Primetime usa Robert Pattinson como Chris Hansen para encarnar a estranheza do true crime
Astro de Batman vive o apresentador do infame programa To Catch a Predator em filme de Lance Oppenheim
Créditos da imagem: A24
O grande ano de Robert Pattinson continua: astro de O Drama ao lado de Zendaya e peça central nos conflitos de A Odisseia, o ator – que em 2026 também estará no terceiro Duna – tem em Primetime um verdadeiro momento de protagonista. No papel de Chris Hansen, conhecido nos EUA por ter sido o apresentador do programa To Catch a Predator, Pattinson encontra em Primetime um filme para igualar suas estranhezas. Dirigido por Lance Oppenheim, cuja carreira até aqui era mais focada em documentários (incluindo o já badalado You Can See Everything), o longa abraça os tiques que Pattinson adora fazer para nos transportar para um tempo que, honestamente, foi de fato muito estranho: os anos 2000.
Primetime se passa no meio daquela década, quando a televisão norte-americana estava passando por algumas transformações. Por um lado, os realities estavam decolando; por outro, o rosto da televisão "de prestígio" estava mudando com a chegada de hits como Lost. Mais importante, porém, parece ser o efeito do 11 de setembro. O atentado às Torres Gêmeas não é mencionado diretamente, mas infecta todo o filme. Há relatos sobre veteranos, e pôsteres anunciando Bin Laden e Saddam Hussein como alvos podem ser vistos aqui e ali. Ser o repórter responsável por cobrir a presença das tropas no Afeganistão, por exemplo, é tido como o grande cargo da rede NBC, e enquanto vê seu rival no canal decolando para o Oriente Médio, o Hansen de Pattinson tenta usar To Catch a Predator para desafiar essa noção.
To Catch a Predator, para ser justo, tem um gancho praticamente irresistível. Membros da produção do programa se infiltravam em chats com pedófilos e atores com rostos mais novos (aqui, a cantora Phoebe Bridgers como Del e o ótimo Skyler Gisondo, de Superman, como Dan) servem de iscas para atrair esses homens a uma emboscada. Depois que eles entravam na casa e anunciavam suas intenções, os falsos adolescentes saíam de cena e Hansen surgia. "Sente aí", ele dizia, convidando o suspeito a tentar se explicar enquanto a polícia aguardava do lado de fora para prendê-lo. Um ritual de degradação em rede nacional.
Essa dinâmica é melhor representada na excelente sequência de abertura de Primetime, um momento que captura as ideias do filme de maneira única, sútil e eficaz – algo que Oppenheim sofre para fazer no restante dos 110 minutos do longa. Primetime é um filme de pouca modulação. Sua aposta está no visual marcante que o diretor compõe com a assistência indispensável da fotografia de David Bolen (contraste alto, exposição baixa, pura textura) e na presença de Pattinson, que de fato comanda a tela quando surge, mas que é praticamente forçado a seguir uma abordagem monotemática na interpretação caricata.
Dado o benefício de chegar 20 anos depois que o programa original foi ao ar, Primetime é um filme realizado num tempo em que a figura de Hansen é vista de outra forma. Se é impossível negar seu papel em conscientizar os EUA sobre os perigos da Internet, o evento fatal que levou To Catch a Predator ao fim e seus esforços para recriar o programa online com menos cuidado deixaram claro os riscos de sua atitude meio "tudo pelo furo". Gera-se, então, um anacronismo curioso. Essa consciência atual se choca com um trabalho audiovisual que, das músicas da época ao uso de fotografia digital com câmeras de baixa resolução, visa transportar a audiência para os primeiros anos do século XXI.
To Catch a Predator é um produto de sua época e desse retrospecto. O desejo por vingança que o 11 de setembro despertou nos estadunidenses sublinha o prazer de Hansen e de seu público em ver um pedófilo humilhado. Numa conversa com um fã (interpretado de maneira grotesca por Creed Bratton), Hansen descreve o que ele faz como um destino pior do que a morte. A televisão, ele explica, é o novo pelourinho. A ideia da performance, de entregar um bom entretenimento, permeia Primetime, e o filme se beneficia de contrastar a banalidade dos bastidores de um programa de TV aberta com a seriedade do tema da pedofilia.
É um feito importante, mas um que o filme estabelece cedo e do qual ele nunca sai. Primetime, essencialmente, tenta sempre voltar à energia daquela abertura, mas através de outras vias. Com o personagem de Gisondo, um ator que sonha em ser reconhecido ou ao menos entrar no sindicato, e a produtora de Predator, Andie (Merritt Wever), assim como nas idas à vida pessoal de Hansen, cujo casamento está na corda-bamba em parte devido à sua infidelidade, Oppenheim almeja levar sua tese para o pessoal. O que acontece quando sua vida se resume a transformar o feio no espetáculo?
O texto, contudo, nunca está à altura. Wever, Pattinson e Gisondo até tentam, mas as guinadas de Primetime para as vidas particulares de seus personagens nunca se materializam, e a sensação que fica é de que Oppenheim simplesmente não se interessa tanto naquilo. O cineasta, afinal, tem encontrado sucesso quando se aventura no limite entre a ficção e realidade, e abordar a forma como To Catch a Predator narrativiza o encontro com aqueles homens parece a missão perfeita para ele.
A verdade, porém, é que para além do impacto visual, Primetime sofre para se sustentar, e nunca iguala o desenvolvimento de suas ideias à excelência de sua concepção. Uma vez que estabelece o quão surreal é a existência de um documento cultural como To Catch a Predator, o estranho Primetime cai justamente na hora de tratar das coisas mais corriqueiras: a produtora que recebeu uma oferta da emissora rival; o ator que sonha em virar o próximo grande nome de Hollywood. É um problema que será inevitavelmente potencializado se você assistiu a Predators, o excelente documentário de 2025 sobre Hansen e seu legado que, entre suas qualidades, tem um afiado exame das consequências pessoais de fazer o chamado true crime.
Assim, Oppenheim volta sempre ao mesmo truque: Pattinson. Enunciando cada palavra como alguém vivendo diante de uma plateia invisível, mas constante, ele é a ponte entre as ideias mal-resolvidas do filme e suas composições inspiradas. É através de seus gestos e bocas – eventualmente imitados (muito bem) pelo influenciável Dan de Gisondo – que Oppenheim pode sempre pontuar quão curiosamente cômico é o que Chris Hansen está fazendo. O showbiz não é mais uma profissão, mas sim a identidade – do apresentador, do programa, da nação. Em determinado momento, Hansen diz: "nada do que eu faço é atuação." O sucesso de Primetime está em identificar a ironia disso vir de um homem performático. A limitação do longa, contudo, vem em não saber bem o que fazer depois disso.
Parte da seleção da 50ª Mostra SP, Primetime estreia no Brasil ainda em 2026 direto no Prime Video.
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