Montagem com cenas de O Iluminado, Laranja Mecânica e Percy Jackson

Créditos da imagem: Warner Bros./20th Century Studios/Divulgação

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8 autores que odeiam filmes inspirados em suas obras

Nem mesmo clássicos como O Iluminado ou Mary Poppins foram capazes de agradar seus criadores

Nicolaos Garófalo
16.06.2020
20h20
Atualizada em
17.06.2020
09h58
Atualizada em 17.06.2020 às 09h58

Embora seja uma indústria com base na criatividade, Hollywood não é nada estranha a adaptações de propriedades intelectuais de outras mídias. Alguns dos maiores sucessos da história do cinema, aliás, são inspirados em livros ou quadrinhos, como 2001 – Uma Odisseia no Espaço ou Batman: O Cavaleiro das Trevas.

Ainda que conquistem público e crítica, as versões cinematográficas nem sempre agradam seus autores. Mesmo alguns dos maiores clássicos da indústria, queridos por gerações, estão sujeitos à rejeição de seus criadores, que não poupam palavras para criticar as adaptações de seus trabalhos.

Confira abaixo oito autores que odiaram a forma como suas obras foram transformadas por Hollywood:

Rick Riordan – Percy Jackson e Os Olimpianos

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Durante a busca de estúdios por uma propriedade na literatura jovem com potencial para se tornar o “novo Harry Potter”, a série literária de sucesso Percy Jackson e Os Olimpianos parecia uma aposta certeira da Fox. Baseado na mitologia da Grécia antiga, o trabalho de Rick Riordan conta com personagens jovens, uma história divertida e elementos sobrenaturais que preenchiam o nicho deixado pela franquia do bruxinho. Ao comprar os direitos da adaptação, no entanto, o estúdio não permitiu que o autor opinasse no roteiro dos filmes, que desviaram bastante dos cinco volumes publicados entre 2005 e 2009.

Claramente insatisfeito com o resultado, Riordan nunca escondeu o quanto detesta as adaptações de O Ladrão de Raios e O Mar de Monstros, lançados em 2010 e 2013, criticando-as sempre que tem a chance. Recentemente, o autor chegou a dizer que lamentava pelos atores que teriam sido “arrastados para esta bagunça” e prometeu que a versão televisiva da franquia, produzida para a Disney+, vai “consertar” os erros cometidos nos filmes.

Roald Dahl – A Fantástica Fábrica de Chocolate (1971)

Visto hoje como um clássico por trazer o mundo surreal de Roald Dahl à vida, a versão de 1971 de A Fantástica Fábrica de Chocolate não é exatamente querida pelo autor do livro, publicado em 1964. Enquanto a obra original foca sua narrativa no garoto Charlie, o longa de Mel Stuart gira em torno de Willy Wonka e da atuação de Gene Wilder, considerada pretensiosa por Dahl.

Durante a produção do filme, Dahl se opôs a diversas decisões, tentando barrar músicas como “The Candyman”, a direção de Stuart e o roteiro de David Seltzer. O escritor ainda se opôs desde o começo à escalação de Wilder, já que queria ver Spike Milligan ou Peter Sellers no papel de Wonka. Segundo a biografia do autor escrita por Donald Sturrock, Dahl considerou retirar seu nome do filme – para qual ele mesmo escreveu o roteiro – e só passou a “tolerar” o longa porque sua popularidade ajudou na venda de seus livros.

Stephen King – O Iluminado

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Lançado em 1980, O Iluminado é considerado até hoje uma das maiores obras-primas do terror. Dirigido por Stanley Kubrick e protagonizado por Jack Nicholson, o longa adapta o livro homônimo de Stephen King, publicado em 1977. No entanto, a boa vontade que o público mostra com o filme não é compartilhada pelo idealizador da história. O autor já criticou diversos aspectos da adaptação, como a abordagem “misógina” de Wendy (Shelley Duvall) ou o final alterado por Kubrick. Porém, uma de suas principais broncas com a adaptação foi com Nicholson.

Segundo King, o ator apenas repetiu suas atuações de Sem Destino e As Motos Diabólicas, interpretando Jack Torrance como um louco desde sua primeira cena e apagando, assim, o arco do protagonista. Para o escritor, Kubrick não entendeu que o espírito maligno dominava o Hotel Overlook, passando sua natureza desumana para os personagens do filme.

