Willem Dafoe e Robert Pattinson em O Farol

Créditos da imagem: O Farol/RT Features/Reprodução

Filmes

Crítica

O Farol

Diretor de A Bruxa retorna com força em terror cósmico sobre os horrores do convívio humano

Arthur Eloi
02.01.2020
16h48

Nos últimos anos o terror foi tomado por obras incríveis de diretores de primeira viagem. Ao lado de nomes como Jennifer Kent (O Babadook) e Ari Aster (Hereditário), Robert Eggers é um dos cineastas mais promissores do gênero já que, em 2015, sua estreia no comando de um longa foi nada menos do que A Bruxa, um dos melhores filmes da década. Agora, assim como Kent e Aster, ele retorna para afirmar que não é profissional de um único sucesso com O Farol.

Há grande mistério sobre o que realmente se trata o novo longa. De início é apenas revelado ao público que dois marinheiros - o veterano Thomas Wake (Willem Dafoe) e o novato Ephraim Winslow (Robert Pattinson) - são enviados à uma ilha remota, para cuidar da manutenção de um farol. Não demora muito para que a diferença de hierarquia, o isolamento e o tédio das tarefas afetem a cabeça da dupla. Assim, fica claro que a locação exótica serve ao propósito de observar os piores comportamentos humanos florescendo. Como bem pontuou a jornalista Alison Willmore na Vulture, “O Farol é sobre os horrores de ter um colega de quarto”. Muito do filme é focado na dinâmica entre os dois. Winslow é forçado a assumir boa parte das responsabilidades, enquanto seu mentor dorme o dia todo e passa as noites na torre do farol. Eggers não corre com o desenvolvimento, e o ritmo lento constrói no público a mesma frustração do jovem, que sofre com as tarefas, a precariedade do local, a rotina e as várias manias e hábitos do veterano. O conflito se agrava ainda mais quando um passa a esconder segredos do outro - Winslow e sua masturbação constante, e Wake sobre o que realmente faz toda noite durante o seu turno.

As melhores cenas do filme são justamente a interação entre eles. Pattinson e Dafoe estão completamente comprometidos com o papel, e abraçam a jornada por todos os momentos de drama, humor e insanidade. Seja em um jantar a luz de velas em que Wake explica que o antigo zelador ficou louco pelo trabalho e questiona a motivação do companheiro, ou então uma discussão sobre como um tira o outro do sério, ver os dois contracenando entre o silêncio e o exagero faz a 1h50 de duração passar voando. É uma pena que premiações como o Oscar não dêem o devido valor a filmes de gênero, pois a dupla com certeza merece reconhecimento por uma das melhores, mais intensas e complexas performances de suas carreiras. 

O roteiro dá bastante para os atores trabalharem. Escrito pelo diretor e seu irmão Max Eggers, os diálogos em inglês antigo, com linguajar próprio de marinheiros, dão charme pra obra. O texto norteia toda a variedade tonal da obra, seja nos monólogos ameaçadores de Wake, na revolta de Winslow ou então no estranho humor sombrio e irônico que paira sobre muitas das discussões -Você gosta da minha lagosta, eu sei! Admita!, implora o personagem de Dafoe, bêbado, durante uma briga. Assim como Gaspar Noé fez em Climax (2018), O Farol triunfa em mostrar o lado feio das relações humanas quando colocadas em situações extremas. Mas isso não significa que não há um lado sobrenatural.

O filme é tudo menos mundano. Enquanto os zeladores tem muito a resolver entre si, a todo momento há a sensação de algo corromper o já precário cotidiano. Essa presença assombra a estadia na ilha, e se manifesta principalmente através de sonhos de Winslow. Eggers, por sua vez, retrata essa força do mal através da inserção de planos inusitados de figuras misteriosas, restos de cadáveres ou até referências artísticas, como uma alusão direta ao quadro “Hipnose, do alemão Sascha Schneider. Tudo isso dá um ar surreal de pesadelo à estética do filme, mas o que realmente faz tudo funcionar é O Farol ser, em essência, um conto de terror cósmico. O gênero literário, popularizado por Robert W. Chambers (O Rei de Amarelo) e H.P. Lovecraft (O Chamado de Cthulhu), é definido por tensão extrema, e ameaças tão inimagináveis que os pobres coitados que se deparam com elas não têm outra saída senão a insanidade. Pela natureza elusiva desse tipo de narrativa, respostas costumam ser raras e vindas de narradores sem muita credibilidade. Os irmãos Eggers bebem bastante dessa fonte, e a narrativa do filme progressivamente se torna mais bizarra e ilusória. Não é um gênero fácil de se trabalhar nas telas (Lovecraft, por exemplo, tem pouquíssimas boas adaptações), então a produção merece todo o crédito por acertar em cheio com uma história repleta de mistério, suspense construído com ritmo cirúrgico e conclusão sem nenhuma explicação.

Se A Bruxa não tinha deixado claro, O Farol só reafirma como Robert Eggers merece o seu espaço no horror. O cineasta novamente demonstra toda sua bagagem cultural e pesquisa extensiva para trazer autenticidade impressionante à outro terror de eṕoca, com fortes toques de excentricidade - afinal, são poucas as grandes produções modernas que são rodadas inteiramente em preto e branco, com proporção 1:19:1. O cinema de gênero sobrevive a partir da reinvenção, e é excelente ter diretores tão engajados em desafiar as expectativas do público quanto a como deve ser um filme de terror. O Farol não só atinge isso com alto nível de qualidade técnica e artística, mas também viradas perturbadoras e um final bastante enigmático e traumatizante.

Nota do Crítico
Excelente!