Entenda o fenômeno de My Hero Academia

Créditos da imagem: My Hero Academia: 2 Heróis - O Filme/Sato/Divulgação

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Entenda o fenômeno de My Hero Academia

Como o mangá de Kohei Horikoshi uniu o estilo japonês aos quadrinhos americanos

Fábio Garcia
02.08.2019
14h20
Atualizada em
02.08.2019
15h28
Atualizada em 02.08.2019 às 15h28

Em maio de 2014, o jovem autor de mangá Kōhei Horikoshi, então com 27 anos, foi a um cinema japonês prestigiar o lançamento de O Espetacular Homem-Aranha 2. Fã ardoroso do cabeça de teia e de heróis no geral, Horikoshi quis demonstrar seu amor aos quadrinhos não só comprando o ingresso, mas também fazendo cosplay de Homem-Aranha naquela sessão. "Muitas pessoas tiraram fotos minhas, foi embaraçoso", contou em entrevista dada ano passado ao Anime News Network. O mesmo apreço de Horikoshi por quadrinhos americanos seria demonstrado naquele mês e ano de uma outra forma: começava a publicação de seu mangá, My Hero Academia, na revista semanal Shonen Jump.

Divulgação

A Jump tem a fama mundial de ser "apenas" a casa da maioria dos mangás mais famosos no mundo. Aquelas páginas feitas de papel reciclado já receberam mangás como Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco, One Piece, Yu-Gi-Oh! e dezenas de outras séries em seus mais de 50 anos. Em 2014, no ano em que o mangá Naruto preparava sua despedida, a revista estava em busca de um novo fenômeno para colocar em suas páginas e, talvez, ocupar o espaço do ninja loiro. One Piece ainda vendia muito bem, claro, e a editora estava bem feliz com a boa repercussão de Assassination Classroom, porém faltava uma história nova com todos os elementos mais tradicionais de um mangá shonen: amizade, luta, vilões, torneios etc. Foi nesse contexto que apareceu Kōhei Horikoshi.

My Hero Academia é como se fosse o encontro entre os mangás japoneses e os quadrinhos americanos. Nessa história, 80% dos seres humanos têm algum tipo de dom especial,estimulando a existência de super-heróis (e vilões, lógico). No entanto, o jovem Izuku Midoriya, o protagonista, está entre os 20% da população incapaz de manifestar qualquer individualidade, mesmo ele admirando muito o trabalho dos heróis e sonhando ser um. Sua vida muda quando ele tenta salvar Bakugou, seu amigo de infância, durante um ataque de vilão. Admirado pela coragem do rapaz, o grande herói All Might revela que tem o poder transferir seu dom para outra pessoa, e entrega a Midoriya sua individualidade. Agora com uma baita responsabilidade nas mãos, o jovem pode realizar seu desejo de entrar na U.A., a escola na qual todos os aspirantes a heróis sonham em estudar.

Não demorou para My Hero Academia despontar nas páginas da Shonen Jump e ficar no top 3 dos mangás favoritos da revista, segundo votações do público. Um anime era questão de tempo. Em 2016, estreou na televisão japonesa (e em streamings por todo o mundo) uma série animada produzida pelo estúdio Bones. Ao contrário de um Naruto da vida, cuja série tem mais episódios descartáveis do que histórias baseadas no mangá, My Hero Academia segue fielmente o original por ser lançado em temporadas com alguns meses de pausa entre elas. O timing do anime não poderia ser melhor, pois estreou em meio a toda comoção popular pelos filmes de herói da Marvel.

Cinco anos após seu lançamento, o mangá de My Hero Academia ainda traz números invejáveis no mercado editorial japonês. Segundo o levantamento da Oricon sobre as séries de mangá mais vendidas no primeiro semestre de 2019, My Hero Academia está em quarto lugar com pouco mais de 3 milhões de exemplares vendidos no período. Está abaixo de One Piece e The Promised Neverland (ambos da Shonen Jump), mas aparece acima de Ataque dos Titãs, Haikyuu!! e até de One-Punch Man. Isso sem contar vendas de produtos licenciados, um jogo de videogame lançado para todos os consoles e um longa-metragem, que chega ao Brasil em agosto - confira as salas e horários

Mas qual o motivo do sucesso de My Hero Academia? Como todo bom fenômeno, é difícil definir com certeza algum ponto bem sucedido, mas nesta série podemos ver como o autor fez um casamento entre dois mundos: o da linguagem dos mangás com um tema bem americano. Em cada detalhe de uniforme, desenvolvimento de arco ou poderes inusitados percebemos o amor de Kōhei Horikoshi pelo tema. Um ponto que facilita o interesse também é a quantidade de personagens importantes: em vez de focar apenas em um protagonista, o autor abre espaço para dezenas de outros alunos com tanto carisma quanto o principal. São muitos poderes legais: Ochaco Uraraka tem o poder de modificar a gravidade, Bakugou explode coisas, Kirishima fica duro, Todoroki domina fogo e gelo, Iida tem turbinas motorizadas em suas pernas e por aí vai. É tanta variedade de personagens, para todos os gostos, que acaba causando situações inusitadas, como o fato do protagonista Midoriya nunca ter ganhado uma enquete de popularidade na Shonen Jump, perdendo sempre para seus colegas Bakugou e Todoroki.

Apenas em uma característica Horikoshi promete ser bem diferente de seus colegas de Shonen Jump. Ao contrário de One Piece, que segue firme e forte rumo aos 100 volumes encadernados, o autor de My Hero Academia promete que sua história não será “infinita”. Atualmente com 24 volumes publicados no Japão, devemos ter mais alguns anos de história e sucesso, até chegar o destino natural das coisas e um novo fenômeno aparecer. Enquanto isso não acontece, continuamos nos divertindo com as aventuras de Izuku Midoriya e a escola de heróis.