Winston Groom – Forrest Gump: O Contador de Histórias

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Embora Forrest Gump – O Contador de Histórias ainda divida opiniões de críticos e público, sua importância na cultura pop é inegável. Além de ser uma das maiores produções da carreira de Tom Hanks, rendendo um Oscar para o astro, o filme de 1994 tem alguns dos diálogos mais icônicos do cinema. Winstom Groom, no entanto, não é um grande fã do longa, que adaptou o seu livro homônimo de 1986. O autor ficou bravo com o estúdio por alterar o tom da história, omitindo a linguagem mais forte e cortando cenas de sexo para que o filme vendesse melhor.

Para piorar, Groom chegou a processar os produtores de Forrest Gump por não ter recebido os 3% dos lucros previstos em contrato. Segundo o estúdio, a bilheteria US$ 678 milhões não cobriu os custos somados de produção (US$ 55 milhões), distribuição e publicidade.

P.L. Travers – Mary Poppins

A história da conturbada relação entre P.L. Travers e Walt Disney é bem documentada. A escritora negou diversas investidas do produtor para comprar os direitos cinematográficos de Mary Poppins, cedendo apenas porque passava por um momento financeiro delicado. Durante a produção, a autora chegou a criticar a mistura de animação e live-action, as mudanças na personalidade da personagem-título e sempre se mostrou insegura com a transformação da obra em um musical.

Embora seja um dos maiores clássicos do cinema, Mary Poppins causou uma reação tão adversa em Travers que ela chegou a chorar na estreia do longa por causa das mudanças feitas por Disney e sua equipe. A relação da autora e do produtor chegou a ser tema do filme Walt nos Bastidores de Mary Poppins, embora a produção tenha alterado alguns fatos para que o produtor não fosse retratado sob uma ótica ruim.

Michael Ende – A História Sem Fim

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Embora Michael Ende tenha sido o primeiro roteirista a escrever a adaptação cinematográfica de seu livro A História Sem Fim, a versão final do roteiro foi assinada por Herman Weigel e pelo diretor Wolfgang Petersen. O autor da obra original, publicada em 1979, só teve contato com a versão que foi para as telonas dias antes da estreia, em 1984, e chamou o resultado de “revoltante”.

Assim como Stephen King, Ende afirmou que os produtores não entenderam sua obra e fizeram o filme pensando apenas no dinheiro. Sem sucesso, o autor chegou a processar o estúdio para reaver os direitos cinematográficos do título.

Anthony Burgess – Laranja Mecânica

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Mais uma adaptação de Stanley Kubrick que acabou rechaçada pelo autor original, o filme Laranja Mecânica foi criticado por Anthony Burgess por não só por não ter compreendido o objetivo do livro, mas por, segundo o autor, glorificar a violência. Para o escritor, a interpretação incorreta de sua obra por parte do cineasta levou uma geração de leitores a repetir o erro.

Anos após o lançamento de Laranja Mecânica nos cinemas, Burgess chegou a dizer que jamais deveria ter escrito o livro, pois a própria obra dava margem a interpretações incorretas.

Alan Moore – Absolutamente tudo

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Um dos nomes mais celebrados dos quadrinhos, Alan Moore abomina toda e qualquer tentativa, bem-sucedida ou não, de adaptação de suas obras. Roteirista de clássicos como Watchmen, V de Vingança e Batman: A Piada Mortal, o quadrinista nem ao menos permite que estúdios o creditem em produções inspiradas em seu lendário trabalho.

Para Moore, a adaptação de V de Vingança é uma “parábola [contra o presidente norte-americano, George W. Bush] feita por pessoas tímidas demais para fazer uma sátira política em seu país” e ele nem mesmo quis comentar sobre a animação de A Piada Mortal, HQ que ele mesmo repudia. A relação do quadrinista com adaptações é tão ruim, que ele afirma que as negociações com a Warner para o licenciamento de produtos para o filme de Watchmen desgastaram sua relação com a DC e fizeram com que ele não quisesse nada com um longa que ele chamou de “miserável”. Damon Lindelof, criador da série que dá sequência aos eventos da HQ de 1986, chegou a dizer que acredita ser alvo de uma maldição de Moore dias antes da estreia do programa na HBO.