Extermínio: O Templo dos Ossos | Quem foi Jimmy Savile, inspiração para vilão?
Personagem vivido por Jack O’Connell se conecta a um dos maiores escândalos da história britânica
O final de Extermínio: A Evolução foi um dos momentos mais divisivos do cinema em 2025. A entrada de Jimmy (Jack O’Connell) e seus seguidores, com visual exagerado que muitos compararam a uma versão pós-apocalíptica dos Power Rangers, soou gratuita para parte do público e genial para outros. Ainda assim, a cena dialoga de forma sutil com a primeira aparição de Spike, quando o garoto abandona seu boneco de um seriado de heróis — algo que ele provavelmente nunca chegou a assistir no mundo devastado da trama.
Essa ligação simbólica se fortalece em Extermínio: O Templo dos Ossos, filme que aprofunda o personagem, agora conhecido como Jimmy Crystal. A sequência explora sua lógica como líder, o papel dos Dedos (os seguidores escolhidos por ele), seus objetivos e, principalmente, a relação do grupo com a religião como ferramenta de poder e controle.
O que pode passar despercebido para muitos espectadores é que Jimmy Crystal tem inspiração direta em uma figura real — e extremamente controversa.
Quem foi Jimmy Savile?
Jimmy Savile foi um dos apresentadores de televisão e radialistas mais famosos do Reino Unido entre as décadas de 1960 e 1990. Nascido em 1926 e falecido em 2011, ele se tornou um rosto onipresente da BBC com programas como Top of the Pops e Jim’ll Fix It. Sua imagem pública de filantropo rendeu honrarias oficiais, incluindo o título de cavaleiro concedido pela rainha Elizabeth II em 1990.
Durante décadas, Savile foi tratado como uma figura quase intocável da cultura britânica.
Os crimes de Jimmy Savile
Após sua morte, veio à tona um dos maiores escândalos da história do Reino Unido. Investigações revelaram que Savile foi um predador sexual em série, responsável por centenas de abusos cometidos ao longo de mais de 40 anos. As vítimas incluíam crianças, adolescentes e adultos vulneráveis, muitos deles em hospitais, escolas e instituições de caridade às quais ele tinha acesso privilegiado.
Estima-se que mais de 450 vítimas tenham sofrido abusos, incluindo estupros e agressões sexuais, algumas ocorridas dentro de hospitais do próprio sistema público de saúde britânico. A série documental Segredos e Crimes de Jimmy Savile, disponível na Netflix, detalha como ele conseguiu agir por tanto tempo sem consequências.
Jimmy Savile foi preso?
Não. Savile jamais foi condenado em vida. Sua fama, o prestígio institucional e uma cultura de silêncio dentro da BBC e de outras organizações permitiram que denúncias fossem ignoradas ou abafadas por décadas. O caso se tornou uma mancha profunda na história da emissora pública britânica e um símbolo de falhas sistêmicas na proteção de vítimas.
Qual a ligação entre Jimmy Crystal e Jimmy Savile?
Savile nunca é citado diretamente nos filmes de Extermínio, mas a inspiração é assumida por Danny Boyle (diretor do filme anterior e produtor de O Templo dos Ossos) e pelo roteirista Alex Garland, responsável pelos dois longas.
A conexão está na construção do personagem. O cabelo loiro, os dentes, as roupas extravagantes, o uso de joias e a postura performática de Jimmy Crystal remetem diretamente ao visual e à atitude de Savile. Mais do que estética, a inspiração está no comportamento: Crystal se aproveita da vulnerabilidade extrema do apocalipse para cooptar jovens perdidos, transformando-os em seguidores leais.
Em O Templo dos Ossos, fica claro que os Dedos são submetidos a abusos físicos e psicológicos, incluindo humilhações, torturas e performances forçadas para agradar seu líder. A religião surge como ferramenta central de controle — da mesma forma que Savile usava sua imagem de benfeitor para circular livremente por hospitais, escolas e alas psiquiátricas onde cometia seus crimes.
No universo de Extermínio, com o Reino Unido destruído pelo vírus, Jimmy Crystal consegue viver segundo seus próprios dogmas. A memória e a história daqueles jovens só existem após o colapso da sociedade — um paralelo direto com Savile, que agiu protegido por instituições que preferiram não enxergar a verdade.
Ao contrário do que o filme sugere em sua mitologia para Crystal, investigações reais descartaram qualquer narrativa de “cultos satânicos” ligados a Savile por absoluta falta de evidências.