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Entrevista

Elvis resgata pioneiros negros do rock: “Guitarra não é só para homens brancos”

Yola, Alton Mason e Kelvin Harrison Jr. falam dos artistas que inspiraram Elvis

Omelete
4 min de leitura
18.07.2022, às 06H00
ATUALIZADA EM 05.08.2022, ÀS 14H10
ATUALIZADA EM 05.08.2022, ÀS 14H10

Sister Rosetta Tharpe inventou o rock n’ roll - e, depois da estreia de Elvis, a cantora e atriz Yola espera que mais gente saiba disso. Em entrevista ao Omelete, a intérprete da cantora e guitarrista que foi pioneira em técnicas de guitarra que viriam a definir o rock falou da importância de se dar o devido crédito a Tharpe e outros artistas negros da mesma era.

Eu cresci ouvindo Sister Rosetta, mas mesmo assim, no começo da minha carreira, me diziam que ninguém queria ouvir uma mulher negra cantando rock n' roll. E eles diziam isso só porque não sabiam nada sobre o rock n' roll”, comenta. “Reconhecer que ela foi a originadora de tudo isso é dizer para todo tipo de pessoa que sim, você tem o direito de pegar em uma guitarra e fazer rock n' roll. Não é só uma coisa de caras brancos”.

Yola e sua interpretação de Tharpe aparecem em Elvis na cena em que ele visita o Club Handy, lendário local da Beale Street, em Memphis, no qual músicos pioneiros do rock se reuniam. O profundo respeito de Presley pelas raízes negras do rock é bem documentado, mas isso não muda o fato de que ele ascendeu a um nível de fama que os músicos que o precederam e inspiraram nunca conseguiram alcançar.

Sister Rosetta foi nossa primeira shredder, a primeira a fazer um solo. Ninguém antes dela. É insano que tanta gente não saiba quem foi a primeira”, comenta Yola. “Isso acontece porque ela é uma mulher, é claro. Sabemos que não somos bons em manter um registro das conquistas das mulheres durante a história, e também das pessoas não-brancas. Quando você junta as duas coisas, é notável a genialidade que somos capazes de ignorar”.

"Eletrizante e liberador"

Alton Mason como Little Richard em Elvis (Reprodução)
Alton Mason como Little Richard em Elvis (Reprodução)

Um dos momentos mais impressionantes de Elvis, inclusive, é um registro de Alton Mason, o modelo e ator que interpreta Little Richard no filme, cantando e dançando ao som de “Tutti Frutti”, clássico hit do cantor - ele mesmo um “apadrinhado” de Sister Rosetta, e um dos maiores rockstars dessa primeira era do gênero.

Mason descreve a experiência de filmar a performance como eletrizante e liberadora”. Descobrir mais sobre Little Richard foi a minha parte favorita desse trabalho, é algo que vou carregar comigo para sempre. Eu cresci na Louisiana, e o gospel era muito forte na nossa casa. Somos descendentes de Mahalia Jackson, ela é minha tia-tataravó ou algo assim”, conta ele, se referindo à primeira-dama do gospel americano, gênero que também influenciou o nascimento do rock.

De certa forma, então, eu me senti em casa nesse papel”, continua. “Trouxe todas essas coisas comigo para o filme: performance, raízes sulistas, espiritualidade. Eu sinto que Baz [Luhrmann, diretor do filme] pegou esses elementos e os esticou o mais longe possível naquela cena. É uma honra para mim homenagear Little Richard”.

Amigos, amigos…

Austin Butler e Kelvin Harrison Jr. como Elvis e B.B. King em Elvis (Reprodução)
Austin Butler e Kelvin Harrison Jr. como Elvis e B.B. King em Elvis (Reprodução)

Além de Tharpe e Richard, Elvis também dá bastante destaque para a amizade de Presley com B.B. King, mais um nome forte (e, talvez, mais amplamente reconhecido) dessa era musical. Interpretado por Kelvin Harrison Jr., o personagem de King serve como a voz da consciência do filme, reconhecendo em termos claros esse abismo de aceitação que existia entre Elvis e seus amigos artistas.

Há um momento em que King diz: 'Você pode fazer exatamente isso que fazemos aqui, mas provavelmente vai ganhar muito mais dinheiro do que nós ganharíamos'”, aponta Mason. “Eu acho que a verdade, no entanto, é que você pode até copiar a receita, mas o molho não vai ter o mesmo gosto do original”.

Para o próprio Harrison Jr., esse retrato da amizade entre os dois músicos serve como uma oportunidade para refletir sobre o que é ser artista. “O foco está nas diferenças entre as trajetórias de carreira de King e Presley, das expectativas que eram colocadas neles, de qual era a realidade para cada um. Mas, no fim das contas, são só dois artistas oferecendo um ao outro as mesmas coisas: inspiração, conselhos, apoio”, diz.

Entender o que Elvis passou é difícil, mas King podia oferecer apoio na jornada criativa dele”, completa. “E a jornada criativa é sempre a mesma, independente do nível de sucesso”.

Elvis já está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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