Street Fighter | Para fazer Bison, David Dastmalchian olhou para Mussolini
Em entrevista ao Omelete, ator que fará o vilão revelou suas inspirações para o personagem
Créditos da imagem: Paramount Pictures
Conversar com David Dastmalchian sempre é um prazer. Além de ator, ele é podcaster e escritor de quadrinhos, o que significa que não lhe falta jeito com as palavras. Veterano de uma série de filmes aclamados como Duna, Os Suspeitos e O Cavaleiro das Trevas, Dastmalchian tipicamente alterna entre o sombrio e o besta (como em O Esquadrão Suicida), mas em Street Fighter, ele quer juntar os dois.
No filme live-action que adapta o lendário game de luta da Capcom (e ganhou um novo trailer hoje), Dastmalchian vai interpretar o vilão M. Bison (ou, se você quiser ser fiel à versão japonesa dos nomes: Vega). Em Bison, há tanto o ditador perigoso quanto uma figura um tanto quanto exagerada. Ou seja, o melhor dos dois mundos para o ator.
Na entrevista com o Omelete, Dastmalchian, que se disse inicialmente surpreso com o convite para viver Bison, revelou como ele entendeu o papel e construiu o vilão. Sua ideia foi curiosa: "E se alguém tivesse o ego e a megalomania de Mussolini, mas não tivesse poderes?" Confira nossa conversa completa abaixo.
Guilherme Jacobs: David, muito bom falar com você. Na verdade, eu entrevistei você há alguns anos por causa de A Última Viagem do Deméter.
David Dastmalchian: Sim, eu me lembro. Obrigado. Bom ver você. Como você está, cara? É ótimo te ver.
Guilherme Jacobs: Estou bem. E você?
David Dastmalchian: Ah, estou tão empolgado por finalmente poder falar sobre Street Fighter, cara. Incrível demais.
Guilherme Jacobs: Sinceramente, quando você foi escalado para este filme, eu pensei: "claro, faz todo sentido". Porque quando conversei com você sobre Deméter, lembro que você mencionou que, quando leu Drácula, pensou: "este capítulo daria um filme", sabe? E eu sempre fico com essa sensação de que você pensa muito sobre os mundos que habita. Então estou louco para saber: quais foram os seus pensamentos sobre Street Fighter quando esse papel chegou até você?
David Dastmalchian: Bem, primeiro, obrigado por dizer que acreditou em mim quando soube que eu seria o Bison porque, na verdade, muitas pessoas familiarizadas com o jogo não me viam como o Bison. Eu também fiquei confuso no início, quando o Kitao disse: "Quero que você seja o meu Bison". Então nos reunimos, nos encontramos e começamos a conversar. Eu disse: "Você pode me explicar? Porque eu tenho uma visão e uma ideia do que isso poderia significar, mas quero saber o que você quer dizer". E começamos a falar sobre os grandes tiranos da história, desde os mitos gregos até o século XX.
E você pensa nessas personalidades que lideraram movimentos inteiros. Tipo, pensei muito em Mussolini. Pensei muito em David Koresh. Pensei muito em Jim Jones — essas personalidades que conseguem reunir todas essas pessoas porque acreditam em algo que vai evoluí-las, tirá-las da dor, tirá-las da fraqueza para a força. Eu poderia citar muitos outros, mas não vou. Tenho certeza de que você tem um conhecimento enciclopédico sobre isso.
Guilherme Jacobs: Sim [risos].
David Dastmalchian: Então essa foi a abordagem. E o Kitao disse — porque eu falei: "Sabe, quando penso no Bison, acho que o entendo psicologicamente, mas fisicamente eu vejo um homem que evoluiu para quase como o poder de..." Sabe, quando você pensa em um cara enorme e musculoso, como eu era aos 19 anos quando jogava futebol americano, ou sabe, já fiquei grande antes, mas eu estava tipo, muito curioso.
Aí ele disse: "Esta é a história do Bison tentando conseguir esse poder e não conseguindo. Ele não alcançou... ele alcançou o poder mental, ele alcançou a liderança, ele é intimidador e é poderoso com seus seguidores, mas agora ele não tem a coisa de que mais precisa, que é o Psycho Power". Sabe, o poder de... nos jogos, a magia é a essência de... é como a Força se você estiver assistindo a Star Wars. É como a spice em Duna. E neste filme, ele está ficando louco porque ainda não consegue manifestá-lo, mas está muito perto. E se ele conseguir reunir esses guerreiros em um só lugar, ele tem o truque para finalmente tentar fazer acontecer.
Guilherme Jacobs: Entendi.
David Dastmalchian: Agora ele precisa usar toda a sua genialidade para enganar todo mundo para que se reúnam e lutem, para que ele possa conseguir isso. Então o filme é isso, e fez sentido para mim. E eu disse: "Certo, vamos fazer deste filme um sucesso absoluto para que possamos fazer outro, e aí eu vou morar na Áustria por um ano e fazer fisiculturismo".
Guilherme Jacobs: Isso aí! Bem, eu mencionei que vi a visão, como você colocou, porque anotei aqui que você interpretou alguns personagens profundamente sombrios, sabe, como em Os Suspeitos, ou em um filme muito subestimado, eu acho, Boogeyman. Mas você também fez o que eu chamo de personagens encantadoramente bobos, como o Bolinha ou aqueles dos filmes do Homem-Formiga. E quando penso no Bison, claro, ele é o vilão, mas há uma palhaçada ou extravagância nele nos jogos. E posso imaginar que você esteja fundindo um pouco desses dois mundos. Onde você acha que esse personagem se posiciona entre o sombrio e o bobo?
