Escravos da Fé: Arautos do Evangelho denuncia crime e obsessão em seita católica
Série documental faz denúncias contra organização aprovada pelo Vaticano
Documentários, em especial os acusatórios, não se preocupam, necessariamente, em esclarecer os fatos de maneira equilibrada. Eles seguem a linha de raciocínio do diretor, que busca depoimentos e provas que corroborem o seu ponto de vista. O resultado disso geralmente é um produto chocante, com diversas denúncias e opiniões especializadas que abalam o espectador que vive distante daquele debate. Com Escravos da Fé: Arautos do Evangelho, isso não é diferente. A produção da Warner Bros. Discovery dilacera a imagem da organização com depoimentos fortes e relatos dos mais variados crimes na entidade da Igreja Católica.
Apesar de as atividades dos Arautos não serem de interesse geral da população, o caso ganhou força após o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino liberar a distribuição do conteúdo, que passou por uma extensa batalha judicial para ser exibido. Embora liberado, a decisão judicial impede os produtores de utilizarem peças processuais de um inquérito civil que tramita em segredo de justiça contra o grupo religioso. O fato de o documentário ter sido temporariamente proibido pela Suprema Corte causou um burburinho nas redes sociais e fez a produção se tornar o assunto do momento. E o conteúdo dela, por sua vez, fez jus à repercussão.
A produção, dividida em três episódios, destrincha supostos crimes cometidos pelos Arautos do Evangelho em sua sede no município de Caieiras, no interior de São Paulo. A organização, aprovada pela Igreja Católica em 2001, é definida por diversas fontes como personalista, ou seja, tem sua estrutura baseada em uma única pessoa, que o documentário aponta ser o Monsenhor João Clá Dias, falecido em 2024.
A vida pública de Clá Dias foi dividida entre seu condecorado serviço ao Exército Brasileiro e ao seu trabalho no Vaticano, sendo considerado o principal discípulo de Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da organização TFP (Tradição, Família e Propriedade). A organização criada por Oliveira era de extrema direita e baseada em preceitos do catolicismo. A TFP participou ativamente da conclamação do golpe de políticos e militares contra o então presidente João Goulart, sendo participante ativa na organização de manifestações em prol do movimento golpista, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
Essa relação de mestre e discípulo é uma das linhas que servem de base para as teses do documentário, que indica que os Arautos do Evangelho passaram a venerar a dupla mais do que aos próprios santos da Igreja Católica. Seguindo ordenamentos de ultradireita extremamente conservadores, os associados dessa organização praticariam ativamente crimes de racismo contra negros e indígenas, além de promover uma cultura misógina e segregacionista. Eles ainda receberiam armamento pesado e treinamento militar, como confirmado por autoridades ouvidas pela produção.
Os entrevistados dos episódios ainda descrevem o ambiente e a convivência na sede como extremamente autoritários, insinuando que isso teria causado desde danos psicológicos irreparáveis até possíveis tentativas de suicídio. Isso leva todos os episódios a terem alertas de gatilho e instruções para a procura de ajuda profissional, caso o espectador esteja passando por um momento similar. Porém, a conversa fica ainda mais séria quando entra no tema de abusos sexuais contra menores.
Segundo os relatos do documentário, Clá Dias beijava e tocava meninas de cerca de 12 anos em diversas ocasiões, com a situação sendo descrita como santa para amenizar a repercussão interna. Considerado um santo não canonizado, todas as suas ações eram vistas como milagrosas e até vestígios corporais (como fios de cabelo, pelos pubianos e água do banho) eram guardados, distribuídos e venerados entre os associados. Já os padres com menor autoridade também eram acusados de abusos físicos, psicológicos e sexuais.
Apesar das denúncias gravíssimas, o documentário peca em alguns pontos, como na falta de mais testemunhas e provas concretas. Além disso, os acusados quase não têm tempo de tela para rebater as principais acusações ou apresentarem contraprovas, o que coloca os denunciantes em uma situação de “uma palavra contra a outra”, fragilizando seus relatos. Ainda assim, convincente ou não, a produção deixa claro que há algo de errado com a organização. Independentemente do valor jurídico imediato do documentário, Escravos da Fé: Arautos do Evangelho apresenta uma realidade torpe e que necessita ser investigada com rigor pelas autoridades.
Se você sofre com algum tipo de abuso ou acredita estar em uma situação de vulnerabilidade, procure as autoridades competentes: ligue 190 para a Polícia Militar, 181 para o Disque Denúncia ou 188 para o para o CVV (Centro de Valorização da Vida).