The Unknown | Léa Seydoux estrela drama que é Se Eu Fosse Você à francesa
Filme é dirigido por Arthur Harari, roteirista de Anatomia de uma Queda
Créditos da imagem: Divulgação
Dirigido por Arthur Harari, que foi roteirista de Anatomia de uma Queda ao lado de Justine Trier, The Unknown (L'inconnue) é uma mistura curiosa de Se Eu Fosse Você e Corrente do Mal. Nesta história, uma pessoa ou entidade consegue tomar o corpo de seus parceiros sexuais enquanto está no meio do ato. Encadeando uma série de noitadas com desconhecidos e desaparecendo, ela deixa pra trás uma pessoa profundamente confusa; pouco depois que o filme começa, David (Niels Schneider) se torna sua mais nova vítima.
Um fotógrafo no fim dos seus 30 anos com histórico de problemas de saúde mental na família e uma disposição mais quieta e deprimida, ele ganha a vida com os típicos trabalhos da área — fotos de casamento, aniversários e afins. Seu interesse, contudo, se estende a concluir um projeto do pai, que começou a tirar fotos de construções e paisagens parisienses que mudaram com o passar dos anos. Seu pai fotografou mais de mil exemplos, e ele agora está transformando a série numa trilogia. Este é um dos únicos indícios das ideias que Harari parece querer trabalhar aqui: o drama proveniente da mudança.
Talvez a única foto de uma pessoa que tenha fascinado David nos últimos meses seja a que ele tirou de Eva (Léa Seydoux), com quem ele se encontra, drogado, numa festa. Com uma verdadeira vibe de femme fatale, a coisa dentro do corpo de Eva o leva para um canto escuro, tira as calças e depois vai embora vestida de David. Quando o corpo de Eva acorda, David está lá dentro. Seus próximos dias se dedicam à tentativa desesperada de “se encontrar", algo que ele consegue, mas não antes dessa maldição à la DST agarrar mais uma vítima, a jovem Milai, que agora habita a carne e osso do fotógrafo.
Adaptando a história em quadrinho que criou ao lado de seu irmão Lucas, Harari escreve um roteiro com uma verdadeira miríade de possíveis implicações, mas se contenta com um drama de personagem existencial que, apesar de conseguir nos sugar aqui e ali, não sai do meio-termo. Antes mesmo de sua estreia no Festival de Cannes 2026, The Unknown estava causando polêmica. A ideia de uma pessoa que se identifica como um gênero vivendo no corpo de outra, afinal, é hoje carregada de significado e debate, assim como outra avenida, talvez ainda mais essencial, não explorada pelo diretor: o que define quem somos? Nosso corpo? Nossa mente?
Claro, está tudo ali num nível pessoal, enquanto David (no corpo de Eva) e Milai (no corpo de David) procuram por aquilo, o que quer que seja, que os colocou nessa situação. Seus olhares preocupados sugerem um desconforto inescapável, mas nem em texto ou imagem, esse debate é levado a alguma conclusão (ou mesmo pergunta) digna de seu potencial.
Assim, The Unknown termina como um bom filme de atores. Primeiro como um ser sem expressão e depois titubeando como um homem que descobre, da maneira mais bizarra possível, o corpo de uma mulher, Seydoux comunica em sua postura e maneirismos mais camadas do que a própria direção de Harari. É curioso vê-la expressando curiosidade, horror e agonia, e então entrando numa espécie de marasmo que antes havíamos visto apenas no rosto de Schneider. Menos detalhada, sua atuação como uma moça 20 anos mais nova que a pele do homem que habita, cada vez mais angustiada, também é imediatamente convincente.
Em seus trejeitos, os atores literalmente encarnam o melhor que The Unknown pode ser. Ainda assim, é frustrante ver quão pouco se faz com os desenvolvimentos pra lá de interessantes que surgem conforme David/Eva e Milai/David enfrentam a maior crise de identidade que jamais imaginaram.
Crítica escrita no Festival de Cannes 2026. The Unknown ainda não tem previsão de estreia no Brasil.
The Unknown
L'inconnue
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?
Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login no Omelete e participe dos comentários