Sofia Boutella em Climax, de Gaspar Noé

Créditos da imagem: Climax/Divulgação

Filmes

Crítica

Climax

Terror de Gaspar Noé usa simplicidade para entregar uma hipnótica e atmosférica bad trip

Arthur Eloi
03.09.2019
14h41

Ainda que o terror popular opte por explorar contos mais tradicionais de monstros e assombrações, o gênero não se limita a isso. Do cósmico ao existencial, é possível encontrar obras dos mais variados horrores, em diferentes graus de intensidade. Climax, do polêmico diretor Gaspar Noé, é um poderoso exemplo disso ao extrair sua tensão de pessoas normais na pior bad trip de suas vidas.

A trama não é das mais complexas: nas montanhas francesas, um grupo de dançarinos ensaia coreografias. Para comemorar a conclusão dos treinos, dão uma festa regada à música e bebida - mas as coisas tomam um caminho sombrio quando percebem que alguém drogou o ponche, e o resultado é uma perigosa jornada de insanidade, quando os nervos tomam conta e um se volta contra o outro. A simplicidade se aplica para a produção em si, que notavelmente não levou sequer um mês para ser realizada, usando e abusando de improvisos no set. Só por isso, o resultado fica ainda mais impressionante.

Mesmo com um elenco de mais de 20 personagens, o longa flui naturalmente entre eles para garantir que todos tenham um mínimo de tempo de tela, deixando claro suas personalidades e relações interpessoais. O desenvolvimento não é lá muito aprofundado, mas também não parece ser esse o propósito: as interações rápidas, e a forma como a câmera conduz o espectador, passam informações com mais eficiência do que os diálogos, facilmente o ponto fraco da produção. Climax entende que sua força está na construção da atmosfera.

Desde os minutos iniciais o filme se posiciona como uma experiência a ser sentida, com extensas cenas de dança intercaladas por breves conversas entre os dançarinos. Quando tudo começa a dar errado, o caos é embalado pelas batidas frenéticas de Daft Punk, Aphex Twin e mais, criando um horror pulsante e hipnótico. A direção de Noé é o que garante o impacto, das complicadas coreografias capturadas em plano-sequência, até os inusitados movimentos de câmera enquanto a protagonista Selva (Sofia Boutella) se debate, histérica, pelo corredor. É uma obra que triunfa na sua experimentação visual, clima de pesadelo e, claro, atuações afiadas e espontâneas.

Climax brinca com os padrões do terror moderno e funciona ao combinar estilo e estética com a conhecida brutalidade do cinema de horror francês. Não é o filme mais extremo de Gaspar Noé, mas é prova de que o diretor entrega algo de peso e impacto mesmo quando abre mão da complexidade narrativa. O mesmo pode ser dito do gênero, comprovando que filmes não precisam se limitar aos monstros, aparições e nem mesmo ao sustos: pessoas sem autocontrole são o suficiente para criar tensão.

Climax está disponível no catálogo da Netflix.

Nota do Crítico
Ótimo