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Motorrad | Crítica

Bem-vindo exercício de cinema de gênero tem evidente apelo pop mas peca na ação

Marcelo Hessel
01.03.2018
18h19
Atualizada em
10.03.2018
19h00
Atualizada em 10.03.2018 às 19h00

É muito bem-vinda a proposta de Motorrad, filme de terror e ação que combina apelos pop, a partir dos personagens e das situações concebidos pelo quadrinista Danilo Beyruth. Primeiro trabalho do diretor Vicente Amorim, depois de meia-dúzia de longas "de respeito", como Corações Sujos e Um Homem Bom, Motorrad flerta com cinema de gênero barato de um jeito que o cinema brasileiro só em anos recentes voltou a tatear no seu mainstream.

Rodada na Serra da Canastra, em Minas Gerais, a trama tem teor pós-apocalíptico light, num mundo árido em que sinais de vídeo e telefone sofrem interferência constante. Uma gangue de motoqueiros decide atravessar um "santuário" cercado por um muro para se divertir num lago, e acaba encontrando uma gangue rival, que os caça um a um em perseguições de morte. Motorrad é como se Mad Max trocasse o Outback australiano pelo Cerrado - que a fotografia do filme dessatura para deixar mais seco e sem vida.

Essa filtragem da cor é o recurso mais evidente do filme para tentar criar uma atmosfera de fim de civilização, e no mais Motorrad não gasta tanto seu orçamento de R$6 milhões com tentativas arrojadas de design de produção, maquiagem ou efeitos visuais. A meta aqui parece ser mais se aproximar dos terrores rurais crus que o cinema americano popularizou nos seus slashers a partir de O Massacre da Serra Elétrica, mas sempre pensando na estética pop das roupas de couro e dos capacetes pretos sempre bem espanados.

Amorim, porém, não se mostra tão à vontade nesse universo temático quanto gostaria. Motorrad começa com maneirismos narrativos como a ausência de diálogo por uns dez, 15 minutos (não é que os personagens realmente sejam calados ou não precisem conversar, como em Mad Max; parece mais uma escolha de estilo próxima do Gerry de Gus van Sant). Amorim parece que vai arriscar de início um cinema de fluxo mais cabeça, mas aos poucos Motorrad cede à sua evidente vocação de cinema barato de slasher, e a ação logo assume um ritmo mais protocolar de hierarquizar personagens e escolher uma variedade de sadismo nas mortes.

A execução desse cinema de ação tem seus momentos (as mortes são imaginativas o suficiente para não deixar o filme aborrecer demais o espectador) mas no geral o tom parece sisudo e a fluência da ação é truncado demais. Amorim parece se imaginar realizando um filme essencialmente cinemático, mas a escassez de recursos de linguagem se faz perceber: os planos das perseguições são muito curtos e picotados, a câmera treme demais para tentar gerar tensão, o gore não é tão gore quanto poderia.

Não por acaso, as ideias mais bem resolvidas de Motorrad são as soluções de roteiro e ambientação, e não de encenação, como o final fordiano com a porta, que retoma a esquisitice pós-apocalíptica que estava no começo do filme e foi negligenciada ao longo da trama. Esse desfecho passa a impressão de que Motorrad tem uma pretensão ao cult, à criação de uma mitologia autossuficiente que motive teorias e discussões pós-sessão, o que pode até se confirmar eventualmente, mas enquanto cinema de ação o trabalho de Amorim não tem esse fôlego todo.

Nota do Crítico
Regular