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Crítica

Uma Manhã Gloriosa | Crítica

Comédia retrógrada sobre mercado de trabalho glorifica a imbecilização do público

Érico Borgo
31.03.2011
18h00
Atualizada em
21.09.2014
14h18
Atualizada em 21.09.2014 às 14h18

Usando estrutura de comédia romântica, mas com o romance em terceiro plano, Uma Manhã Gloriosa (Morning Glory, 2010) explora o subgênero em que o problema da protagonista não é ficar ou não com o homem desejado, mas provar-se capaz de realizar o mesmo trabalho que ele.

Mesmo que não estivesse duas décadas atrasada, a temática é extremamente prejudicada por ideias retrógradas e que beiram o sexismo. Buscando uma "fofura" cativante, como se a própria doçura da atriz não fosse suficiente, a personagem de Rachel McAdams (Sherlock Holmes), produtora executiva que assume um programa falido e precisa levantá-lo, é exagerada: anda de maneira desengonçada e desastrada, como uma idiota inocente buscando seu lugar em um mundo em que não parece caber. Sua marca profissional, além do copo de café em uma mão e o smartphone na outra, é a carinha de chorona, de quem está prestes a desabar em lágrimas quando a coisa aperta. Exatamente o que não se espera de uma produtora executiva no competitivo mercado de trabalho.

Uma Manhã Gloriosa

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Como se não bastasse essa ideia de profissional equivocada, o filme ainda despeja suas opiniões sobre problemas frequentes da comunicação. Há um embate, central à trama, entre a informação como entretenimento e o jornalismo sisudo. A audiência espera o primeiro - e responde aos quadros de animais e vivenciais de situações constrangedoras com entusiasmo. Do outro lado do ringue, o velho jornalista vivido por Harrison Ford luta para manter sua integridade e levar matérias de qualidade a um mundo que não as deseja. Esse embate tem um desfecho vergonhoso, com direito a discurso pró-imbecilização do espectador. Um libelo às "confort news" que engordam o público na frente da TV. A roteirista Aline Brosh McKenna afunda assim qualquer credibilidade que tinha conquistado com O Diabo Veste Prada (em que apenas cuidou da adaptação) e que já havia começado a perder em Vestida Para Casar.

Mas não é só no campo das ideias que Uma Manhã Gloriosa consegue ser ofensivo. O diretor Roger Michell (Vênus) consegue errar também na condução de atores. Não fica claro se Harrison Ford percebeu a besteira que estava cometendo e está sendo ele mesmo (sua fama de ranzinza é alardeada em Hollywood) ou se o jornalista gutural é maniqueísta daquele jeito. A personagem de Diane Keaton (Alguém Tem Que Ceder) também incomoda, especialmente em sua empolgação ao perceber que chegou sua chance de torna-se a Ana Maria Braga da vez, animando a manhã das donas de casa sem expectativa. Completa o pacote uma trilha sonora terrível, meio de conto-de-fadas, que permeia de maneira opressiva a produção.

Ao final, a cena da discussão da relação no apartamento de Patrick Wilson (Watchmen) é a única que apresenta um vislumbre de pessoas de verdade no filme. Pena que o personagem seja mais um na longa lista de erros de algo tão filosoficamente errado. O namorado da protagonista, afinal, tem um emprego melhor que o dela e consegue equilibrar sua vida pessoal e profissional sem problemas, além de - antes de começarem sua relação - encontrar espaço para transar com que bem entendesse. Na visão distorcida de Uma Manhã Gloriosa, o macho passa muito bem, observando as mocinhas tentando brincar de casinha na TV, de trás de seu copão de chopp.

Uma Manhã Gloriosa | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Ruim