Filmes

Artigo

Zootopia e a nova era dos estúdios Disney

Como o método de John Lasseter levou a renascimento do departamento de animação

Natália Bridi
16.03.2016, às 10H01

Walt Disney já comandava seu estúdio há mais de 10 anos quando descobriu, no início da década de 1930, o segredo para criar um longa-metragem animado inesquecível: histórias emocionais e intrigantes nascidas de mentes criativas. Seguindo esse princípio, foi buscar a ajuda de artistas recém-formados para trabalhar em Branca de Neve e os Sete Anões (1937), concretizando suas ambições pela mistura dos talentos de novatos e veteranos.

None

O filme foi um marco para o estúdio e estabeleceu técnicas fundamentais para o desenvolvimento da animação durante as aulas de qualificação dos novos artistas, criando uma nova tradição na empresa. Legado que levou a fundação, no início dos anos 1960, do California Institute of the Arts (CalArts), escola responsável por formar nomes como John Lasseter, Tim Burton, Brad Bird e Gary Trousdale.

Lasseter, hoje chefe criativo da Walt Disney Animation, tornou-se animador por causa das ideias inovadoras do estúdio, mas quando começou sua carreira a empresa passava por um período difícil, sem emplacar um sucesso desde Bernardo e Bianca (1977). Foi contratado depois da sua graduação na CalArts como uma mente criativa e demitido em 1983 por seu entusiasmo pelo o que considerava ser o futuro da animação: a computação gráfica. Acolhido pela LucasFilm, começou a desenvolver a ferramenta que levaria a criação da Pixar, retornando para a sua primeira casa profissional em 2006, quando seus antigos chefes compraram o estúdio por US$ 7,4 bilhões.

Altos e baixos

Era o início de uma nova era de ouro para a Walt Disney Animation, que tem um histórico de altos e baixos desde a sua fundação. Na época da demissão de Lasseter, o fracasso de O Caldeirão Mágico (1985) quase fechou o departamento de animação em longa-metragem, com o então CEO Michael Eisner mais interessado em vertentes lucrativas da empresa como parques temáticos e programas de TV. A recuperação viria com A Pequena Sereia (1989), seguido por clássicos como A Bela e a Fera (1991), Aladdin (1992) e O Rei Leão (1994) no período conhecido como a Renascença da Disney.  Porém, com o sucesso de Toy Story (1995), criado pela Pixar e distribuído pela Disney, o interesse pela animação tradicional foi caindo gradualmente.

Depois de Tarzan (1999), o estúdio começou a acumular fracassos comerciais como A Nova Onda do Imperador (de 2000, US$ 89,3 milhões arrecadados nos EUA para um orçamento de US$100 milhões), Atlantis: O Reino Perdido (2001, US$ 84 milhões arrecadados nos EUA para um orçamento de US$120 milhões), Planeta do Tesouro (de 2002, US$ 38,1 milhões arrecadados nos EUA para um orçamento de US$ 140 milhões) e Nem Que a Vaca Tussa (de 2004, US$ 50 milhões arrecadados nos EUA para um orçamento de US$ 110 milhões). O único sucesso do período foi Lilo & Stitch (de 2002, US$ 145 milhões arrecadados nos EUA para um orçamento de US$ 80 milhões).

Veja, na galeria, uma linha do tempo do selo clássicos da Disney:

 

Ao poucos, o estúdio foi se rendendo a computação gráfica, primeiro em Dinossauro (2000), que misturava CGI e cenários reais, e depois com O Galinho Chicken Little (2005). Nenhum dos filmes, porém, se igualava às produções da Pixar e de outros estúdios no período em termos de crítica e público. Já sob o comando de Lasseter e Edwin Catmull, que assumiram o comando criativo e a presidência da Walt Disney Animation após a compra da Pixar, o ciclo negativo foi encerrado com o pouco inspiradoA Família do Futuro (de 2007, arrecadando apenas US$ 97 milhões nos EUA).

