Nicolas Cage em O Peso do Talento

Créditos da imagem: Lionsgate/Divulgação

Filmes

Crítica

O Peso do Talento celebra Nicolas Cage como ícone pop e homenageia o cinema

Tom Gormican dirige o astro em processo metalinguístico de confronto com sua vida e obra

Omelete
6 min de leitura
Eduardo Pereira
12.05.2022, às 19H22
ATUALIZADA EM 20.05.2022, ÀS 17H22
ATUALIZADA EM 20.05.2022, ÀS 17H22

O saudoso crítico de cinema americano Roger Ebert (morto em 2013) escreveu: “Existem muitas listas dos grandes astros de cinema vivos: De Niro, Nicholson e Pacino, normalmente. Com qual frequência você vê nelas o nome de Nicolas Cage? Ele sempre deveria estar ali. Ele é ousado e destemido em suas escolhas de papéis”. E também: “Cage é um bom ator em bons filmes, e um ator quase indispensável em filmes ruins. Ele consegue ultrapassar os limites com tão pouco esforço que pode se sentar e servir limonada aos seus colegas”.

Tudo isso está em franca evidência na comédia O Peso do Talento, filme do diretor Tom Gormican, que parece feito sob medida para provar o erro de quem lê as frases acima e torce o nariz. Com Cage interpretando uma versão ficcionalizada dele mesmo — construída sobre uma mistura exagerada de polêmicas reais e míticas — a produção da Lionsgate proporciona ao astro um raro veículo para não só refletir em tela sobre seu legado artístico, como encarar, mastigar, digerir e regurgitar, na forma de mais arte, as muitas camadas da percepção do público.

A base dessa oportunidade é um evidente carinho de Gormican e do co-roteirista Kevin Etten por Cage, que move a ideia de desmistificá-lo por meio da mesma aura de bizarrice que o consumiu. Sem qualquer pingo do cinismo revisionista de quem passou a defender o ator por causa da memeficação da sua imagem, isso remonta a Ebert. O crítico sempre entendeu e aceitou a forma como o sobrinho de Francis Ford Coppola insistentemente priorizou suas pretensões artísticas pessoais ao integrar qualquer projeto colaborativo. E enxergou, na devoção dele a viver intensamente a verdade de seus personagens, uma honestidade intimamente ligada à essência do cinema.

Com 109 créditos de ator no IMDb, Cage de fato já conseguiu, na base do esforço bruto, confundir sua história com a de parte da sétima arte americana. Da entrada na maturidade artística como astro romântico nos anos 1980 (em filmes como Peggy Sue - Seu Passado a Espera e O Feitiço da Lua), à incursão no adrenado cinema do ação dos anos 1990 (com a trinca A Rocha, Con Air e A Outra Face), que encontrou seu fim com um mergulho em dramas conceituados da virada do século, o ganhador do Oscar alicerçou uma carreira invejável já em suas primeiras duas décadas de atividade. Nas outras duas, mais recentes, ele foi da decadência em filmes produzidos para o home video (tantos que não cabe aqui um resumo digno) a uma inesperada e celebrada renascença cult no cinema independente (Mandy - Sede de Vingança ou Pig - A Vingança, por exemplo).

O Peso do Talento tenta organizar toda essa longa trajetória errante, bem como as muitas respostas dadas a ela por fãs, críticos e haters, da forma mais cômica possível. Corajoso, Cage abraça a ideia e confronta a si mesmo de diferentes maneiras: seja encarando uma almofada de lantejoulas que traz sua cara, uma deformada estátua de cera que tenta recriá-lo, a realidade já passada de seus dias como grande estrela cinematográfica ou até uma bizarra e frenética versão rejuvenescida de si (que ele beija na boca, na cena mais lisérgica do filme). A franqueza com a qual o astro conjuga tirada de sarro e uma defesa objetiva de suas convicções é o que pulveriza qualquer dúvida. Ele, de fato, não é mais um astro de cinema; é algo muito maior: um ícone pop.

