Nós | Entenda os significados por trás do terror de Jordan Peele

Créditos da imagem: Nós/Universal Pictures/Divulgação

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Nós | Entenda os significados por trás do terror de Jordan Peele

Tentando analisar os temas e metáforas desse pesadelo americano

Arthur Eloi
28.03.2019
15h22
Atualizada em
28.03.2019
15h39
Atualizada em 28.03.2019 às 15h39

Nós, o novo terror de Jordan Peele (Corra!), finalmente chegou aos cinemas e novamente traz os elementos que consagraram o cineasta: momentos de tensão combinados com humor e camadas de comentários sociais. Enquanto os dois primeiros são facilmente aproveitados, o último é feito de uma maneira que pede para ser assistido novamente e processado. Para facilitar, abaixo levantamos alguns dos temas presentes no longa - com base em depoimentos do diretor, elenco e também interpretações de algumas de suas várias metáforas.

Na trama, uma família viaja para a antiga casa de praia de seus avós em Santa Cruz, na Califórnia. A diversão então é interrompida quando, durante a noite, eles são atacados por um grupo de clones mal intencionados, carregando tesouras douradas e vestindo trajes vermelhos. Até este ponto, o filme apenas toca aqui e ali em alguns dos seus assuntos principais, mas esses ganham os holofotes durante o ato final.

[Cuidado! Spoilers de Nós abaixo]

Quando apenas Red, a líder dos clones e sósia de Adelaide (Lupita Nyong'o), é a única restante entre as duplicatas da família, a protagonista precisa retornar ao lugar onde tudo começou em 1986, durante sua infância: em um visita com seus pais ao parque de diversões local, a garotinha vaga por uma casa de espelhos e é atacada por seu próprio reflexo. Mais tarde, é revelado ao espectador que, neste momento, o "reflexo" assumiu o lugar de Adelaide no mundo real, efetivamente roubando sua vida e fazendo com que a coitada - sem voz após ser estrangulada - fique presa nos túneis e torne-se Red, sua versão sombria.

Esse mundo duplicado é populado por cópias idênticas de cada pessoa dos Estados Unidos, chamadas de Tethered - ou os Atrelados. Eles habitam vastos túneis e passagens logo abaixo da superfície, abandonadas pelos humanos. Narrativamente essa versões servem como uma espécie de experimento social, já que ambas são ligadas diretamente.Porém, as duplicatas não compartilham das mesmas oportunidades, prazeres e nem sequer escolhas dos originais, sendo forçados a vagar de acordo com o que são mandados a fazer. É uma forma mais fantasiosa de Peele apresentar as questões de privilégio e dinâmicas sociais nos Estados Unidos, já que eles são apresentados como praticamente uma civilização à parte, mas sem qualquer liberdade a não ser uma existência condenada a fazer o que lhes é imposto pelos de cima - literalmente.

Assim, é interessante que Red só consegue liderar os Atrelados pela sua vivência no mundo real: diferente dos demais, ela é a única que sabe na pele as injustiças que são forçados a passar - uma manifestação física de como a conscientização é o primeiro passo para a revolta e sua ausência é um fator importante na continuidade e manutenção das diferenças; afinal é fato que os humanos oprimem os Atrelados, mesmo sem saber de sua existência.

Para o cineasta, essa noção da "agressão normalizada" é a chave da sua crítica. Enquanto muitas das metáforas trabalham a comparação entre as duas raças, como o uso frequente de tesouras - utensílio de dois lados iguais, porém opostos -, o slogan do filme e as declarações de Peele e do elenco garantem que o importante é buscar a ameaça interna ao invés de colocá-la nos outros: "O monstro sempre é o Outro: a outra cultura, o outro país, o outro espectro político, a outra religião, o outro gênero", falou Lupita Nyong'o para a Entertainment Weekly. "E quanto ao monstro que toma a forma do homem no espelho e a escuridão que nós, humanos, praticamos e temos dentro de nós de maneira bem natural? Frequentemente essa escuridão passa batida, sem reconhecimento, ignorada. E quando isso acontece, temos que projetá-la externamente e torna-se a destruição com que nós precisamos lidar."

Nós, no fim das contas, é um filme sobre paranóia, sentimento que serve de base para inúmeros outros do mesmo gênero - a categoria de "invasão domiciliar", por exemplo, é inteiramente construída nessa noção -, mas aqui o verdadeiro inimigo é admitir a própria participação nisso: um medo de que as pequenas violências praticadas diariamente dentro de uma sociedade desigual eventualmente resultarão na destruição da mesma. Até o título original - Us - pode servir como uma trocadilho com "United States", indicador de como uma trama sobre a possível disrupção da ordem social é algo capaz de despertar sustos e calafrios no público do Estados Unidos.

Sem Respostas Fáceis

Enquanto é possível interpretar Nós dessa forma, o que faz o filme ser um prato-cheio para teoristas é justamente que não há uma única explicação definitiva ou sequer um assunto central. Um exemplo disso é o autor Kyle AB, que escreveu ao Afropunk sobre como a trama discute um ressurgimento bruto da identidade negra de forma oposta a Corra!, que discute os perigos de reprimir a mesma. Já o crítico Todd VanDerWerff, em análise para a Vox, aponta que o longa argumenta como a sociedade norte-americana tenta apagar e reinterpretar o próprio passado de violência e colonialismo - mesmo que seja impossível fugir disso. Também é possível discutir o protagonismo de Adelaide e Red, ou como Gabe (Winston Duke) desafia as noções de "pai machão" que normalmente vemos no cinema, ou então as consequências do trauma na vida de uma mulher.

