Space Jam: Um Novo Legado mira errado a nostalgia e sacrifica LeBron James

Créditos da imagem: Warner Bros./Divulgação

Filmes

Crítica

Space Jam: Um Novo Legado mira errado a nostalgia e sacrifica LeBron James

Novo filme perde brilho por esconder original e não confiar no carisma dos Looney Tunes

Eduardo Pereira
14.07.2021
16h00
Atualizada em
15.07.2021
00h35
Atualizada em 15.07.2021 às 00h35

Space Jam: O Jogo do Século (1996) não é um filme brilhante. A história, sobre alienígenas que querem escravizar os Looney Tunes caso ganhem um jogo de basquete, é um fiapo de narrativa pensado só para justificar o encontro de Pernalonga e Michael Jordan, um dos maiores atletas do mundo na época, em um mesmo cartaz. Mesmo assim, é uma produção até hoje amada por ter divertido crianças e adultos e ainda fazer sentido como sátira histórica.

É um fato que o maior jogador de basquete da história dos Estados Unidos se aposentou do esporte para jogar beisebol, por mais bizarro que isso soe. Por que não imaginar que desenhos animados desesperados foram os responsáveis por trazê-lo de volta às quadras? Esse equilíbrio entre realidade e absurdo foi o que sustentou a emoção por trás da fantasia em O Jogo do Século; algo que Space Jam: Um Novo Legado não consegue replicar.

Desta vez, não são os Looney Tunes que precisam da ajuda de um astro da NBA para salvar a própria pele, mas um astro da NBA que precisa dos Looney Tunes (ou quase isso). Depois que é sugado para dentro do servidor da Warner Bros. Pictures junto do seu filho do meio, Dom James (Cedric Jones), o craque do basquete LeBron James precisa enfrentar o time do vilão Al-G Ritmo (Don Cheadle) dentro de um videogame desenvolvido pelo garoto. O prêmio? Ser reunido com Dom e transportado de volta ao mundo real. Sem colegas de bola para jogar ao lado dele e arremessado no esquecido mundo de Pernalonga e companhia, ele recorre ao coelho para navegar o multiverso do estúdio e convocar o Tune Squad.

Warner Bros./Reprodução

O maior chamariz dessa premissa é, como mostrado à exaustão em trailers e outros materiais promocionais, a possibilidade de colocar LeBron e os Looney Tunes em contato direto com as grandes franquias que a Warner detém. E as referências são muitas: Batman: A Série Animada (1992), Superman: A Série Animada (1996), Mulher-Maravilha 1984 (2020), Matrix (1999), Austin Powers - Um Agente Nada Discreto (1997), Rick e Morty (2013), King Kong (1933), Game of Thrones (2011), e até filmes clássicos como Casablanca (1942), só para citar algumas. Só que, além das interações serem superficiais e corridas (se parecendo mais com alavancas para modernizar os personagens clássicos), o mais óbvio e chamativo gancho à disposição acaba ignorado: o próprio Space Jam: O Jogo do Século.

Não é como se Um Novo Legado dissesse que O Jogo do Século nunca existiu, afinal há três referências bem diretas ao filme com Michael Jordan (uma delas é, inclusive, uma das melhores piadas da sequência), mas é como se LeBron, um jogador de basquete retratado como fã dos Looney Tunes, nunca tivesse ouvido falar na produção que junta as duas coisas que ele mais ama. Para piorar, os próprios personagens animados deixam claro que se lembram de tudo que aconteceu em 1996, então por que não investir nessa nostalgia e justificar o resgate do lendário Tune Squad com sua glória do passado? Em uma decisão narrativa bizarra, isso não acontece: LeBron acaba aceitando jogar ao lado dos personagens por falta de opção, e não admiração, e se quebra mais uma chance de refletir, dentro da tela, a realidade de fora.

