Martin McDonagh vê ecos da política atual em Cavalo Selvagem Nove e comemora a conversa sobre o Oscar
Em entrevista ao Omelete, o diretor fala sobre a CIA, a América Latina e a campanha de John Malkovich e companhia à temporada de premiações
Martin McDonagh não fez Cavalo Selvagem Nove para ser um filme sobre 2026, mas o diretor admite que ficou difícil não enxergar o presente na tela depois que o longa ficou pronto.
Em conversa com o Omelete, o cineasta contou que o ponto de partida do projeto era mais específico: contar a verdade sobre o que a CIA fez no Chile em 1973 e sobre a atuação da agência no mundo antes disso, de Guatemala a Congo, passando pela Baía dos Porcos. A história funciona como pano de fundo desse retrato, mas, segundo ele, o resultado acabou dialogando com o que se vê hoje na geopolítica e na política latino-americana. “Com certeza, tendo feito o filme, consigo ver todos os ecos do que está acontecendo”, disse McDonagh. Para ele, a história americana e seu impacto no mundo “parece estar se repetindo agora, o que não é um lugar muito bom para se estar”.
A fala vem num momento em que o Brasil e outros países da região voltam a debater interferência estrangeira. Se o tema é pesado, a abordagem de McDonagh segue a marca registrada do diretor. Ele diz não gostar de filmes históricos puramente didáticos ou transformados em lição e o humor permite abordar a história “de forma sorrateira”: o público entra rindo e sai, com sorte, sabendo mais sobre o que a CIA fez à época. Ele faz questão de deixar claro: “Definitivamente não estamos rindo disso”.
Depois de passar por Veneza, Toronto e outros festivais, Cavalo Selvagem Nove já aparece nas conversas sobre a temporada de premiações, com Malkovich citado como um dos favoritos. McDonagh recebe a movimentação com entusiasmo, mas sem perder o foco. Para ele, cada menção ao Oscar significa que mais gente ouve falar do filme e, esperançosamente, vai vê-lo no cinema. A atuação de Malkovich, diz, é tão hipnotizante que pede a tela grande.
O diretor também fez questão de dividir os holofotes e elogiou o elenco como um todo, torceu para que Mariana Di Girolamo seja indicada e destacou Sam Rockwell. Confira a entrevista completa abaixo.
Alexandre Almeida: Uma das coisas que mais ressoou comigo é que estamos vivendo em um momento diferente aqui no Brasil, com interferência estrangeira de novo e na América Latina inteira. O que te motiva a contar essa história?
Martin McDonagh: Originalmente, era para contar a verdade sobre o que a CIA fez no Chile em 1973 e o que a CIA estava fazendo no mundo todo antes disso, na Guatemala, no Congo, na Baía dos Porcos. Era para contar uma história com isso de pano de fundo, de certa forma, mas, com certeza, tendo feito o filme, consigo ver todos os ecos do que está acontecendo na geopolítica moderna e na política da América Latina, mesmo que não tenha sido feito para ser uma história sobre os dias atuais. Acho que a história americana em especial e como isso afeta o mundo, parece estar se repetindo agora, o que não é um lugar muito bom para se estar.
Alexandre Almeida: Você tem essas duplas icônicas nos seus filmes, como Brendan Gleeson e Colin Farrell duas vezes, e você um trio com Frances McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell, mas agora você traz John Malkovich para essa mistura. Como foi trabalhar com ele e criar essa dinâmica com o Sam Rockwell?
Martin McDonagh: Foi ótimo trabalhar com o John. Ele é um dos melhores atores por aí. Ele é um ator de teatro também, então ele entende nuances, detalhes, e ele é muito engraçado no filme. Mas é a gravidade dele, nos momentos silenciosos, nos é permitido ver o arrependimento e a culpa dele. Essa foi uma das grandes coisas que o John trouxe para o filme. Além disso, ele e o Sam Rockwell meio que se amam como atores, e acho que, para a história funcionar, os personagens têm que se amar também, e acho que isso era palpável em quem eles são como homens.
Alexandre Almeida: O que você pensa agora que passou por Veneza, Toronto, todos esses festivais e as pessoas estão falando sobre o Oscar e você indo para lá de novo, o John como um dos favoritos?
Martin McDonagh: Estou animado. Sempre que se fala sobre isso, significa apenas que mais pessoas vão ouvir falar do filme e, esperançosamente, vão assistir nos cinemas. Mas acho que, especialmente a atuação do John, é tão hipnotizante que você realmente precisa ir ver em uma tela grande. Mas todos os atores são incríveis. A Mariana [Di Girolamo] é incrível, espero que ela seja indicada, e o Sam [Rockwell]. Mas acho que quando você está feliz com o filme como um filme, essa é a coisa principal, de certa forma.
Alexandre Almeida: O humor faz parte da sua filmografia também. Momentos como a cena com Víctor Jara tocando ao fundo e o John dizendo todas as coisas ruins e crimes que eles vão cometer, você coloca humor ali na forma como ele fala e como as outras personagens reagem. Você vê o humor como uma forma de as pessoas entenderem melhor esses assuntos difíceis ou mais pesados?
Martin McDonagh: Acho que sim. Não tenho certeza se é necessariamente sobre entender, mas eu não gosto de filmes que são muito pesados, puramente históricos, puramente didáticos ou uma lição. Eu acho que este é um filme muito divertido e as atuações são engraçadas, sombrias e ultrajantes, mas acho que também permite que você fale sobre a história quase de forma sorrateira, entra enquanto você esteve rindo, mas na verdade você está, esperançosamente, aprendendo a verdade sobre o que a CIA fez naquela época. Definitivamente não estamos rindo disso, espero que isso fique claro. Mas permite que o público veja um filme divertido e, esperançosamente, aprenda algo.
Alexandre Almeida: Você tem um momento favorito durante a produção? Vocês foram para a Ilha de Páscoa e é um dos meus sonhos ir lá.
Martin McDonagh: Você deveria, é lindo. Acordar lá todos os dias era lindo, mas acho que trabalhar perto dos Moai, ter cenas gravadas perto deles, você estava concentrado nas atuações, mas ao dar um passo para trás e olhar ao redor, essa história, beleza e espiritualidade estavam lá. Especialmente em momentos calmos, se você saísse para uma caminhada, você seria o único entre eles e isso foi tão memorável e bonito.
Alexandre Almeida: Muito obrigado e espero que todos vejam o filme, é incrível.
Martin McDonagh: Muito obrigado!
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