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Esquadrão Suicida | Por que o Coringa de Jared Leto causou no set do filme

Visitamos o set: ator do método teve comportamento bizarro nos bastidores, mas recebeu todo o apoio dos colegas de elenco

Natália Bridi
07.07.2016
16h09
Atualizada em
07.07.2016
16h25
Atualizada em 07.07.2016 às 16h25

Método é o que todos os atores fazem todas as vezes que atuam bem”, ironiza Lee Strasberg sobre a polêmica escola de atuação que desenvolveu em cima das teorias de Constantin Stanislavski. O público geral, porém, entende “método” como a forma do ator se transformar no personagem, misturando vida real e ficção.

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Daniel Day-Lewis, Christian Bale, Shia LaBeouf e Edward Norton são alguns dos nomes conhecidos por abusarem da técnica, passando meses “fora de si”, adotando transformações físicas radicais. Jared Leto é o caso mais recente. O músico/ator, que levou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante como o travesti soropositivo de Clube de Compras Dallas (2013), domina quase todas as notícias relacionadas a Esquadrão Suicida com relatos do seu comportamento bizarro no set.

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Pelo método de Strasberg, o ator precisa desenvolver em si mesmo os pensamentos e emoções do personagem. Objetivo que pode ser cumprido resgatando memórias similares, buscando em si as motivações para o comportamento descrito no roteiro. Contudo, como se trata de uma técnica baseada em experiências pessoais, muitos atores, como Leto, escolhem replicar nas suas vidas as situações da ficção para ganhar o conhecimento prático exigido pelo papel. Para interpretar Coringa, ele se transformou no príncipe palhaço do crime.

Com o ator assumindo a vida de gângster psicopata 24 horas por dia, a recomendação no set de Esquadrão Suicida era de distância e respeito. “Sr. J” e “Smiley” eram as formas corretas de se referir a ele, que interagia “no personagem” com toda a equipe: "Parece que você está na presença do Coringa. Quando ele pergunta coisas sobre as armas você se sente um dos capangas dele", conta Charles Taylor, ex-policial, encarregado das armas do filme.

A equipe comandada pela figurinista Kate Hawley foi avisada pelo próprio Leto sobre a intensidade que ele levaria para os bastidores: “Eu não o chamava de Jared. Era ‘E então Sr. J, que tal isso?’, conversas assim”, conta a assistente Renee Fontana, “Ele ficava no personagem, às vezes tentava nos apavorar, mas somos mulheres fortes. Por mais que tenha tentado o Coringa não conseguiu nos assustar ‘Sim, sim, você vai precisar de mais do que isso’, respondíamos. Ele só rosnava para nós. Mas nós brincávamos também”.

Segundo Leto, essa era a sua forma de interagir com o elenco e a equipe pelos olhos do Coringa. Assim, a carcaça de um porco foi despejada por um grupo de capangas sobre uma mesa enquanto o resto do elenco ensaiava; Margot Robbie, a Arlequina, recebeu uma carta de amor e uma caixa preta com um rato vivo dentro; Cara Delevingne, a Magia, recebeu amostras de sangue, brinquedos eróticos, camisinhas, dentes e cérebros de galinha; Will Smith, o Pistoleiro, recebeu uma carta e uma caixa com munição; outros membros do elenco também receberam cartinhas e presentes inapropriados, como esferas anais. “Fiz muitas coisas para criar uma dinâmica, um elemento de surpresa, de espontaneidade e realmente quebrar quaisquer tipos de paredes que pudessem existir. O Coringa é alguém que realmente não respeita coisas como espaço pessoal ou limites”, justifica o ator sobre as brincadeiras.

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Apesar de alguma resistência inicial - Viola Davis (Amanda Waller) confessa ter ficado desconcertada com os presentes -, os colegas de elenco compreenderam o esforço do ator - “Como pessoa, fiquei horrorizada: ‘será que ele é louco?’, mas depois pensei ‘ok, tenho que me segurar aqui’. Estamos falando de comprometimento”, explica a atriz. O rato foi recebido com um grito por Robbie, mas a atriz acabou se afeiçoando ao bichinho, que também ganhou os corações de Delevigne e Jay Courtney (Capitão Bumerangue). Batizado simplesmente de Rato, o elenco só se desfez do mascote por conta de uma visita surpresa do zelador no condomínio em que estavam morando em Toronto. A figurinista Kate Hawley então encontrou um novo lar para Rato com o cineasta Guillermo del Toro, com quem fez Círculo de Fogo e Crimson Peak - o presente do Coringa agora se chama Venustiano, em homenagem ao líder revolucionário mexicano José Venustiano Carranza Garza.

Robbie conta que a experiência de trabalhar com alguém do método foi sobretudo interessante: “Às vezes é estranho, às vezes é assustador e, na maior parte do tempo é divertido, pois estou tentando não rir. Ele diz as coisas mais engraçadas. Nunca me ocorreu, mas faz sentindo, já que ele é o Coringa e pode fazer várias piadas. Não pensava que ele faria isso, pois nas versões mais recentes ele é tão assustador, mas Jared é muito engraçado, assustador e completamente doido”.

Para Courtney, é preciso levar em conta o peso das expectativas dos fãs e da história construída por Cesar Romero, Jack Nicholson e Heath Ledger (com Nicholson eLedger também sendo adeptos do método): “É uma grande responsabilidade para qualquer ator assumir esse papel, eu certamente não o invejo, ele tem um grande legado atrás dele. Mas quando chega a isso, método ou não, o principal é lembrar o quão difícil é entrar e sair do personagem. Quando se trata de algo tão desgastante, você precisa esquecer das convenções sociais, mantendo o respeito com todos, mas fazendo a sua experiência no set o mais confortável possível. Nós podemos sentar e falar merda entre uma cena e outra, já alguém em um papel daquelas, se isso não vai ajudar na transição quando a câmera está rodando, eu respeito. Deve ser exaustivo, com certeza”.

Logo, mais do que um capricho de “ator difícil”, se manter no personagem é uma necessidade quando se trata de um papel complexo. O diretor David Ayer, que já trabalhou com praticantes do método como Bale e LaBeouf, explica como Leto, que também cumpria com compromissos da sua banda, a 30 Seconds to Mars, "deu à luz a si mesmo constantemente". “Ele volta, filma, e volta novamente. Não posso imaginar o quão difícil isso deve ser, mas ele realmente criou algo que você precisa ser. Da para ver o quão doloroso e cansativo é para ele ser esse personagem, mas dá para sentir, quando ele vem para o trabalho você pode sentir, todos sentem, é como se os pássaros parassem de voar. É assustador”.

Além de permanecer no personagem para experienciar a vida como Coringa, Jared Leto fez sua pesquisa para o papel com psicólogos que lidaram com psicopatas e pessoas que cometeram crimes horríveis: “Passei algum tempo com essas pessoas mesmo, que ficaram internadas em instituições por um longo tempo. Acho que, quando você pega um papel, qualquer um, você se torna parte detetive, parte escritor, e, para mim, essa é uma das melhores partes do processo, a descoberta e a construção de um personagem”.

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Se tanto esforço se mostrará válido ainda é cedo para dizer. As primeiras opiniões sobre o filme prometem um Coringa que rouba cada cena, mas é em 4 de agosto, na estreia de Esquadrão Suicida, que o mundo vai descobrir se método é sempre sinônimo de boa atuação ou é apenas muito barulho por nada.

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