Extermínio: O Templo dos Ossos comete o pecado de ser genérico demais
Sequência de Nia DaCosta resiste graças aos talentos de Ralph Fiennes e Jack O’Connell
Um dos destaques do ano passado, Extermínio: A Evolução ressuscitou a franquia criada por Danny Boyle (diretor) e Alex Garland (roteirista) mais de 20 anos depois do filme original com uma história visceral, capaz de trazer um olhar para as narrativas de apocalipse zumbi que não parecesse genérico. O texto de Garland estudou a evolução de um jovem em plena transição da adolescência para o mundo adulto em uma realidade infinitamente mais cruel do que o mundo real, mas que mantém algumas das regras que fazem do nosso mundo - muitas vezes - um lugar difícil de se viver.
Nesse universo de Boyle, os infectados nunca foram alegoria para questões sociais, mas servem como o estopim para mostrar como nós, enquanto sociedade, sucumbimos ao caos absoluto pela falta de uma ordem social. No longa original, o reflexo disso eram os militares que, 28 dias (e outros tantos a mais) após a queda do mundo contemporâneo, se entregaram à barbárie e ao autoritarismo com a desculpa de repovoar o mundo. Em A Evolução, como o próprio título indica, sobreviventes, seu mundo e o próprio vírus evoluíram, e a nova ordem social implica que a lei do “olho por olho” domina o que restou do Reino Unido em quarentena. Isso não impediu que Boyle e Garland voltassem a usar a ficção para analisar e criticar nossa realidade, mais uma vez através do retrato militar de um jovem que se alistou e saiu em missão apenas pelo ímpeto da curiosidade, alguém que certamente não perderia o clique de um cenário apocalíptico por ser “instagramável”.
No caso de Extermínio: O Tempo dos Ossos, tanto o olhar da nova diretora Nia DaCosta quanto o próprio texto de Garland parecem ter sucumbido às ideias genéricas de um filme de apocalipse qualquer. Situado quase que imediatamente após os eventos do anterior, o novo longa mostra Spike (Alfie Williams) sendo obrigado a conviver (e sobreviver) com um grupo de sociopatas que se autointitulam Jimmies, numa clara inspiração em Jimmy Savile, antigo ícone da TV britânica que caiu em desgraça após sofrer mais de 60 acusações de abuso sexual. O líder do grupo, Sir Jimmy Cristal (Jack O’Connell), é um fanático religioso que acredita que o apocalipse zumbi foi criado pelo Diabo, e os infectados são as criaturas enviadas para acabar com a humanidade. Como ele mesmo se diz herdeiro do coisa ruim, ele usa seu discurso para influenciar jovens como Spike a serem seus seguidores e justificar seus atos hediondos.
Com o retorno do Dr. Kelson (Ralph Fiennes), Garland e DaCosta usam a dualidade entre os personagens para explorar o contraste entre ciência e religião. Jimmy, que desde pequeno foi criado pela doutrina católica, vê em Kelson um simples cientista ateu incapaz de enxergar a “verdade”. Já o médico, embora não desconecte a visão do vilão de uma inocência até um pouco infantil, não se cega para a ameaça que ele representa: Jimmy nada mais é do que um desses pastores evangélicos que usam da fé do outro para ganhar poder, e o tamanho desse poder, muitas vezes, o transforma em alguém extremamente perigoso.
A grande questão de O Templo dos Ossos é que essa dualidade entre ciência e religião não passa do discurso genérico da comparação. Esse embate - ou a falta dele - nunca de fato é trabalhado, e fica apenas em um breve diálogo entre os personagens. Até mesmo as atrocidades cometidas pelos Jimmies não acrescentam algo de novo, seja no discurso ou no visual. Há filmes demais de Jogos Mortais, Terrifier e outras franquias do gênero por aí que abusam da violência gráfica e do gore para deixar o espectador acostumado com um corpo esfolado. E enquanto Boyle fez das jornadas de Spike e Jim (Cillian Murphy) uma experiência quase documental da realidade em um apocalipse zumbi nos anteriores, Nia DaCosta entrega uma direção sem personalidade, que só não faz de O Templo dos Ossos apenas mais um filme de apocalipse zumbi porque tanto Fiennes quanto O’Connell entregam atuações sublimes - a cena de Kelson ao som de Iron Maiden certamente estará entre as melhores do ano.
Por falar em Kelson: melhor personagem da franquia, ele continua sendo a força motriz que rege Extermínio desde A Evolução. Enquanto Spike acaba escanteado nessa sequência, o médico e sua relação com Sansão (Chi Lewis-Parry), o infectado alfa da região, são a melhor coisa de Templo dos Ossos. Entender que a infecção como doença e não como a chegada do apocalipse é o que torna a história do médico muito mais interessante, mas até mesmo a resolução do vínculo entre os dois parece preguiçosa demais para uma franquia que não se encaixa bem no mundano. Às vezes, deixar que o mundo acabe de vez parece ser mais interessante do que salvá-lo.