Masumi e Jonathan Rhys Meyers em cena de Princesa da Yakuza

Créditos da imagem: Divulgação

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Princesa da Yakuza | Máfia japonesa vem a São Paulo em filme de Vicente Amorim

Filme com Jonathan Rhys Meyers adapta HQ Samurai Shirô, de Danilo Beyruth

Marcelo Forlani
11.10.2021
10h06
Atualizada em
11.10.2021
10h31
Atualizada em 11.10.2021 às 10h31
Madrugada de domingo para segunda. O Fantástico já acabou faz tempo. Os programas de futebol estão se arrastando para o encerramento. Alheios a tudo isso, cerca de 50 pessoas andam de um lado para o outro no bairro do Bom Retiro, no centro de São Paulo. As sombras nada encorajadoras que vêm da rua invadem também a escada do prédio conhecido como Casa do Povo. O cenário ali dentro não é bonito. Dá para ver estilhaços de espelhos, cadeiras jogadas e um ventilador quebrado. No chão, espadas de bambu e armaduras japonesas mostram que estamos em uma academia de kendô, a arte-marcial inspirada nas lutas dos samurais. Na parede, ideogramas japoneses, fotos do sensei e uma bandeira do Japão com um esguicho de sangue. 
 
Estamos no set de Princesa da Yakuza, novo filme de Vicente Amorim (Um Homem BomMotorradCorações Sujos). O longa é uma produção Brasil-Japão-Estados Unidos falada em português, japonês e inglês. A cena que está sendo rodada quando chegamos ao local mostra Shirô (Jonathan Rhys Meyers) entrando na academia destruída. Achando que ele tem a ver com aquele cenário desolador e a morte de seu mestre, Akemi (Masumi) pega a espada de bambu que está em suas mãos e vai com tudo para cima do gringo. As duas câmeras que captam tudo estão protegidas em uma espécie de grade, assim como o diretor de fotografia Lula Cerri. A coreografia da luta está bem ensaiada, mas o que chama mesmo a atenção é a sintonia da equipe técnica, que troca posicionamento de luz e câmeras em poucos minutos para cada take
 
É praticamente a mesma equipe há 17 anos. É como uma banda que se conhece e toca junto há muito tempo”, reconhece o diretor. "É uma equipe que não apenas está acostumada a trabalhar comigo, mas que sabe fazer este tipo de filme. É entrosamento e experiência em um tipo específico de trabalho. Ação está para o cinema como o solo de guitarra está para o rock and roll. Você precisa ser virtuoso. Precisa ter grande conhecimento do seu instrumento”, orgulha-se Amorim. 
 
Quem comanda a ação do filme são Alice Gomes e Ricardo Rizzo. "E tivemos apoio da galera do Kendô: Tadao Ebihara e Adrian Yoneda. Este tipo de coisa não dá para não fazer direito, né? Não dá para "improvisar um kendozinho”, complementa o cineasta. Já Rhys Meyers trouxe sua experiência de sets anteriores: “estou usando muito do que aprendi em Vikings. Richard Ryan, que era o especialista em espadas da série, e a equipe dele me ensinaram muito como usar a espada, como me movimentar. Eu não estava com medo de me machucar, nem nada. E Masumi está sempre tão concentrada que eu me sinto confortável em todas as cenas.
 
Mas, às vezes, algo pode sair do controle. Em uma das tomadas, Masumi, que está atuando pela primeira vez em um filme e cujo maior contato com artes-marciais foi se casar com o ator e artista marcial Kenny Leu (o Gohan da websérie Dragon Ball Z: Light of Hope), acabou acertando o shinai na cabeça do ator britânico. “Naquele momento que ela me acertou, estava tudo bem. Não foi forte, ninguém se machucou. Mas ela ficou receosa e mostrei para ela que deveríamos usar aquele sentimento real para o filme, aquele medo, tristeza e raiva que ela estava sentindo”, disse Rhys Meyers. 
 
Aliás, foi um outro sentimento que acabou trazendo a atriz ao país. Nascida nos Estados Unidos, mas criada em Tóquio, Masumi lembra que seu primeiro contato com a história foi a graphic novel escrita e desenhada por Danilo Beyruth. "Eu gosto muito da HQ. Senti uma conexão imediata com ela, porque é um pouco da minha vida. Eu nasci em um país e fui criada em outro e quando isso acontece, chega um ponto em sua vida em que você está perdida, sem saber para onde ir, qual seu propósito, ou qual seu lugar no mundo. A história de Akemi é sobre achar seu poder e o propósito de sua vida. Todo mundo passa por isso, de certa forma. Eu passei por isso, quando estava em Tóquio, no meio de um terremoto. Naquele momento decidi voltar para os Estados Unidos e investir na minha música. Eu me identifiquei na hora com a HQ”, lembra a descendente de japoneses. 
 
Apesar de adaptar a HQ Samurai Shirô, o filme vai se chamar Princesa da Yakuza. E o papel de Masumi tem tudo a ver com isso. "O protagonismo do filme é da Akemi. Então, chamá-lo de Samurai Shirô seria incorreto. É a mesma história, mas o ponto de vista é o dela”, relata o diretor. Na verdade, talvez nem devêssemos chamar o filme de adaptação, pois a graphic novel foi feita meio em paralelo com o roteiro de Fernando Toste, com colaboração do próprio Danilo Beyruth, do diretor Vicente Amorim e do produtor L.G. Tubaldini Jr., o Tuba. Beyruth, que havia trabalhado em Motorrad, ajudando na criação dos personagens, apresentou a ideia para Amorim em um almoço arranjado pelo produtor. "Houve uma convergência. É baseada na HQ, que está pronta há cerca de um ano, mas foi um trabalho coletivo”, diz Amorim. 
 
Ao ver os neons e os reflexos das cenas já filmadas, é impossível não pensar em Wong Kar-Wai, mas também no recente John Wick. Porém, Amorim faz questão de ressaltar que não vai ser uma versão brasileira do filme estrelado por Keanu Reeves: "Acho que as nossas maiores influências são as influências do próprio John Wick, que são os filmes de ultraviolência coreanos e japoneses. Mas também o ponto de vista estético e o ritmo [do cinema asiático]”. Outros diretores citados como referência são Takashi Miike, Takeshi Kitano, do Byung-gil Jung e John Woo. 
 
E embora a Ásia seja uma influência óbvia, Rhys Meyers faz questão de salientar que o filme não poderia ser filmado em outro lugar. “Temos uma energia aqui que não existe em São Francisco, Londres ou Nova York. É algo que só se acha aqui em São Paulo. Eu acho de verdade que a história não funcionaria fora daqui, porque a comunidade japonesa aqui é enorme e tanto os japoneses que chegaram quanto os brasileiros conseguiram, de alguma forma, tirar o melhor um do outro", diz o ator. 
 
Mas não espere ver nas telas a cidade que você está acostumado a ver quando passeia pela Liberdade. “Não chega a ser uma versão futurista da Liberdade, mas é uma tentativa de colocar na tela uma versão imaginária, fantasiosa. A gente não está fazendo uma reconstituição. A gente está mostrando o que a gente imagina que seja. Mesmo para quem mora aqui em São Paulo, existe uma Liberdade imaginária, que não é a que a gente vê na rua. É um hiper-realismo”, complementa Amorim. 
 
"De alguma forma, parece que faz sentido ver uma mulher andando por aqui com um kataná nas mãos”, finaliza Rhys Meyers. 

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