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Harry Potter and the Cursed Child é uma experiência diferente e ao mesmo tempo familiar para os fãs

Peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada reprisa as filas, a ansiedade e a contagem regressiva com uma nova história

Ederli Fortunato
31.07.2016
13h45
Atualizada em
31.07.2016
14h03
Atualizada em 31.07.2016 às 14h03

Ela disse que a história estava encerrada. Ao final do sétimo livro, J.K. Rowling anunciou que não escreveria novos livros sobre Harry Potter. E não é o caso de um autor preso a um único sucesso. Desde o fim da série que a tornou milionária, Rowling lançou novos títulos elogiados, como Morte Súbita e a série Cormoran Strike.

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Mas há algo de divino, sagrado e profano na ligação entre um autor e seu texto que não admite muita distância, embora o novo livro, divulgado como “a oitava história” de Harry Potter não tenha de fato sido escrito por ela e não seja um livro como os demais. O que a edição britânica lançada à meia-noite deste sábado traz não é uma narrativa, mas sim o roteiro da peça escrita pelo dramaturgo Jack Thorne a partir de uma história de Rowling, Thorne e do diretor John Tiffany, e deve ser lido como tal. São duas partes divididas em dois atos cada com indicações de cena e os diálogos entre os personagens. Assim, a experiência para os leitores é diferente, mas os elementos conhecidos da série, amizade, aventura, fantasia, estão lá.

Não é segredo que a história começa na estação de King's Cross quando Harry, Gina, Ron e Hermione se despedem dos filhos. O final feliz após a sangrenta batalha de Hogwarts. O ponto de partida é o diálogo que acontece ali entre Harry e seu caçula, Alvo Severo, que teme ser escolhido pelo Chapéu Seletor para a Sonserina. A partir desse trecho entre pai e filho, a peça focaliza as dificuldades que a nova geração enfrenta para carregar a herança de seus pais. Não é fácil ser o filho do grande Harry Potter, salvador do mundo, como não é fácil ser Escórpio, filho de Draco Malfoy, seguidor de Voldemort. A sociedade espera algo dos herdeiros, sem perguntar o que eles de fato desejam, assim como esperava de Harry algo que ele nunca havia pedido. A necessidade de encontrar seu lugar, ser visto como uma pessoa e não como o filho de alguém é o que move a história levando à aventura que caracterizou a série.

Ciente de que grande parte dos fãs originais agora são adultos, o enredo mantém Harry, Ron e Hermione por perto, com retorno a outras cenas dos livros originais. O recurso atualiza os novos leitores e torna a história interessante também para os mais antigos, respondendo ainda a algumas perguntas que ficaram pelo caminho. Afinal, com tanta bruxaria poderosa ao alcance da mão, deveria ter sido possível evitar a mortandade de personagens ao longo dos sete livros. Mas é também a perda que faz de Harry Potter um personagem próximo ao público.

Os que se foram são parte perene da vida daqueles que ficam e a peça endereça essa questão em uma de suas cenas mais pungentes. Seria ótimo ver o resultado no palco, desde que o ingresso não estourasse os cofres, ver que soluções cênicas foram encontradas para contar esta história sem as facilidades da computação gráfica, mas o script, que ganha tradução brasileira em outubro, cumpre o papel de contar mais um capítulo da saga de Harry Potter. Sim, pode chamá-lo de livro oito. E não haverá surpresa se essa história for parar nas telas.