O ponto de virada

Bolt: Supercão (de 2008, US$ 114 milhões arrecadados nos EUA para um orçamento de US$150 milhões) e A Princesa e o Sapo (de 2009, US$ 104 milhões arrecadados para um orçamento de US$ 105 milhões) não fizeram história como sucessos de bilheteria, mas começaram a recuperar o bom nome da Disney entre os críticos. Enrolados (de 2010, US$ 200 milhões arrecadados nos EUA para um orçamento de US$ 260 milhões) seguiu pelo mesmo caminho, com Detona Ralph (de 2012, US$ 189 milhões arrecadados para um orçamento de US$ 165 milhões) sendo o primeiro filme desde Lilo & Stitch a cobrir o próprio custo nas bilheterias do seu país de origem.

Frozen: Uma Aventura Congelante (2013) virou o jogo de vez quando fez US$ 400 milhões nos EUA para um orçamento de US$ 150 milhões e somou mundialmente US$ 1,2 bilhão, tornando-se a maior bilheteria de uma animação da história. Também rendeu o primeiro Oscar de longa-metragem animado para a Disney - o estúdio, que foi um dos pioneiros no formato em Hollywood, ainda não tinha conquistado uma estatueta na categoria iniciada em 2001. Operação Big Hero (2014) seguiu o mesmo trajeto, com US$ 222 milhões arrecadados nos EUA para um orçamento de US$ 165 milhões e um Oscar de Melhor Animação. Destino traçado também por Zootopia: Essa Cidade é o Bicho (2016), último lançamento do Walt Disney Animation Studios, que acumula boas críticas e US$ 148 milhões nas bilheterias dos EUA após duas semanas em exibição.

O segredo de Lasseter e Catmull para criar essa segunda Renascença é simples: criatividade. Ao invés de seguir uma abordagem corporativa, com os animadores recebendo notas de executivos que tentam reproduzir a mesma fórmula de sucessos anteriores, o estúdio agora prioriza seus cineastas. É a mesma política da Pixar, com a avaliação do trabalho em progresso sendo feita interna e coletivamente. A cada três meses, o filme é exibido para animadores, roteiristas, produtores e demais profissionais, que dão conselhos e sugestões para o diretor encarregado do longa. Em Zootopia, por exemplo, a recomendação de aquele universo deveria respeitar a escala da cada animal partiu de Lasseter em uma dessas exibições (resultando na fonte de muitas das boas piadas do filme). Os movimentos de Elsa durante "Let it Go", em Frozen, também foram sugestão do chefe criativo. 

Com a Disney finalmente estabelecida na nova era da animação, o grande desafio passou a ser diferenciar o que é Pixar e o que é Walt Disney Animation Studios. Lasseter não vê problema, tendo criado uma regra simples: as equipes não podem se misturar. Os dois estúdios estão localizados na Califórnia, com a Pixar em Point Richmond, próximo de San Franciso, e a Disney Animation em Burbank, próximo ao centro de Los Angeles. Andrew Millstein cuida do dia a dia do estúdio da Disney, com Catmull e Lasseter participando de reuniões semanais com toda o time. O objetivo da Pixar é continuar a fazer a própria história, tento também se recuperado de uma crise criativa recentemente (leia mais), enquanto o da Disney, explica Lasseter, é honrar o nome do seu fundador.

Com títulos pela frente como Moana, com a sua primeira princesa polinésia (previsto para novembro deste ano), e Gigantic, baseado em João e o Pé de Feijão (previsto para 2018, com canções da dupla de Frozen Robert Lopez e Kristen Anderson-Lopez), a Disney parece ter recuperado a sua velha magia (financeira e criativa). Bom para o cinema, que tem no mercado novos produtos de qualidade. Bom para o público, que pode crescer com esses “novos clássicos”.

Zootopia estreia no Brasil em 17 de março.

Conteúdo Patrocinado

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.