Sean Connery em Marnie, Confissões de uma Ladra (1964), de Alfred Hitchcock

Créditos da imagem: Universal/Divulgação

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Rotulado de canastrão, Sean Connery usou charme para conquistar seu espaço

Para além de James Bond, ator estrelou clássicos que merecem ser redescobertos

Chico Fireman
31.10.2020
13h05
Atualizada em
31.10.2020
15h37
Atualizada em 31.10.2020 às 15h37

“O rei está morto. Vida longa ao rei”. Com estas duas frases, em várias monarquias, era proclamado o fim de um reinado e a ascensão de um novo soberano ao poder. Neste 31 de outubro de 2020, a expressão parece uma despedida adequada para um homem que virou símbolo de realeza, um Sir, Sean Connery.

O ator escocês morreu aos 90 anos, 68 longas-metragens, alguns curtas e projetos para TV depois, deixando um legado que vai além do cinema. Numa época em que não existia o conceito de blockbuster, ele estrelou um, O Satânico Dr. No, de 1962, a estreia do espião James Bond nos cinemas. Foi um sucesso tão grande que gerou uma série de 26 filmes, alguns deles apócrifos, e consolidou personagem e protagonista para sempre no panteão mais alto da cultura pop.

Connery foi convocado para os quatro filmes seguintes de 007 e, embora não quisesse se comprometer com uma série, decidiu que a projeção serviria de impulso para sua carreira, que ainda não havia decolado. Estava certo.

O primeiro a convocá-lo foi Alfred Hitchcock, que o escalou como protagonista de Marnie, Confissões de uma Ladra, ao lado de Tippi Hedren. Nestes primeiros anos, se dividia entre os filmes de Bond e trabalhos com diretores como Sidney Lumet, Basil Dearden e Vittorio De Sica, que o recrutou para o papel dele mesmo, tamanha a popularidade do ator na época.

Depois do quinto 007, resolveu pular fora e o personagem criado por Ian Fleming foi encarnado por George Lazenby. Fracasso. Metade da bilheteria do longa anterior. O público rejeitou o "novato" e o escocês foi convencido a voltar para mais um filme. Os espectadores retornaram em peso, mas o ator não queria que aquilo fosse uma muleta e decidiu por outros caminhos.

Sean Connery queria ser redescoberto. Um dos momentos mais interessantes deste movimento foi quando ele decidiu trabalhar com o cineasta georgiano Mikhail Kalatozov na coprodução soviético-italiana A Tenda Vermelha para provar que era capaz de enfrentar desafios. Abandonar uma posição segura e a aprovação popular foi uma decisão corajosa, ainda mais para um intérprete que, do alto de seu 1,88m, sempre foi mais elogiado por sua beleza e carisma do que por seus dotes dramáticos.

Boa parte da crítica considerava Connery um canastrão, mas este “perfil” o ajudou a encarnar alguns de seus personagens mais marcantes. Entre eles, o Zed da ficção-científica pós-apocalíptica Zardoz; o Colonel Arbuthnot de Assassinato no Expresso de Oriente, baseado em Agatha Christie, mais um dirigido por Lumet (de quem foi parceiro em vários filmes); e o Robin Hood senior de Robin e Marian, que estrelou ao lado de Audrey Hepburn.

Mas o charme do ator foi ainda mais irresistível quando ele ganhou o papel de protagonista de O Homem que Queria Ser Rei, clássico setentista de John Huston a ser redescoberto, em que contracenou com Michael Caine. Embora o colega roubasse as atenções sempre que aparecia em cena, Connery soube como usar a ironia e o sarcasmo a seu favor, caminho que seguiu ao longo de sua carreira.

Foi o caso de Os Intocáveis, obra-prima de Brian De Palma, pelo qual o ator finalmente teve reconhecimento por uma performance sua, já no final dos anos 1980. Ele foi indicado e ganhou vários prêmios, entre eles o Oscar de melhor ator coadjuvante, o que abriu as portas para que seu esforço como artista começasse a ser recompensado. Um ano depois ele venceu o Bafta, o equivalente inglês ao Oscar, por O Nome da Rosa, um de seus melhores papéis, e encerrou a década indicado ao Globo de Ouro por sua hilária participação em Indiana Jones e a Última Cruzada, onde vive o pai do personagem de Harrison Ford.

O aplauso que o ator tanto perseguiu finalmente tinha chegado e fazia um bom match com o sucesso popular que ele havia conseguido com James Bond décadas antes. Aliás, sempre bem humorado, Connery aceitou retomar o personagem em 1983 num filme que não pertencia à franquia oficial e que só foi possível depois de uma batalha na justiça. A ironia disso tudo é que o novo longa se chamava 007: Nunca Mais Outra Vez, como se fosse uma referência sarcástica a sua própria resistência em permanecer na pele do espião.

A partir do anos 1990, sem nada mais a provar, Connery topou estrelar vários filmes de suspense e ação genéricos como Sol Nascente, A Rocha e Armadilha, com o detalhe que ele já estava na casa dos 60 desde o início da década, um feito numa indústria que adora esquecer dos mais velhos.

O fato é que, num negócio em que tantos são engolidos por suas limitações e pelo próprio mecanismo da indústria, mesmo criticado por nunca ter sido um grande ator como outros de sua geração, Sean Connery encontrou em seu charme e uma maneira de destacar seus talentos, criar uma assinatura e escrever seu nome na história do cinema e da cultura pop.

Sean Connery morreu. Vida longa a Sean Connery.

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