Para movimentar toda essa epifania, Gormican e Etten desenvolveram uma premissa simples, mas eficiente: atolado em dívidas, Cage é aconselhado por seu agente (Neil Patrick Harris) a aceitar uma oferta inusitada de um misterioso figurão espanhol e comparecer à festa de aniversário dele por US$1 milhão. Ao chegar lá, ele descobre que o ricaço, Javi (Pedro Pascal), é um fã de carteirinha e carismático cinéfilo com quem é divertidíssimo passar o tempo. Envolvido em um empolgante bromance, o astro precisa levar ao máximo sua capacidade de atuação quando agentes da CIA (vividos por Tiffany Haddish e Ike Barinholtz) o recrutam para investigar uma terrível suspeita contra seu mais novo amigo.

A eficiência dessa trama atravessa todas as pretensões temáticas de Gormican e Etten igualmente; da possibilidade de colocar Cage no controle das diversas narrativas sobre si, até o desenvolvimento de uma competente e divertida comédia de ação. O principal, entretanto, está na exaltação do cinema como uma ponte capaz de abreviar qualquer distância, sobrepor qualquer diferença, e unir pessoas diversas em uma mesma vibração. Da química irresistível que partilham Cage e Pascal, em tela, o filme materializa outra fala notória de Ebert: “O cinema é como uma máquina que gera empatia. Ele te permite entender um pouco mais sobre diferentes esperanças, aspirações, sonhos e medos. Ele nos ajuda a nos identificar com as pessoas que partilham dessa jornada conosco”.

Cena de O Peso do Talento
Lionsgate/Divulgação

Sim, pois O Peso do Talento usa o processo de autoavaliação do fictício "Nick" Cage, repleto de comentários sobre a vida e obra de Nicolas Cage, para exaltar não só a importância da filmografia do astro para seus fãs e admiradores, como de todos e quaisquer filmes (com um carinho especial por As Aventuras de Paddington 2) para quem viu neles essas pontes de conexão humana. Nas mãos de mentes criativas menos devotas, a figura mítica de Cage seria facilmente resumida a som, fúria e nada mais. O maior mérito de Gormican e Etten, portanto, está em como ambos conseguiram injetar em todo o filme o mesmo espírito singelo de amor pela arte que o astro professa como motivação para tantas vezes abraçar o caricato, a despeito do tanto que possam rir dele por isso.

Esse rumo afetivo tem um custo, claro, já que o filme eventualmente abraça uma convencionalidade estrutural que contradiz a natureza rebelde professada por seu próprio objeto de análise. Ainda assim, Cage consegue resgatar O Peso do Talento sempre que ele parece derrapar rumo à previsibilidade — e com uma ajuda mais do que especial de um Pedro Pascal inspiradíssimo, um elenco de apoio muito bem escalado e algumas boas surpresas.

Falando em surpresas, a maior que tive foi me lembrar de um filme que detestei: Space Jam 2: Um Novo Legado (2021). É que O Peso do Talento, assim como o filme-comercial-da-HBO-Max com Lebron James, ancora boa parte de seu drama em uma relação familiar totalmente fictícia de uma celebridade real, ficcionalizada. Quando me encontrei totalmente imerso na relação de Nick Cage com uma filha e ex-mulher de mentira, me perguntei por que sentir o mesmo foi impossível com a produção que trazia os Looney Tunes. Então, me lembrei novamente de algo que escreveu Ebert, sobre Cage: “Ele sempre parece tão sincero. Não importa o quão improvável seja o personagem, ele nunca pisca para o público. Ele está comprometido ao personagem com todo átomo que tem, e o habita como se fosse ele”.

Entendi. Mesmo que não seja Nick Cage, Nicolas Cage é Nick Cage.

O Peso do Talento
The Unbearable Weight of Massive Talent
O Peso do Talento
The Unbearable Weight of Massive Talent

Ano: 2022

País: Estados Unidos

Duração: 107 min

Direção: Tom Gormican

Roteiro: Kevin Etten, Tom Gormican

Elenco: Nicolas Cage, Pedro Pascal

Nota do Crítico
Excelente!

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