Thrones, o mesmo pode ser dito das grandes batalhas que começaram a aparecer mais no seriado, especialmente após o sucesso dos primeiros anos e o aumento de orçamento para a parte técnica dos conflitos. O primeiro momento em que isso pode ser visto mais claramente é “The Watchers on the Wall”, penúltimo episódio da temporada 4, que mostra os irmãos da Patrulha da Noite lutando contra os os Selvagens (ou Povo Livre, como eles preferem ser conhecidos). O capítulo foi 100% focado neste núcleo e conta com diversos momentos emocionantes que não deixam a desejar a nenhum blockbuster do cinema: sacrifícios de personagens queridos, estratégias que dão certo e errado e o fim da trágica história de amor entre Jon Snow (Kit Harington) e Ygritte (Rose Leslie). A relação entre os personagens foi tão intensa e ultrapassou os limites da série, que Harington e Leslie se apaixonaram e se casaram alguns anos depois.

Porém, o conflito que fez Game of Thrones mudar tudo em termos de televisão foi A Batalha dos Bastardos, exibida em junho de 2016 como o penúltimo capítulo da 6ª temporada. Com 1h de duração, o capítulo mostrou as forças de Ramsay Bolton (Iwan Rheon) contra os aliados de Jon Snow e entregou o que a série faz de melhor: um perigo real para personagens queridos do público - incluindo a morte de mais um membro da família Stark. A luta foi mostrada de uma forma duramente realista, com Jon caindo na armadilha de Ramsay e ficando encurralado em uma pilha de corpos. Para acentuar a importância do que estava acontecendo, o capítulo teve momentos sem trilha sonora - apenas com o som da batalha - e demorou sua câmera no rosto amedrontado do filho de Ned Stark.

Quando afirmamos que A Batalha dos Bastardos foi um ponto de virada, isso também se reflete nas gravações das cenas. Ao todo, a batalha levou 25 dias para ser feita, incluindo 500 extras e uma equipe de bastidores com mais de 600 pessoas - todos números grandiosos demais para o que televisão estava acostumada a ter até então. O episódio ainda venceu o prêmio de Melhor Roteiro e Melhor Direção no Emmy Awards do ano seguinte, entregues para o diretor Miguel Sapochnik e aos showrunners David Benioff e D.B. Weiss.

Revisitar Game of Thrones também significa falar sobre suas temporadas finais que, infelizmente, não deixaram boas lembranças para os fãs. Aliás, chega a ser difícil entender como uma produção que deixou tantas marcas positivas na indústria do entretenimento foi encerrada de uma forma tão apressada, e que não condiz com a construção feita ao longo de anos. Porém, ainda que seja amargo lembrar como tudo terminou, a jornada grandiosa de Game of Thrones faz valer a pena uma revisita aos primeiros anos, que marcaram a história da televisão e também a memória de muitos fãs.

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