Eu assistiria Samara Weaving em qualquer coisa - e você também deveria
Mesmo quando não é bem servida pelos roteiros, atriz australiana tem o “fator X”
Créditos da imagem: Samara Weaving em Por Cima do Seu Cadáver (Reprodução)
A primeira vez que vi Samara Weaving em tela foi em Monster Trucks (2016), a inofensiva aventura juvenil estrelada por Lucas Till (pré-MacGyver) como um rapaz cuja amada picape é invadida por um monstrinho de CGI. A australiana nem mesmo é a protagonista feminina do longa, posto que pertence a Jane Levy (pós-A Morte do Demônio), mas sim uma menina da escola sobre a qual ele alimenta fantasias. Depois ela esteve em Três Anúncios Para Um Crime (2017), é claro, mas só muito brevemente como a namorada mais jovem do ex-marido de Mildred (Frances McDormand) – um grande filme, enfim, que de forma nenhuma pode ser considerado “dela”.
E é isso, essas são as duas performances esquecíveis do currículo de Samara Weaving. Daí em diante, ela nunca mais passaria batida.
Tudo começa, para mim, com A Babá (também 2017). Lançado direto na Netflix, o longa de terror adolescente acompanha um menino (Judah Lewis) que descobre que sua amada babá faz parte de um culto satânico, e está disposta a matá-lo para conseguir um trato com o demônio. Dirigido por McG (bem pós-As Panteras) e escrito por Brian Duffield (pré-Ninguém Vai te Salvar), o longa é uma besteira assumida e deliciosa, que trafega bem na nostalgia pelos terrores hormonais que definiram outras épocas do gênero. E Weaving, que interpreta a tal babá do título, Bee (é claro que ela se chama Bee!), está excelente.
De certa forma, Bee é a menos caricata entre as personagens do filme – seus colegas de culto, vividos por figuras como Robbie Amell, Hana Mae Lee e Bella Thorne, são pintados em traços muito mais exagerados –, mas Weaving entende que ela também é uma caricatura. Em A Babá, ela encarna e destroça com o mesmo prazer a fantasia que funda a personagem, um avatar para todas as babás descoladas que se infiltraram no imaginário estadunidense como as primeiras paixões de seus meninos. Ela é doce e discretamente sensual aos olhos do protagonista, e chocantemente real em sua irritação quando essa imagem se quebra.
Aos poucos, ficaria claro que a magia de Weaving como atriz era justamente essa: se atirar na direção de um arquétipo e nos lembrar da potência que ele tem, seja por sua ilusão ou por sua base na realidade (às vezes, pelas duas coisas!). O resultado é que a carreira da australiana tem se construído, de forma não menos do que impressionante, em projetos nos quais ela encarna o melhor disso ou daquilo no cenário contemporâneo.
Em Casamento Sangrento (2019) e na sequência A Viúva (2026), ela foi a melhor final girl deste século, porque entendeu como nenhuma outra atriz a profunda fúria, o profundo cansaço e a profunda fibra moral que definem essa personagem. Em Nove Desconhecidos (2021), fez a melhor ricaça sem noção do recentemente prolífico subgênero das histórias de ricaços sem noção (perdão, elenco de The White Lotus!). Em Azrael (2024), deixou John Wick comendo poeira ao expressar o que há de mais sombrio em uma história de vingança. Em Um Stalker Apaixonado (2025), foi a melhor popstar ficcional (partes iguais gente como a gente e, bom… ricaça sem noção) em meio às muitas que temos visto nos últimos anos na tela grande.
Por fim, no seu lançamento mais recente em terras brasileiras, Por Cima do Seu Cadáver (2026), Weaving transforma a típica esposa frustrada da comédia ácida de relacionamentos em um amontoado de nervos que transborda em ressentimento e escárnio, tudo enquanto permite que a entendamos como personagem (ao invés de odiá-la como um arquétipo misógino). Eu não sou um grande fã de Por Cima do Seu Cadáver, como esta crítica deixa claro, mas Samara Weaving certamente não tem nada a ver com isso.
Como faz todas as vezes que aparece em tela, a atriz me envolveu e me fez vibrar – principalmente com os berros invariavelmente catárticos aos quais suas personagens frequentemente recorrem em certos pontos dos filmes em que aparecem. Mesmo quando o material não a serve muito bem, Weaving sempre emerge intocável, trazendo certo charme punk para os procedimentos que transformam a sua desconstrução de estereótipos em uma brincadeira deliciosa.
Ela é o tipo de atriz que sabe que está atuando, e não faz a menor questão de esconder. Seu carisma de estrela (ainda que o tipo de estrela contemporânea, que não move montanhas como movia antigamente) é parte do charme, e não um obstáculo a ser vencido em alguma busca fútil por “autenticidade”. É tudo uma diversão, no final das contas, e Samara Weaving quer que a gente se divirta com ela. Quem somos nós para recusar?
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