Todas são alternativas válidas, com bastante evidências em suas várias e várias camadas - até mesmo é possível ignorar todo o subtexto e apenas se divertir com um filme ocasionalmente tenso e divertido. É um longa extremamente versátil, e portanto, muito complexo de ser rotulado. De certa forma, é isso que torna Nós tão intrigante e frustrante ao mesmo tempo. É possível ver que Peele gosta da noção de contos sombrios sem soluções catárticas e em grande escala: quando Corra! termina, por exemplo, o culto perverso dos antagonistas continua existindo em uma sociedade racista. Aqui a família pode ter se resolvido parcialmente, mas os Atrelados já cometeram inúmeros assassinatos e tomaram o mundo da superfície.

Tratando-se de terror, isso dá uma sensação de impotência e pequenez aos protagonistas - sensações ricas para o gênero e também para as discussões que acontecem na saída do cinema. Na era em que todas as respostas podem ser encontradas em enormes textos e vídeos na internet, um filme que te desafia a encontrar sua própria interpretação torna-se mais necessário do que nunca para valorizar o quão importante são as variadas experiências do público.

As tesouras

Talvez os objetos mais chamativos e recorrentes do filme, as tesouras representam boa parte do conflito central: duas partes iguais, porém opostas. É ainda mais simbólico que, aqui, elas são usadas como arma.

De mãos dadas

Em 1986, o movimento USA for Africa idealizou a campanha beneficente chamada Hands Across America para combater a fome na África através de uma enorme corrente humana, feita a partir de pessoas de mãos dadas. Cada participante poderia fazer uma doação entre US$10 e US$30 para ganhar uma camiseta comemorativa (como a que Adelaide usa no filme), e o evento contou com a participação de figuras políticas como o então-presidente Ronald Reagan e Bill Clinton, ou celebridades como Bill Cosby, Yoko Ono, Robin Williams, Michael J. Fox e mais.

Enquanto a ideia era chamativa o resultado foi longe do esperado, já que a corrente humana tinha “buracos” gigantesco e, no final das contas, tudo levantou apenas US$15 milhões - muito abaixo do esperado pelos organizadores e também pelas demais ações do tipo (só a gravação de “We Are the World”, por exemplo, garantiu US$53 milhões). Mesmo assim, a cobertura midiática do Hands Across America foi enorme ao ponto de tornar-se um marco nostálgico dos Estados Unidos oitentista.

Ao NY Times, Peele explica o uso: "Há algo que soa como um culto nessas imagens [os comerciais do Hands Across America] que me remete à família Manson cantando músicas folk enquanto saem do tribunal. É uma insistência de que, enquanto tivermos uns aos outros, podemos passar batido pela feiura e maldade que podemos ter participado."

Jeremias 11:11

Quando Adelaide sai de perto de seus pais no começo do filme, a garota se depara com um homem carregando uma placa escrita "Jeremias 11:11". Trata-se, é claro, de uma passagem da bíblia, especificamente: "Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei."

Enquanto é possível traçar vários paralelos entre a passagem e o sofrimento retratado no filme, os números por si só representam dualidade, espelhamento.

A sala de espelhos

A frase de Peele sobre a noção norte-americana de ignorar o passado problemático é bem visível na sala de espelhos. Quando Adelaide entra quando criança, tudo é tematizada com a imagem de um índio, o que significa associar misticismo com os costumes e crenças do povo nativo-americano - algo considerado racista, uma retratação ruim muito presente no antigo entretenimento dos EUA.

Já em 2019, quando Adelaide retorna ao parque nos momentos finais, a sala de espelhos trocou de tema para o mago Merlin, dos contos do Rei Arthur, como uma tentativa de "apaziguar" críticos e esconder os preconceitos do passado - literalmente, com uma camada mal aplicada de tinta.

Bunker dos coelhos

Nos momentos finais, Adelaide persegue Red até os túneis onde vivem os Atrelados. O momento é uma clara referência ao clássico de Lewis CarollAlice no País das Maravilhas.

A descida até a toca do coelho, presente na história original, é muito associada ao ato de abraçar a própria loucura. Aqui, não só o lugar é infestado de coelhos brancos como também a protagonista é recebida por Red com: "Somos todos loucos aqui", frase icônica da obra.

A importância da música

Música tem um papel importante no longa, mas entre elas se destaca "I Got 5 on It", clássico do hip-hop de 1995 interpretado por Luniz. Assim como brinca Zora (Shahadi Wright Joseph) no filme, de fato é uma música sobre drogas - especificamente comprar maconha - mas Peele novamente inclui a canção na sua temática de peso do passado.

"Estou fazendo um filme no norte da Califórnia, e a música é um clássico do hip-hop dessa região. Queria explorar essa jornada altamente relacionável de ser um pai e perceber que talvez muitas das músicas que você ouvia na sua época não são apropriadas para suas crianças. Isso foi um dos motivos, mas eu também amo a sensação e o elemento assombroso que ela tem. Sinto que a batida tem uma energia tensa, quase algo da trilha sonora de A Hora do Pesadelo", falou o cineasta à EW.