Cena de Pinóquio de Guillermo Del Toro (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Pinóquio de Guillermo Del Toro (Reprodução)

Filmes

Crítica

Pinóquio de Del Toro tem muitas ideias, e nenhuma pista do que fazer com elas

Filme cutuca fascismo e fala de luto, mas não se aprofunda em nada do que propõe

Omelete
4 min de leitura
09.12.2022, às 17H04

Guillermo Del Toro fala sobre sua vontade de realizar uma versão própria do conto de fadas Pinóquio há anos, talvez décadas - mas, se você não sabe disso antes de apertar o play no filme, que finalmente foi bancado e lançado pela Netflix, é fácil imaginar que o cineasta mexicano foi mão de obra contratada dos produtores. Como aconteceu com os longas de Tim Burton em certa altura de sua carreira, Pinóquio tem várias marcas visuais e narrativas de Del Toro, mas não encontra seu propósito em nenhum momento dos seus 117 minutos de duração.

Ideias não faltam: este Pinóquio transporta o clássico de Carlo Collodi para a Itália da Segunda Guerra Mundial, aproveitando para zombar do fascismo e apoiar o pouco de narrativa simbólica que consegue construir na oposição ao conformismo que é chave para este (e qualquer outro) regime totalitário. Pinóquio, como escrito por Del Toro e Patrick McHale (Hora de Aventura), ambiciona ser uma história sobre aceitação radical, sobre como vivemos modelando as relações com as pessoas em nossa vida a partir de outras relações que tivemos com outras pessoas, que já não estão mais aqui por um motivo ou outro. É um hábito feio, injusto… mas terrivelmente humano.

Acontece que Del Toro e seu colega de roteiro não conseguem cutucar fundo essa ferida, ou mesmo interligá-la com a ânsia por pertencimento e expurgação da diferença que impulsiona o fascismo - coisa que A Forma da Água fez brilhantemente através de sua história de amor, por exemplo. Ao invés disso, este Pinóquio politicamente subversivo se choca com um Pinóquio que versa sobre luto e sobre a solidão inerente do jovem, que vê a geração que o alicerça ao mundo desaparecer lentamente, e acaba por perceber como esmagador o peso de conduzir a história humana por sua própria conta.

Não me levem a mal, pois ambos os filmes se qualificariam como visões sábias e refrescantes para uma história que já foi contada (e diluída na fórmula Disney) tantas vezes. O problema é que o Pinóquio de Del Toro não é nenhum desses filmes, se limitando a resvalar tanto em questões sociais de conformismo quanto em questões íntimas de luto. Existe uma versão deste filme que seria capaz de tecer a conexão entre as duas coisas, desvelando uma concepção de guerra até bastante inteligente, como o resultado inevitável da opressão da individualidade do povo, que também paga o preço ao ser enviado para as linhas de frente para defender ou atacar a instituição que o oprime.

Este filme que eu descrevi acima, no entanto, tem outro nome: O Labirinto do Fauno. Já Pinóquio parece ter medo de sua própria complexidade, mesmo se posicionando com tanto orgulho na vanguarda do que pode ser considerado “entretenimento infantil” em 2022. Claro que Del Toro, como de costume, abusa de seu domínio da linguagem do terror para tornar o filme mais estética e referencialmente interessante do que a média. A cena da criação de Pinóquio, por exemplo, deixa para trás a “magia Disney” e encontra em Frankenstein a sua maior inspiração, recorrendo a relâmpagos, sombras e golpes repentinos para retratar a energia criativa de um homem movido pela ira, pela obsessão.

O aspecto artesanal do stop-motion tampouco deixa de impressionar. Com a assistência de Mark Gustafson na direção, Del Toro cria cenários e elementos difíceis a partir da massinha e da tinta, encontrando aquele equilíbrio mágico próprio da técnica de animação: rejeitar o realismo, abraçar a própria artificialidade, nunca abrir mão do deslumbre visual. Água (os oceanos do filme parecem poças de tinta guache, com manchas mais escuras de óleo posicionadas estrategicamente), fogo, as veias próprias da madeira, as rugas e bolhas do interior de um monstro marinho… nada escapa à dupla de diretores, claramente apaixonada pelo próprio trabalho.

É gratificante, claro, ver um trabalho de tanto detalhismo e dedicação chegar às telas. Até por isso, muitas vezes, fica difícil de criticar um filme stop-motion: existe um amor óbvio pelo cinema nos longas feitos com essa técnica, e certas cenas cintilam com o próprio suor que foi necessário para realizá-las como vemos em tela. Não é detrimento ao trabalho de Del Toro, Gustafson ou sua equipe que eu quero expressar aqui, no entanto - é só, talvez, luto pela história infinitamente mais interessante que eles podiam ter contado através dele.

Nota do Crítico
Regular
Pinóquio de Guillermo Del Toro
Guillermo del Toro's Pinocchio
Pinóquio de Guillermo Del Toro
Guillermo del Toro's Pinocchio

Ano: 2022

País: EUA/México/França

Duração: 117 min

Direção: Guillermo del Toro

Roteiro: Guillermo del Toro

Elenco: Ewan McGregor, Cate Blanchett, Tilda Swinton, Finn Wolfhard, Tim Blake Nelson, Christoph Waltz, Burn Gorman, David Bradley, Ron Perlman, John Turturro

Onde assistir:
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