Se o drama da vez fosse como o de 1996, guiado pelos Looney Tunes, isso não seria um problema tão grande. Michael Jordan não era um ator melhor que LeBron, mas ainda é lembrado com carinho como a peça-chave para a vitória que salvou a vida dos personagens animados. Só que o novo filme erra de novo ao inverter também a âncora emocional da história: no centro de tudo não está o destino de Pernalonga, Patolino, Piu-Piu, Frajola, Lola e os demais cartuns, mas sim o funcionamento de uma relação bem pouco convincente entre LeBron e o elenco de apoio que interpreta versões fictícias de sua família. Só que nos anos 1990 era mais fácil convencer o público que um grupo de atores era esposa e filhos de Jordan. Isso não se repete no mundo hiperconectado de 2021.

Não importa o quão boas sejam as performances de Sonequa Martin-Green, Cedric Joe, Ceyair J. Wright e Harper Leigh Alexander, qualquer um que acessar o Instagram do astro da NBA saberá que não se tratam de Savannah James, Bryce James, Lebron James Jr. e Zhuri James. E logo toda a trama de Um Novo Legado parecerá mais vazia que pastel de vento. Ficção por ficção, alienígenas que querem escravizar os Looney Tunes em um parque de diversões espacial geram um entretenimento muito melhor, porque não há realidade para você comparar e, consequentemente, descreditar o que sente. Isso sem falar que apoiar novamente a narrativa nos carismáticos desenhos evitaria o desgaste de um atleta tentando fazer o que nem todo ator experiente consegue: centralizar sozinho toda a emoção de um filme.

Warner Bros. Divulgação

Assim, Um Novo Legado sacrifica o carisma que James já havia comprovado em Descompensada (2015) e ainda falha em repetir a mesma sensação de espetáculo que a figura de Jordan provocava. Claro, isso acontece também para abrir espaço para o fechamento do arco familiar que é o centro do filme, mas o resultado é frustrante para quem espera reviver as emoções do filme de 1996. Sem fazer funcionar a nostalgia pelo Space Jam original, mas recheando o filme de referências dos anos 1990 ou até mais antigas, a sequência parece não saber quem é o seu público: aqueles que foram cativados há 25 anos e hoje são adultos ou as crianças de hoje que gostam de coisas bem diferentes do que aquelas que inundam o filme. Em duas horas de projeção, a resposta nunca chega.

Não é nenhuma surpresa que os melhores momentos de Um Novo Legado sejam justamente aqueles que mais se assemelham com os do filme original, quando os Looney Tunes enfim resgatam em quadra o clássico humor pastelão que os fez ícones da cultura pop. Só que o filme passa tão rapidamente por cima dos personagens animados (para abrir espaço para o drama familiar de LeBron, os maneirismos cansativos de Cheadle e referências a videogame que parecem escritas por quem nunca jogou um), que fica a sensação de que passamos menos tempo com eles do que deveríamos. Nem mesmo o espetacular trabalho da Industrial Light and Magic (ILM) no desenvolvimento de versões mais fotorrealistas dos personagens (e monstruosas dos jogadores Klay Thompson, Anthony Davis, Damian Lillard, Diana Taurasi Nneka Ogwumike) consegue compensar esse vazio.

Em meio a uma mistura tão grande de elementos comparável somente à vista em Jogador Nº 1 (2018), mas aqui muito mais gratuita, Space Jam: Um Novo Legado ainda tenta fazer graça com a própria pretensão em agradar o máximo de pessoas possível. Al-G-Ritmo, o algoritmo maligno vivido por Cheadle, é também o responsável por ditar quais serão os novos investimentos da Warner Bros. (e todo seu plano vilanesco é uma forma de buscar reconhecimento por isso). Seria uma piada engraçada com as tendências modernas da indústria de entretenimento, se o próprio filme não parecesse uma obra do personagem; um programa que entende muito de tendências de mercado, mas pouco do que realmente toca o coração.

Space Jam: Um Novo Legado
Space Jam: A New Legacy
Space Jam: Um Novo Legado
Space Jam: A New Legacy

Ano: 2021

País: Estados Unidos

Duração: 116 minutos min

Direção: Malcolm D. Lee

Roteiro: Terence Nance, Keenan Coogler

Elenco: LeBron James, Sonequa Martin-Green, Don Cheadle

Nota do Crítico
Regular

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