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Cavalo Selvagem Nove tem John Malkovich brilhante em um dos melhores filmes do ano

Martin McDonagh volta a criar uma dupla perfeita de protagonistas em uma história que reencontra o tema da amizade em meio ao caos e a melancolia

Omelete
4 min de leitura
03.09.2026, às 14H30.

As obras de Martin McDonagh costumam olhar para a humanidade sob uma ótica sarcástica. Seja com os assassinos isolados em uma cidade turística em Na Mira do Chefe, o comportamento imprevisível de uma mãe em busca de justiça em Três Anúncios para um Crime, ou o fim repentino de uma amizade em Os Banshees de Inisherin. Todos esses elementos são utilizados em tramas que abordam culpa, julgamento moral, negligência dos sistemas e até a Guerra Civil Irlandesa. Com Cavalo Selvagem Nove, novo filme do diretor e roteirista, as coisas não são diferentes.

McDonagh, no entanto, parece mais interessado no lado político do que no social desta vez. Ao posicionar a trama no Chile de 1973, poucos dias antes do golpe liderado por Augusto Pinochet e do assassinato do presidente eleito Salvador Allende, o diretor tem um alvo certo: a Operação Condor e a paranoia norte-americana da era Richard Nixon.

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A trama acompanha dois agentes da CIA que estão no Chile arquitetando o golpe militar. Dias antes de o plano ser posto em prática, os dois viajam até a Ilha de Páscoa para umas “férias”. O que o passeio esconde é que Chris (John Malkovich) está doente, esquecendo as coisas, e vai usar o tempo livre para escrever seu livro de memórias sobre a agência de inteligência dos EUA. Já Lee (Sam Rockwell) o acompanha como parceiro de trabalho, mas tem a missão secreta de descobrir um grande segredo que Chris vai incluir em suas gravações.

Wild Horse Nine
Divulgação/Searchlight Pictures

Martin McDonagh faz então o que sabe de melhor: costura críticas sociais e políticas com diálogos reflexivos e debochados, isola seus protagonistas e utiliza a violência — física e verbal — para extrapolar suas ideias. Um dos melhores exemplos está logo no início do filme, quando Chris conta a duas jovens turistas no saguão do aeroporto que é um agente da CIA e está no país para desestabilizar a democracia. A reação da dupla e a resposta imediata de Lee são impagáveis, mostrando todas as garras do cineasta diante do tema que se propõe a tratar.

A trama mete a mão na sujeira da atuação dos EUA na arquitetura das ditaduras da América do Sul sem se preocupar em ser um relato histórico didático de Wikipedia. Allende, Pinochet e o 11 de setembro financiado pelos EUA no Chile — 28 anos antes de Osama Bin Laden — são explicados de forma simples e orgânica dentro dos diálogos, sem nunca soar como uma aula para a plateia. Em determinado momento, McDonagh promove o reencontro da dupla de protagonistas com as duas jovens do aeroporto, desta vez em um bar com show de Víctor Jara, um dos artistas mais ativos pró-democracia no Chile e que acabou morto no campo de concentração do Estádio Chile, em Santiago. Enquanto Jara se apresenta, Chris detalha todo o plano americano como uma grande profecia do terror pelo qual seu país seria responsável.

Por meio da incrível atuação de John Malkovich, a história fala sobre memória. O homem prestes a perder a própria mente é o responsável por relatar, mais de uma vez, as maldades e tragédias humanas. Malkovich brilha ao fazer de Chris uma figura odiosa por seu passado, mas que, ao se despir de suas lembranças, também deixa de lado o nacionalismo desmedido. Já Lee, vivido por Sam Rockwell, é um agente mais jovem e inconsequente, ainda sem as décadas de serviço do companheiro, o que ele justifica com um irônico “eu matei apenas oito”. Enquanto em Os Banshees de Inisherin os personagens se afastavam cada vez mais (tal qual os dois lados da guerra civil), em Cavalo Selvagem Nove existe uma aproximação, mesmo que aos trancos e barrancos, como se o conhecimento de Chris abrisse os olhos de Lee para aquilo que ele tanto defende.

Wild Horse Nine
Divulgação/Searchlight Pictures

McDonagh volta a povoar sua narrativa com animais — aqui, claro, os cavalos do título —, usados como símbolos da liberdade pela qual Chris lutou, mas que nunca foi realmente como a dos bichos. Em outro momento, o animal surge como metáfora para a morte dessa mesma liberdade, antecipando o que estava prestes a acontecer na capital chilena. Os Moais, as “grandes cabeças” da Ilha de Páscoa, também preenchem o cenário como figuras curiosas e rendem momentos hilários com Malkovich, especialmente quando ele começa a descrever com o que as estátuas se parecem — numa crítica afiada ao preconceito do conservadorismo norte-americano com nomenclaturas originárias e ao desrespeito a outras culturas.

Cavalo Selvagem Nove é mais um excelente capítulo nesse grande projeto de duplas que Martin McDonagh constrói a cada filme. Com um ritmo excelente e um elenco de primeira, que ainda conta com Steve Buscemi, Parker Posey e uma participação especial de Tom Waits, o diretor e roteirista nunca perde o fio da meada e equilibra perfeitamente o deboche com a melancolia da missão final de Chris e suas memórias carregadas de sombras e dor. Dores que ele tenta aplacar momentaneamente com a morfina que aplica no braço, mas que, para todos aqueles que ele e os EUA trabalharam contra, as marcas permanecerão eternas. Seja nas feridas abertas do golpe militar ou na disseminação mundial do queijo cheddar processado.

Nota do Crítico

Cavalo Selvagem Nove

Wild Horse Nine

Ver ficha completa Lauch Icon
16 Comédia, Crime, Thriller
Duração: 118 min
Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Elenco: John Malkovich, Sam Rockwell, Steve Buscemi, Parker Posey, Tom Waits, Mariana di Girolamo, Paola Giannini, Ailín Salas, Samuel Wayt
Data de lançamento: 05 de novembro de 2026

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