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Crítica

Primetime usa Robert Pattinson como Chris Hansen para encarnar a estranheza do true crime

Astro de Batman vive o apresentador do infame programa To Catch a Predator em filme de Lance Oppenheim

Omelete
6 min de leitura
21.10.2026, às 14H29.
Robert Pattinson, Primetime

Créditos da imagem: A24

O grande ano de Robert Pattinson continua: astro de O Drama ao lado de Zendaya e peça central nos conflitos de A Odisseia, o ator – que em 2026 também estará no terceiro Duna – tem em Primetime um verdadeiro momento de protagonista. No papel de Chris Hansen, conhecido nos EUA por ter sido o apresentador do programa To Catch a Predator, Pattinson encontra em Primetime um filme para igualar suas estranhezas. Dirigido por Lance Oppenheim, cuja carreira até aqui era mais focada em documentários (incluindo o já badalado You Can See Everything), o longa abraça os tiques que Pattinson adora fazer para nos transportar para um tempo que, honestamente, foi de fato muito estranho: os anos 2000.

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Primetime se passa no meio daquela década, quando a televisão norte-americana estava passando por algumas transformações. Por um lado, os realities estavam decolando; por outro, o rosto da televisão "de prestígio" estava mudando com a chegada de hits como Lost. Mais importante, porém, parece ser o efeito do 11 de setembro. O atentado às Torres Gêmeas não é mencionado diretamente, mas infecta todo o filme. Há relatos sobre veteranos, e pôsteres anunciando Bin Laden e Saddam Hussein como alvos podem ser vistos aqui e ali. Ser o repórter responsável por cobrir a presença das tropas no Afeganistão, por exemplo, é tido como o grande cargo da rede NBC, e enquanto vê seu rival no canal decolando para o Oriente Médio, o Hansen de Pattinson tenta usar To Catch a Predator para desafiar essa noção.

Primetime, Robert Pattinson
A24

To Catch a Predator, para ser justo, tem um gancho praticamente irresistível. Membros da produção do programa se infiltravam em chats com pedófilos e atores com rostos mais novos (aqui, a cantora Phoebe Bridgers como Del e o ótimo Skyler Gisondo, de Superman, como Dan) servem de iscas para atrair esses homens a uma emboscada. Depois que eles entravam na casa e anunciavam suas intenções, os falsos adolescentes saíam de cena e Hansen surgia. "Sente aí", ele dizia, convidando o suspeito a tentar se explicar enquanto a polícia aguardava do lado de fora para prendê-lo. Um ritual de degradação em rede nacional.

Essa dinâmica é melhor representada na excelente sequência de abertura de Primetime, um momento que captura as ideias do filme de maneira única, sútil e eficaz – algo que Oppenheim sofre para fazer no restante dos 110 minutos do longa. Primetime é um filme de pouca modulação. Sua aposta está no visual marcante que o diretor compõe com a assistência indispensável da fotografia de David Bolen (contraste alto, exposição baixa, pura textura) e na presença de Pattinson, que de fato comanda a tela quando surge, mas que é praticamente forçado a seguir uma abordagem monotemática na interpretação caricata.

Primetime, Robert Pattinson
A24

Dado o benefício de chegar 20 anos depois que o programa original foi ao ar, Primetime é um filme realizado num tempo em que a figura de Hansen é vista de outra forma. Se é impossível negar seu papel em conscientizar os EUA sobre os perigos da Internet, o evento fatal que levou To Catch a Predator ao fim e seus esforços para recriar o programa online com menos cuidado deixaram claro os riscos de sua atitude meio "tudo pelo furo". Gera-se, então, um anacronismo curioso. Essa consciência atual se choca com um trabalho audiovisual que, das músicas da época ao uso de fotografia digital com câmeras de baixa resolução, visa transportar a audiência para os primeiros anos do século XXI.

To Catch a Predator é um produto de sua época e desse retrospecto. O desejo por vingança que o 11 de setembro despertou nos estadunidenses sublinha o prazer de Hansen e de seu público em ver um pedófilo humilhado. Numa conversa com um fã (interpretado de maneira grotesca por Creed Bratton), Hansen descreve o que ele faz como um destino pior do que a morte. A televisão, ele explica, é o novo pelourinho. A ideia da performance, de entregar um bom entretenimento, permeia Primetime, e o filme se beneficia de contrastar a banalidade dos bastidores de um programa de TV aberta com a seriedade do tema da pedofilia.

É um feito importante, mas um que o filme estabelece cedo e do qual ele nunca sai. Primetime, essencialmente, tenta sempre voltar à energia daquela abertura, mas através de outras vias. Com o personagem de Gisondo, um ator que sonha em ser reconhecido ou ao menos entrar no sindicato, e a produtora de Predator, Andie (Merritt Wever), assim como nas idas à vida pessoal de Hansen, cujo casamento está na corda-bamba em parte devido à sua infidelidade, Oppenheim almeja levar sua tese para o pessoal. O que acontece quando sua vida se resume a transformar o feio no espetáculo?

Primetime, Robert Pattinson, Skyler Gisondo
A24

O texto, contudo, nunca está à altura. Wever, Pattinson e Gisondo até tentam, mas as guinadas de Primetime para as vidas particulares de seus personagens nunca se materializam, e a sensação que fica é de que Oppenheim simplesmente não se interessa tanto naquilo. O cineasta, afinal, tem encontrado sucesso quando se aventura no limite entre a ficção e realidade, e abordar a forma como To Catch a Predator narrativiza o encontro com aqueles homens parece a missão perfeita para ele.

A verdade, porém, é que para além do impacto visual, Primetime sofre para se sustentar, e nunca iguala o desenvolvimento de suas ideias à excelência de sua concepção. Uma vez que estabelece o quão surreal é a existência de um documento cultural como To Catch a Predator, o estranho Primetime cai justamente na hora de tratar das coisas mais corriqueiras: a produtora que recebeu uma oferta da emissora rival; o ator que sonha em virar o próximo grande nome de Hollywood. É um problema que será inevitavelmente potencializado se você assistiu a Predators, o excelente documentário de 2025 sobre Hansen e seu legado que, entre suas qualidades, tem um afiado exame das consequências pessoais de fazer o chamado true crime.

Assim, Oppenheim volta sempre ao mesmo truque: Pattinson. Enunciando cada palavra como alguém vivendo diante de uma plateia invisível, mas constante, ele é a ponte entre as ideias mal-resolvidas do filme e suas composições inspiradas. É através de seus gestos e bocas – eventualmente imitados (muito bem) pelo influenciável Dan de Gisondo – que Oppenheim pode sempre pontuar quão curiosamente cômico é o que Chris Hansen está fazendo. O showbiz não é mais uma profissão, mas sim a identidade – do apresentador, do programa, da nação. Em determinado momento, Hansen diz: "nada do que eu faço é atuação." O sucesso de Primetime está em identificar a ironia disso vir de um homem performático. A limitação do longa, contudo, vem em não saber bem o que fazer depois disso.

Parte da seleção da 50ª Mostra SP, Primetime estreia no Brasil ainda em 2026 direto no Prime Video.

Nota do Crítico

Primetime

Primetime

Ver ficha completa Lauch Icon
NR Crime, Drama, Thriller
Duração: 110 min
Direção: Lance Oppenheim
Roteiro: Ajon Singh, Luke Dittrich
Elenco: Robert Pattinson, Merritt Wever, Skyler Gisondo, Phoebe Bridgers, Matthew Maher, Bokeem Woodbine, Anna Faris, Eric Rahill, Creed Bratton
Data de lançamento: 11 de setembro de 2026

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