Por que é injusto comparar Rocketman e Bohemian Rhapsody

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Por que é injusto comparar Rocketman e Bohemian Rhapsody

Narrativa de Elton John não tem pretensão de apresentar uma verdade única

Julia Sabbaga
04.06.2019
15h51

Mesmo antes de Rocketman estrear, a cinebiografia musical de Elton John já estava sendo comparada com o recente filme do Queen, Bohemian Rhapsody. A relação definitivamente não é gratuita, já que ambos contam a história de astros da música, e para completar, tiveram Dexter Fletcher na direção. O cineasta que comandou Rocketman foi o responsável por finalizar Bohemian Rhapsody após o afastamento do diretor Bryan Singer do projeto, mas em termos de produção, as comparações deveriam parar por aí.

Bohemian Rhapsody foi um sucesso de bilheteria e agradou grande parte do público, apesar de ter sido amplamente mal avaliado pelos críticos. A cinebiografia foi um exemplo do pouco caso das premiações com a crítica especializada, e o amor do público rendeu uma vitória no Globo de Ouro (como o filme mais mal-avaliado a ganhar na categoria de melhor filme em 33 anos) e quatro estatuetas no Oscar. Ainda é cedo para julgar o sucesso comercial de Rocketman, mas é pouco provável que o longa supere o resultado de Bohemian Rhapsody na bilheteria. Mesmo assim, o filme de Elton John já se tornou queridinho da crítica, superando de longe as avaliações do longa protagonizado por Rami Malek.

Bohemian Rhapsody e Rocketman são dois longas completamente diferentes, a começar pelo próprio gênero. Enquanto o filme de Bryan Singer segue as regras de uma cinebiografia tradicional, Rocketman caberia melhor na categoria de musical, com grandes números, coreografias e sequências que brincam com a surrealidade. Para que isso acontecesse, o filme trouxe um elemento fundamental que definitivamente faz falta em Bohemian Rhapsody: um protagonista que cante. Claro que Freddie Mercury era um desafio especial para Rami Malek por ter uma voz incomum, e por isso o longa preferiu contar com dublagens e malabarismos técnicos. Mas o carisma e talento de Taron Egerton ao cantar os clássicos de Elton John, assim como dos atores que interpretam o músico ainda criança (Kit Connor e Matthew Illesley), roubam a cena em Rocketman.

Ainda, Rocketman brilha em um quesito fundamental, um que rendeu grande parte da crítica negativa de Bohemian Rhapsody: o retrato da vida pessoal e amorosa de seu protagonista. Com a oportunidade de dar um peso significativo à homossexualidade dos artistas, os dois longas lidam com isso de forma diametralmente oposta. Enquanto Bohemian Rhapsody passa longe de trazer o assunto para frente, ainda escolhendo dar foco a parceira Mary Austin como uma das protagonistas do filme, Rocketman lida com isso de cara e explicitamente, sem nenhuma cerimônia. Para isso, um compromisso teve que ser feito: Rocketman tem censura para maiores de 16 anos, o que permitiu maior liberdade com cenas de sexo e drogas. Como o próprio Elton John comentou: “Eu não levei uma vida apropriada para menores”.

Mas a diferença principal entre Rocketman e Bohemian Rhapsody está acima de tudo isso: o ponto de vista. O longa de Elton John mostra os acontecimentos a partir de uma narração e visão pessoal do cantor, tornando absolutamente todos os acontecimentos questionáveis. Em Rocketman, a visão da família, dos empresários e até mesmo de Bernie Taupin, parceiro inseparável de Elton John, são entregues unicamente pela perspectiva do próprio músico, o que torna a produção executiva do compositor no longa justificável. Ele não pretende retratar a história de modo imparcial, e se aproveita disso para acrescentar o elemento musical, tomando toda a liberdade para se utilizar de canções em diferentes fases, sem se preocupar com cronologia ou uma ordem específica de eventos. Em Rocketman, não há pretensão de verdade. Apesar de narrar a carreira do músico, qualquer fato do longa é apenas um ponto de vista.

Ao seguir uma estrutura tradicional de cinebiografia, Bohemian Rhapsody caiu em uma armadilha. Ele apresenta os fatos da carreira do Queen como se fossem verdades absolutas, e por isso, cada deslize foi analisado e criticado por fãs que conhecem um pouco mais sobre a vida do Queen e de Freddie Mercury. Mais do que isso, o filme do Queen pesou a mão ao trazer os membros sobreviventes como produtores executivos, contando uma história focada no único integrante que já não está mais aqui. O conflito principal em Bohemian Rhapsody, que mostra Mercury se separando do grupo para gravar um álbum solo, nunca aconteceu. Por isso, ao apresentar ao público uma visão distorcida da realidade, não é exagero dizer que Bohemian Rhapsody acaba por enganar os que sabem menos sobre a carreira do grupo.

Claro que as comparações existirão. São dois longas lançados em menos de um ano que contam a história de astros ingleses da música, com vidas polêmicas e carreiras históricas. Mas enquanto Bohemian Rhapsody foi seletivo em sua representação da verdade, e por vezes embaralhou e distorceu os acontecimentos do Queen, Rocketman passa longe de cometer erros como este. Ele não escondeu a perspectiva pessoal de seu protagonista e, com isso, entregou uma história não apenas cheia de imaginação, como admirável em sua narrativa da realidade.