Zi | Novo filme de Kogonada busca por resposta após flop do diretor em Hollywood
Feito às pressas após A Grande Viagem de Sua Vida, filme é claramente um processo e não um produto
Créditos da imagem: Festival de Sundance
Não é à toa que, apenas alguns meses depois de lançar A Grande Viagem de Sua Vida – filme com Margot Robbie e Colin Farrell que foi demolido pela crítica e público, além de flopar na bilheteria – Kogonada já está de volta com um novo projeto. Imperfeito mas com a sensação de urgência que só um artista perdido pode reproduzir, Zi é simultaneamente um processo de auto-entendimento e uma busca por respostas criativas. Filmado no lado menos conhecido de Hong Kong – longe dos arranha-céus e luzes neon – e rodado sem um roteiro finalizado, seu novo longa é repleto de ideias exploradas pela metade. A questão, logo fica claro, é que o ato de explorar é justamente o alvo do longa.
O esboço de uma narrativa é protagonizado por Zi (Michelle Mao), uma violinista celebrada em Hong Kong que está sofrendo com visões. Nelas, a jovem parece ver seu eu do futuro – seja ele imediato ou de anos depois. Por boa parte do filme, a abordagem efêmera de Kogonada abre espaço para que essa condição seja interpretada como fruto de um possível tumor em seu cérebro (quando a conhecemos, ela já está realizando exames) ou de um deslocamento temporal paranormal. Mais importante é a sensação que isso gera no longa. Zi parece existir fora do tempo e espaço, numa noite eterna onde há espaço para conhecer estranhos que imediatamente viram amigos íntimos. Passeando pelas ruas e becos da cidade, descobrindo comida de rua e brincando em karaokês na esquina, Kogonada e Zi estão tentando voltar às raízes. A realização e seu realizador vagam, juntos, desesperadamente buscando algo real.
Zi se apresenta como um ótimo filme de cidades, e particularmente de passar a noite numa metrópole. E sua guia neste passeio? Não podia ser ninguém além de Haley Lu Richardson. Interpretando a dançarina Elle, que deixou a vida nos EUA para se redescobrir na Ásia, a musa do diretor de Columbus e After Yang é o grande destaque do filme, oferecendo ao cineasta e à protagonista um norte, interpretando alguém que parece já ter passado por esse amadurecimento. E não é preciso conhecer o histórico de colaborações da atriz com Kogonada para entender o fascínio que Elle gera. Espontânea e carismática, Richardson mais do que justifica sua transformação numa espécie de centro gravitacional para o filme.
Ao mesmo tempo, essa abordagem oferece alguns perigos dos quais Zi não desvia. Se o primeiro encontro entre as personagens funciona devido ao ar de surrealismo com o qual Kogonada filma suas cenas iniciais, alguns vais e vens posteriores esticam a credibilidade justamente porque o longa coloca mais e mais os pés no chão. Gera-se uma dependência emocional de Elle que é melhor justificada como o ato de um criador rumo a seu porto seguro do que como um movimento narrativo para a jovem Zi, e isso só piora quando o ex de Elle entra em cena. Min (Jin Ha) parece já conhecer Zi, e tem alguma ligação com o centro médico que está examinando-a. Ele, portanto, deve ter algumas respostas.
Sua presença redireciona o filme ao concreto. Kogonada, então, se vê forçado – essa parece ser a palavra mais apropriada – a examinar, por exemplo, ideias de ficção-científica sobre as visões de Zi, assim como um drama relacional sobre Elle e Min, que namoraram por uma década e agora se reencontram pela primeira vez em anos. Nenhum desses elementos, assim como uma virada aos 45 do segundo tempo para um romance de Zi, parece ter sido cozido até o fim. Eles são jogados em tela como quem joga algo na parede para ver o que cola. Um final feliz e definitivo também vai de contramão com a ambiguidade com a qual tudo antes estava sendo pintado.
Isso torna Zi frustrante, mas compreensível. Ao ser incompleto, Zi se torna mais artisticamente relevante para Kogonada, e portanto um material rico para análises e críticas. Como produto, porém, ele não é o mais recompensador, especialmente para quem não liga para o arco da carreira do artista. No esquema de “um para eles, um para mim”, está evidente que Kogonada é a principal audiência de seu novo longa.
Crítica escrita como parte de nossa cobertura do Festival de Sundance.