David Dastmalchian: Curiosamente, se você já assistiu... quando você pensa sobre os monstros e heróis gregos clássicos, aprendi isso no início dos estudos de teatro sobre as máscaras: há a comédia e o drama, a tragédia e a comédia. São apenas dois lados da mesma moeda. Então, com o Bison, se eu puder me dedicar mil por cento à atuação de dar vida a este homem que acredita tanto em algo e isso não está funcionando, e ele tem todas essas pessoas olhando para ele, esperando que ele entregue o que lhes prometeu, e ele ainda não é capaz de manifestar seu poder — isso o está deixando louco.
Portanto, ele está fazendo coisas em um nível de absurdo tão grande que é daí que virão a comédia e o humor. Não acho que jamais terei muito sucesso como ator tentando ser engraçado. Simplesmente não vai funcionar. Preciso me comprometer com as circunstâncias, com o roteiro, e então permitir que minha própria falha, cara no chão, as coisas que vão acontecer sejam... E também, o Bison que queríamos criar é perturbado. Ele é tão perturbado por causa dessa busca pelo que acredita ser possível para as pessoas que ele é, para algumas pessoas, provavelmente um pouco estranho. E eu adoro isso, porque sempre me lembro de jogar o game com aquela risada louca dele.
Guilherme Jacobs: É, exatamente.
David Dastmalchian: Eu fiquei tipo: "Quero sentir isso", e simplesmente fui com tudo, cara. Eu queria quebrar blocos de concreto no soco, sabe, como você pode fazer no jogo — exceto, e se ele não conseguisse? E se você jogasse com o personagem Bison, mas não pudesse fazer o Psycho Crusher? E se tudo o que você pudesse fazer fosse apenas dar socos como um humano comum? Então, eu tentei isso e, honestamente, ainda tenho cicatrizes nas mãos porque estava tentando soco na parede como o Bison, mas pensei: "Eu ainda não tenho esse poder". E isso me fez sentir louco. Foi incrível.
Guilherme Jacobs: Incrível. Bem, eu ia perguntar sobre a sua familiaridade com o jogo. Tenho certeza de que você vai se cansar dessa pergunta. Tipo, qual era a sua relação com o jogo? E você gostava do Bison? Não, acho que no seu ciclo de imprensa você ainda não se cansou dessa pergunta.
David Dastmalchian: Então, isso é tipo eu indo à loja de quadrinhos toda vez que tinha um dinheiro sobrando. Eu ia comprar quadrinhos, ia ao cinema e ia a um lugar chamado Fun Factory no Kansas, onde cresci, que era um arcade. E a gente jogava... vejamos. Eu adorava Indiana Jones e o Templo da Perdição, jogando sozinho, Galaga sozinho, e depois Street Fighter com meus amigos.
Guilherme Jacobs: Entendi.
David Dastmalchian: Porque Street Fighter você também podia jogar na casa do meu amigo quando os consoles caseiros realmente começaram a decolar e as pessoas puderam começar a jogar Street Fighter II em casa. Tipo, você podia ficar muito bom com o seu personagem para depois jogar no arcade. E eu coloquei muitas moedas em muitos videogames no Fun Factory. Comecei jogando de Blanka porque sempre amei monstros, e acho que o Blanka para mim era o mais fácil de jogar para iniciantes, porque eu podia simplesmente pegá-los e dar um choque neles. E depois comecei a desenvolver um bom jogo de Chun-Li e, eventualmente, Bison.
Guilherme Jacobs: Demais. Demais. Ok, bem, temos que encerrar, o que é uma pena porque, honestamente, você é um daqueles caras com quem acho que poderia conversar por tipo uma hora, mas...
David Dastmalchian: Vamos fazer de novo! Tenho muitos quadrinhos saindo agora. Tenho Street Fighter saindo em outubro. Espero estar na New York Comic-Con para promover todas essas coisas. Espero poder ir para onde quer que seja que você mora.
Guilherme Jacobs: Nós temos a CCXP aqui no Brasil. Você deveria vir algum dia, seria incrível.
David Dastmalchian: Sabe, o Brasil é um dos meus... Eu nunca fui, e os fãs no Brasil são tão incríveis. Eu amo. Bem, envie meu carinho a todos no Brasil, por favor.
Guilherme Jacobs: Enviarei. Só quero terminar com esta pergunta: parece haver muita camaradagem entre vocês. O elenco parece muito unido. Então, preciso saber: qual membro do elenco você traria para o Grave Conversations?
David Dastmalchian: Certo. Eu fiz com o Cody Rhodes. Quero trazer o Joe, quero trazer o Roman Reigns... mas acho que, sabe quem eu acho que seria realmente incrível no caixão? O Eric André. Sinto que ele teria uma visão maluca.
Guilherme Jacobs: Com certeza. Incrível falar com você, cara. Tenha um ótimo dia. Até breve.
David Dastmalchian: Obrigado. Foi muito bom conversar de novo, cara. Bom ver você, meu amigo.
Editar comentário
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?
Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login para comentar e avaliar
Compartilhe sua opinião, publique críticas e participe das discussões com a comunidade Omelete.Escrever comentário