Cinema autoral no Brasil não pode depender do streaming, diz Gabriela Almeida
Diretora de O Animal Cordial e Quarto do Pânico diz que mercado se recupera de maneira “muito lenta”
Créditos da imagem: Gabriela Amaral Almeida no set de Quarto do Pânico (Reprodução)
Gabriela Amaral Almeida é um dos nomes mais distintivos do cinema de gênero no Brasil. A paulistana, que estreou em longas-metragens com o inesquecível suspense O Animal Cordial (2017) e depois fez A Sombra do Pai (2018) e Quarto do Pânico (2025), tem se mostrado uma campeã incansável dos filmes autorais nacionais – e, por isso mesmo, está em posição privilegiada para analisar o momento que vive o nosso cinema.
Em entrevista ao Omelete, Almeida falou da retomada da Ancine (Agência Nacional do Cinema) após seu desmonte pelo governo Jair Bolsonaro, e do conflito entre o mercado de streaming e os cinemas tadicionais dentro do Brasil… e, especialmente, do mercado do terror. Confira a seguir um trecho do papo!
OMELETE: Como uma cineasta que está tão conectada ao terror, como você vê o desenvolvimento deste gênero no Brasil hoje em dia? Você acha que ele ainda é um pouco jogado de escanteio, em relação aos outros gêneros, no nosso país?
ALMEIDA: Eu acho que o horror sempre vai ser um gênero... tem que escolher bem as palavras, porque não é um gênero menor – ele alcançou o reconhecimento da potência que é –, mas um gênero disruptivo. Um gênero que lida com questões que não são muito agradáveis, como a morte, a possibilidade da morte. Para mim, é uma filosofia narrativa. O horror funciona para mim como um filtro, através do qual eu entendo as coisas do mundo, e as questões complexas para as quais eu não tenho resposta. Mas, ao dividir com as pessoas essas questões através de filmes, isso me traz um senso de comunidade. Eu acho que ele sempre vai ser um gênero, vamos lá, maldito. Nunca vai ser um gênero inteiramente aceito... porque a função dele é essa, sabe? É ser um gênero que choca, que aborda questões que os outros gêneros não abordam do jeito que ele faz.
OMELETE: Mas, ao mesmo tempo, a gente está vendo tanto aqui no Brasil como também lá fora que o terror chama as pessoas. Principalmente hoje, com histórias originais que não se veem tanto em outros gêneros. Por que você acha que ele continua tendo esse apelo para as pessoas?
ALMEIDA: É, eu acho que o terror é disruptivo no sentido de que ele nunca vai ser abraçado pela crítica, amplamente. Mas, falando em público, como tudo que é proibido é mais interessante, é óbvio que ele desperta uma curiosidade – principalmente de espectadores mais jovens, eu acho, por que ele aborda o que não se deve falar, o que não se deve ver, o "não entre aí", "não abra essa porta". Então, o horror tem esse apelo que, historicamente e até no Brasil, tem feito dele um sucesso de público, sucesso de audiência. É dos gêneros mais vistos em streaming, por exemplo, o terror e os derivados: thriller, suspense, agora o true crime... todo o guarda-chuva dos filmes de medo. E esses filmes desafiam o espectador, aquele "não venha" se converte em um convite. [Risos] Por isso que eu acho que o terror sempre vai ter público.
OMELETE: Legal! Atualmente, a gente vive no Brasil um momento que muitos estão saudando como um grande aquecimento do mercado audiovisual. Você tem sentido isso também no cinema de gênero? O que você acha que ainda falta para a gente conseguir fazer mais filmes de terror, por exemplo?
ALMEIDA: Eu acho que o cinema autoral brasileiro é um dos mais interessantes e diversos do mundo. Acho mesmo, não é proselitismo. Estamos falando de cinema de horror no Brasil, por exemplo, e aqui cada diretor tem um universo muito específico. Se você pega um Kleber Mendonça Filho, que trabalha com alguns elementos de gênero, os filmes dele tão totalmente diferentes dos filmes da Anita Rocha da Silveira, da Juliana Rojas, do Marco Dutra... são maneiras muito diferentes de abordar o medo. Isso num gênero só! Então, o que eu acho é que esse tipo de cinema precisa de um cuidado, de um fomento público muito sério. E esse fomento público foi interrompido há seis anos [em meio ao governo Bolsonaro]. Agora a máquina pública de financiamento fílmico está voltando a funcionar, mas de forma muito lenta. Muito, muito lenta.
Por outro lado, a gente tem uma aceleração de produção audiovisual via streamings. Tem muita gente fazendo – eu inclusive, que fiz Quarto do Pânico para o Telecine –, muita gente boa produzindo audiovisual para os streamings. Só que o que acontece? A régua do streaming não é a mesma régua do fomento público. Quando eu digo cinema autoral, não estou dizendo filme-cabeça, estou dizendo cinema que prioriza o exercício da criatividade, da subjetividade verdadeira de um artista. Há muitas coisas boas no streaming, não estou falando que não há coisas legais, mas a régua é outra. Eles trazem as condições, chegam já dizendo que precisam de um tipo específico de você, e aí você dança a valsa conforme a necessidade.
Então, diante desses dois panoramas, eu te digo: nossa recuperação está lenta. A volta do cinema autoral precisa de mais celeridade, precisa de mais continuidade – porque o cineasta se forma com continuidade. Quantos programas eu mesma participei de feitura de curta-metragem, difusão de curta em festival... isso tudo forma um cineasta, e isso leva tempo. Então não é que você pince uma pessoa do nada e forneça a ela condições de fazer um filme. Não, é grãozinho por grãozinho, sabe? E eu acho que falta isso. Falta muito.
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?
Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login no Omelete e participe dos comentários