Halle Bailey

Créditos da imagem: KEVIN WINTER / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

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Por que Halle Bailey não pode interpretar a sereia Ariel?

Reação nas redes sociais não é só um pedido de "fidelidade"

Andreza Delgado
04.07.2019
19h22
Atualizada em
04.07.2019
22h26
Atualizada em 04.07.2019 às 22h26

A Walt Disney Pictures divulgou o elenco do live-action de A Pequena Sereia, mas parte da internet não gostou. O motivo foi a escalação de Ariel, sereia protagonista da história. A escolhida foi Halle Bailey, uma jovem afro-americana que já traz em sua bagagem a série cômica Grown-ish, derivada de Black-ish, além de ter com sua irmã, com quem forma o duo Chloe x Halle, um contrato na mesma gravadora de Beyoncé, a Columbia Records. Ela foi anunciada quarta feira (3) e no mesmo dia fechou seu Instagram pessoal para comentários devido às críticas e grande rejeição de parte do público. As razões não ficaram bem claras, mas podemos refletir sobre o racismo que se expressa nas opiniões e comentários. 

"Isso seria perfeito para você!!! Você nunca será Ariel", escreveu um usuário no Twitter

Twitter/Reprodução

Não há nenhuma novidade nas reações quando se tem o anúncio de uma pessoa negra para fazer o papel de um personagem que todo mundo misteriosamente imagina que seja branco, até mesmo quando se tratam de seres místicos e não humanos com outras colorações de pele.

Facebook/Reprodução

Foi assim com Anna Diop, escalada para fazer a Estelar de Jovens Titãs, que é laranja, e mesmo com Will Smith, interpretando o Gênio azul de Aladdin. Ambos sofreram diversas críticas baseadas em estereótipos e pré-julgamentos de que o personagem deveria ser interpretado por alguém branco, porque assim ficaria “melhor”.

Quando pensamos na adaptação de uma história e na representação de seus personagens, temos um leque com inúmeras possibilidades para mudanças de cor, tamanho, gênero e etc. Mas se a história original tem um personagem de lugar central que é negro, judeu ou qualquer outra etnia que é determinante para a construção e essência da narrativa, isso é um desrespeito à obra, o que nitidamente não está acontecendo no live-action de A Pequena Sereia. O que coloca na discussão a pergunta: por que Halle não pode interpretar a sereia Ariel?

Em A Pequena Sereia, a etnia de Ariel não é o ponto central da narrativa. Essa mesma história, quando adaptada pela Disney, nem mesmo seguiu o fim trágico da sereia como na história original do dinamarquês Hans Christian Andersen. Ainda na releitura animada de 1989, que se passa no Caribe, Jodi Benson, dubladora da personagem, conta que, na verdade, a sereia seria loura e depois decidiram que ela seria ruiva. A própria inspiração para Ariel foi Alyssa Milano, que na época ainda era criança e fazia a série Who’s the Boss?. Glen Keane, responsável pela animação do desenho, chegou a afirmar em uma entrevista que também se baseou na aparência de sua própria esposa.

"Halle Bailey é uma escolha brilhante para interpretar Ariel. Mal posso esperar por isso", escreveu Alyssa Milano logo acima de um tweet que explica que a animação da Disney não é nem um pouco fiel à história original escrita por Hans Christian Andersen.

 

Como e por que falar de fidelidade na releitura da personagem de um filme que teve sua aparência “original” baseada numa atriz, sem nenhuma relação com o enredo da história, considerando os padrões de beleza branca vigentes na época da primeira versão? A verdade é que o exercício para pensar que a Ariel pode sim ser negra vem do esforço de revisitar toda a construção do imaginário desde o primeiro momento em que vamos consumir qualquer produção. Somos diariamente bombardeados e ensinados que o normal é branco, o ser universal é branco, os personagens em sua maioria esmagadora são todos brancos, principalmente os mais antigos. E mais, tudo isso vem de um passado da história da indústria cultural em que pensar REPRESENTATIVIDADE era um devaneio muito pouco considerado pelos produtores.

Muitos tiveram dificuldade de imaginar um James Bond negro, mesmo sua etnia sendo irrelevante para a história. Algumas pessoas simplesmente foram dizer para Idris Elba, que chegou a ser cogitado para o papel, que ele não poderia aceitar o convite porque era negro. “Realmente fiquei desapontado quando ouvi pessoas dizendo: ‘Não é possível’. E no final das contas, é por causa da cor da minha pele”, declarou o ator para a Rolling Stone

O exercício aqui é nos questionarmos: por que estamos acostumados e acomodados a tragar um mundo de fantasia onde todo e qualquer personagem relevante tem que ser branco para que seja bom? Muitos, mas muitos comentários, alegavam que se houvessem alterações como essas com personagens centrais negros (como por exemplo Pantera Negra) ou de outras etnias, haveria reclamação da mesma forma. O que mais chama a atenção é de como as pessoas estavam se baseando no “e se”, como se casos como esses não fossem comuns em adaptações. Esse comportamento tem um nome: whitewashing. Isso é, o embranquecimento de personagens cuja etnia é importante para o desenvolvimento da história. Para esses casos, não há o mesmo apoio das pessoas brancas em apontar ou apoiar quem se opõe à mudanças tão drásticas de narrativa.

Então fica uma dúvida no ar: por que algumas pessoas brancas se sentem ameaçadas quando personagens como Hermione passam a ser representadas num musical por uma atriz negra? Por que Tessa Thompson não pode assumir Valquíria? Ou até mesmo, pasmem, MJ do Homem-Aranha não poderia ser interpretada pela atriz negra Zendaya, quando essas simples substituições não alteram a essência do personagem? Essas mudanças apenas nos beneficiam com a realidade de enxergar o mundo com toda a sua diversidade, onde todo mundo pode e merece se ver representado em um seriado, numa HQ ou em um filme. A verdade é que o mundo está ficando chato demais, mas só para quem não aprendeu a compartilhar e aceitar que o outro é múltiplo e merece ser respeitado, mesmo quando é diferente. E que venha a live action da pequena sereia, uma personagem tão importante para história da Disney!

P.S.: O argumento “científico” da não existência de sereia negras não foi rebatido porque cientificamente sereias nem existem.