Cena do novo Pinóquio (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena do novo Pinóquio (Reprodução)

Filmes

Crítica

Pinóquio expõe arbitrariedade irritante dos remakes live-action da Disney

Afinal, o que é “fantasia demais” para o estúdio do Mickey hoje em dia?

Omelete
3 min de leitura
08.09.2022, às 16H42.

Ah, como eu queria ser uma mosquinha (melhor ainda, um grilo!) na parede de uma sala de conferências do Walt Disney Studios enquanto os detalhes da nova versão em live-action de Pinóquio estavam sendo definidos! Dá para visualizar Robert Zemeckis sentado ao redor de uma turba de executivos, travando um intenso e antagonístico diálogo em que o argumento central é: será que é fantasioso demais, para um filme com atores “de carne e osso” (tirando todos os personagens em CGI, claro), que Pinóquio se torne um menino de verdade ao fim da história?

Dar a resposta seria um spoiler, é claro, mas basta dizer que assistir ao novo Pinóquio da Disney é, durante boa parte de suas pouco mais de 1h30 (descontando créditos), um exercício frustrante de tentar achar razão onde não há nenhuma. As mudanças em relação ao clássico animado de 1940 são arbitrárias e, ainda pior, subestimam a nossa imaginação, a própria capacidade de fantasia que a Disney tanto se vangloria de alimentar. É o mesmo impulso que levou o estúdio a transformar o teatral e místico O Rei Leão em um documentário natural desprovido de drama, alma e qualquer vestígio de originalidade visual.

A diferença é que, aqui, esse princípio equivocado em sua própria concepção enfurece ainda mais porque o filme de Zemeckis é incapaz de apagar todos os traços de fantasia de uma história que inclui, entre muitas outras coisas: bonecos de madeira vivos e bichos antropomórficos (Mas não todos! Isso seria fantasioso demais!) vivendo lado a lado com humanos, uma ilha-parque-de-diversões em que crianças são transformadas em burros de carga para serem vendidas para o trabalho escravo, e uma baleia (Não! Monstro marinho! Muito mais crível!) que engole navios inteiros.

O malabarismo fica para os detalhes, portanto. A sensação é que Zemeckis está colocando rédeas em si mesmo - e, consequentemente,na nossa capacidade de tirar qualquer sombra de entretenimento das qualidades genuínas que Pinóquio apresenta como filme. Por exemplo: a visão do diretor da Ilha dos Prazeres é deslumbrante e perturbadora na mesma medida, alavancada pela performance animadamente perversa de Luke Evans como o Cocheiro; e a renderização de criaturas digitais como Monstro, João Honesto e Grilo Falante (apesar do sotaque sulista injustificável de Joseph Gordon-Levitt) encanta pelo detalhismo e pela expressividade.

Essas criações digitais, dignas de um cineasta cuja carreira foi marcada pela inovação tecnológica e pelo cuidado estético, talvez justificassem a existência do novo Pinóquio se ele fosse um filme mais entregue à fantasia, mais desprendido das exigências cínicas da máquina de renovação intelectual da Disney. Não é este o caso, no entanto, e a receita entorna ainda mais quando você se permite pensar em como o filme se aproxima da fábula moral grotesca que está no centro do clássico de Carlo Collodi.

Em um esforço para reconhecer o exagero de uma história que postula morais de obediência irrestrita, para nos distrair dos subtons conformistas dela e transformá-la em algo completamente diferente, Zemeckis recorre à sátira. Mais especificamente, o novo Pinóquio é em grande parte uma zoação com o mundo do entretenimento, que deixa o pobre Keegan Michael-Key com a responsabilidade de entregar, na pele do João Honesto queer e dramático do remake, algumas das piores piadas sobre Hollywood já feitas - incluindo uma citação constrangedora a certo astro de Star Trek e Mulher-Maravilha e outra que brinca com uma profissão para lá de contemporânea. 

Essa dose extra de cinismo, esse aceno para os adultos na sala, é o que define Pinóquio e, no fim das contas, quase todos os remakes em live-action da Disney. Eles transformam em cálculo arbitrário e desafetado, em profunda falta de imaginação, o que um dia já foram histórias falhas, mas repletas de possibilidade. Fãs do catálogo do estúdio, e de cinema em geral, só têm a perder.

Nota do Crítico
Ruim
Pinóquio (2022)
Pinocchio
Pinóquio (2022)
Pinocchio

Ano: 2022

País: EUA

Duração: 105 min

Direção: Robert Zemeckis

Roteiro: Robert Zemeckis

Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Cynthia Erivo, Lorraine Bracco, Benjamin Evan Ainsworth, Luke Evans, Keegan-Michael Key, Tom Hanks

Onde assistir:
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