Tony faz cinebiografia apaixonada e apaixonante de Anthony Bourdain
Filme de Matt Johnson acompanha os anos de juventude do renomado chef e escritor
Créditos da imagem: A24
A vida e o trabalho de Anthony Bourdain (1958-2018) foram marcados por duas coisas: suas paixões, e sua capacidade de comunicá-las. O chef, autor do lendário livro Kitchen Confidential e apresentador de No Reservations e Parts Unknown – programas pioneiros de viagem e gastronomia –, viveu e se tornou uma figura reconhecida mundialmente por sua habilidade de colocar em palavras as características mais especiais daquilo que ele amava. Um prato de ramen no Vietnã. Um vendedor de guarda-chuvas em Hong Kong. Um taco truck em Los Angeles. Paixão e comunicação. É isso que Tony almeja para ser um bom filme.
Dirigido por Matt Johnson, do ótimo Nirvanna the Band the Show the Movie, Tony acompanha alguns dos anos definidores da vida de Bourdain em sua juventude. Digo “alguns” porque o recorte, apesar de importante, está longe de mostrar tudo que fez de Bourdain quem ele foi, e questões como seu abuso de substâncias e gosto por viajar são, se não ignoradas, apenas sugeridas. Esses tópicos, talvez centrais em uma cinebiografia que focasse nos cinco anos seguintes ao verão que toma o espaço aqui, dão lugar a ideias fundamentais na pessoa de Bourdain: a escrita e a cozinha.
Tony acompanha os meses que Bourdain, vivido por Dominic Sessa (Os Rejeitados), passou em Cape Cod, uma cidade litorânea no norte de Nova York, depois de fugir de casa movido por duas rejeições. O primeiro “não” é do comitê de uma bolsa da universidade que o ajudaria no sonho de virar um escritor, e o segundo é de Nancy (Emilia Jones), seu crush de ensino médio que ressurge quando Anthony finalmente se vê com coragem o suficiente para dar em cima dela. Tempere esse mix com o ar de superioridade da mãe (Dagmara Dominczyk, fantástica em poucos minutos de tela) e você tem a receita perfeita para o jovem furioso e embriagado que termina causando uma bagunça no Flagship, o bar e restaurante gerido pelo fictício chef brasileiro José Vatel (um excelente Antonio Banderas).
Até aí, Tony é bem sustentado pela direção de Johnson, repleta de sensibilidade para a cultura pop dos anos 1970, especialmente no uso de músicas (como “The Cavalry Cross” e "Magic Mountain”), e pelo charme de Sessa, que faz aqui uma evolução do seu personagem em Os Rejeitados e novamente se apoia na ideia de transmitir carisma com um rosto franzido e um sorriso arrogante. É quando entramos na cozinha do Flagship que o filme passa a pulsar com o tipo de energia que fazia de Bourdain uma pessoa tão magnética até sua trágica morte. Entre as discussões e xingamentos divertidos dos cozinheiros Sal (Leo Woodall, um poço de charme) e Stavry (Stavros Halkias) e os vislumbres da genialidade de Vatel, um personagem inspirado em diversos mentores de Bourdain, Tony encontra seu ritmo. Johnson passa a alternar entre diálogos afiados e uma clara empolgação por aquele ambiente e mundo. Paixão e comunicação.
Tony funciona tanto como filme de hangout, onde amigos trocam piadas e risadas, quanto como filme de restaurante, movido pela satisfação de ver o processo culinário do começo ao fim. E, nesse vai-e-vem, o roteiro de Todd Bartels, Lou Howe e do próprio Matt Johnson (um texto levemente baseado nos primeiros capítulos de Kitchen Confidential) encontra espaço para explorar seu personagem, um caldeirão ardendo com ideias e vontade, mas sofrendo para encontrar um lugar para onde direcionar essas coisas. Tony é, essencialmente, uma história de amadurecimento. Apesar de trafegar em alguns dos clichês – a figura paterna sábia em José, a má influência em Sal – e movimentos típicos desse gênero, Tony se esquiva do didatismo implícito nessa fórmula, em especial quando a vida colocada em tela é de uma figura real.
Muito disso passa pela capacidade de Sessa e Banderas de expressarem as realidades de seus personagens sem grandes discursos. Ambos Anthony e José operam, de certa forma, dentro de moldes conhecidos – o jovem rebelde e o professor bondoso. Por confiar mais nos atores e não exagerar no texto, porém, Johnson escapa do que poderia ser um grande problema. Banderas, em especial, usa a gravidade que sua figura adquiriu nos seus anos de Hollywood para pegar um papel pra lá de familiar e encontrar nele um novo gosto de autenticidade.
O que nos traz de volta à essência de Anthony Bourdain. É inevitável que Tony agrade mais os aficionados do viajante culinário, mas a razão pela qual o filme encontrará esse apreço é a mesma que pode torná-lo agradável mesmo para quem desconhece o homem real: esse é um trabalho que sabe expor, em falas e imagens (a lente de Michael Bauman se revela indispensável), aquilo que o move. Descartando cenas de fan service baratas, como quando um artista escreve uma música conhecida ou coisa do tipo, Tony decide espelhar seu protagonista em cada momento de sua arte. Foi isso que Bourdain fez por anos, e é isso que Johnson conquista em Tony.
Lançado pela A24 nos EUA, Tony não tem previsão de estreia no Brasil.
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