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Créditos da imagem: Adoráveis Mulheres/Divulgação

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Por que o conceito de “personagem feminina forte” precisa acabar

Visão da mulher que aguenta tudo é tão nociva quanto seu completo oposto

Camila Sousa
08.03.2020
10h18
Atualizada em
08.03.2020
10h30
Atualizada em 08.03.2020 às 10h30

Quando chega a época do Dia Internacional da Mulher, é comum ver listas sobre as “personagens mais fortes do cinema” ou “mulheres que chutam bundas na TV e nos filmes”. A popularização do termo “mulher forte” aumentou nas últimas décadas e foi incentivado por várias produções que mostram este “ideal” de mulher, como a Sarah Connor da franquia O Exterminador do Futuro e a própria Ripley dos filmes de Alien. No entanto, assim como mostrar uma personagem feminina extremamente “fraca” é ruim, definir que o modelo certo a se seguir é apenas o total oposto é tão prejudicial quanto.

Pegando Sarah Connor como exemplo, sua mudança do primeiro para o segundo longa de O Exterminador do Futuro é drástica. Enquanto sua apresentação é de uma mulher assustada e inocente - conceito acentuado pelo visual e as expressões de medo de Linda Hamilton - no segundo longa ela se tornou o que muitos consideram a forma certa de ser uma mulher: agora Connor atira, é forte fisicamente, sabe se defender e treinou bastante para não precisar de ninguém. Isso seria até bem positivo, se não fosse a ideia de que, para ser um exemplo de força, uma mulher precisa agregar conceitos masculinos.

O Exterminador do Futuro/Divulgação

O que causa incômodo em tais obras é a sensação de limitação passada pelas personagens. Parece que as mulheres da ficção sempre precisam fazer uma escolha entre ser feminina e vaidosa, ou ser forte e masculinizada. Nunca é possível ser um pouco das duas. Enraizar tal conceito na sociedade, especialmente em adolescentes, faz com que muitas garotas que não se encaixam nos conceitos clássicos de feminilidade busquem traços masculinos para definir sua personalidade.

Tal problema remete à uma fala de James Cameron em 2017, época do lançamento de Mulher-Maravilha. O diretor afirmou que considerava o longa da amazona como um retrocesso e que a visão de Sarah Connor era muito mais interessante para uma mulher. A verdade, no entanto, é que nenhum extremo é bom. O melhor caminho sempre será a criação de personagens que tenham diferentes camadas e sejam mais do que um conceito fechado em um roteiro.

Um bom exemplo atual disso é a série Brooklyn Nine-Nine. À primeira vista, a produção é cheia de estereótipos femininos e masculinos. Mas ao invés de embarcar em tais conceitos, o seriado faz uma autocrítica e acrescenta camadas aos protagonistas. O caso de Rosa (Stephanie Beatriz) é um dos mais interessantes. Em um primeiro momento, a policial é vista como uma autoridade durona, que não gosta de brincadeiras e não tem paciência para nada. O grande diferencial é que Rosa é tudo isso e muito mais. Ela demonstra sentimentos, fica triste, participa de brincadeiras bobas dentro da 99 e aos poucos começa a mostrar suas fraquezas para os colegas de profissão. A desconstrução de Rosa ao longo das temporadas a tornou uma personagem extremamente real e prova que, para ser forte, não é preciso ser uma “máquina sem sentimentos”.

A mulher modelo

Outra produção recente que fala sobre o tema é a versão de Greta Gerwig do clássico Adoráveis Mulheres. Ao representar as irmãs March com diferentes facetas, a diretora mostra como não há uma forma “certa” ou “errada” de ser mulher. Tudo bem se você quiser ser dona de casa, tudo bem se você quiser cuidar sempre da aparência e tudo bem se você quiser ser o completo oposto disso. O importante é que suas escolhas te façam feliz e não sejam tomadas para agradar conceitos pré-estabelecidos por outros.

Adoráveis Mulheres/Reprodução

Seria fácil, por exemplo, olhar Meg March como uma personagem fraca por seu desejo pela vida doméstica. Ter Emma Watson, uma ativista em prol das mulheres, no papel poderia até soar como uma ironia. Mas a cena que muda tudo isso é quando a personagem diz “só porque meus sonhos são diferentes dos seus, não significa que eles não são importantes”. Meg tem força ao fazer suas escolhas de vida e isso a torna uma personagem completa, longe de estereótipos e muito mais perto da realidade.

Outro momento poderoso do filme é quando Jo March fala, entre outras coisas, sobre a solidão de ser uma mulher forte, um dos grandes problemas em ter esse conceito tão romantizado nas telas. “Sinto que mulheres têm mentes e almas, além de apenas o coração. Elas têm ambições, têm talento, além de apenas beleza. Estou cansada de pessoas dizendo que as mulheres só são feitas para o amor. Estou cansada disso, mas estou tão solitária”.

Adoráveis Mulheres/Reprodução

Ao dizer que o certo é ser forte o tempo todo, nunca descansar, nunca mostrar fraqueza e jamais pedir ajuda, tais filmes e séries dizem para mulheres do mundo todo que eles precisam aguentar tudo. É preciso ser uma mãe perfeita, uma profissional perfeita, uma mulher perfeita, mas a verdade é que é humanamente impossível fazer isso. A indústria do entretenimento mostra padrões impossíveis, tanto físicos quanto emocionais, e quando mulheres reais não os alcançam, elas se sentem frustradas.

Felizmente, tais conceitos estão cada vez mais datados e há roteiristas em Hollywood que já perceberam a importância ir além, como a já citada Brooklyn Nine-Nine. Para o Dia Internacional da Mulher, o desejo não é ter modelos de perfeição em filmes e séries. O que queremos é apenas ver mulheres reais, que tenham falhas, que errem, acertem e que sejam, acima de tudo, humanas.