Nem um Passo em Falso oferece filme de golpe sem triunfos

Créditos da imagem: WB/Divulgação

Filmes

Crítica

Nem um Passo em Falso oferece filme de golpe sem triunfos

Steven Soderbergh continua nas suas variações de narrativas lacônicas

Marcelo Hessel
02.07.2021
16h15

Como acontece com frequência com artistas que atingiram a maturidade da sua expressão, Steven Soderbergh está em busca do essencial. Seus filmes sempre tiveram uma preocupação com a forma, e Soderbergh nunca deixou de ser um diretor afeito às questões técnicas, mas na última década - não por acaso, quando ele decidiu voltar de uma aposentadoria anunciada precocemente - essa eliminação dos excessos se intensificou no seu cinema, cada vez mais de abordagem direta, tanto na linguagem quanto no texto.

Ao mesmo tempo, o discurso não ficou menos ambicioso. Filmes recentes como A Lavanderia e High Flying Bird se organizam como pequenas crônicas capazes de dar conta de um sistema complexo de relações sociais, afetivas, econômicas e políticas. O mesmo vale agora para Nem um Passo em Falso (No Sudden Move), que parte de um thriller violento sobre acasos, à moda irmãos Coen, para articular uma visão macro do mundo. É o caso clássico dos homens pequenos que se descobrem parte do grande esquema das coisas.

À frente dos acasos estão dois capangas - vividos por Don Cheadle e Benicio Del Toro - contratados por um mafioso (Ray Liotta) para roubar um projeto que está movimentando os interesses em Detroit, no auge da indústria automotiva americana, anos 1950. Essa parte dos interesses, os dois protagonistas só descobrirão mais tarde, depois de terem sido envolvidos numa sucessão de traições, acordos e reviravoltas para ver quanto vale e quem fica com o projeto no final.

Antes de mais nada, é curioso contrapor Nem um Passo em Falso com a história mais famosa de golpistas contada por Soderbergh, a trilogia do bando de Onze Homens e um Segredo. Isso ilustra bem como o diretor tem se despido dos excessos; no novo filme não há altos arrojos de câmera ou trilha sonora para romantizar as coisas. Como diz o título, personagens precisam se mover com cuidado, qualquer gesto desnecessário pode provocar uma reação desproporcional, e Soderbergh combina forma e conteúdo para transformar isso no próprio modo de ser do filme, que se faz em panorâmicas sobre tripé sem sobressaltos. A câmera se move como um guarda-costas de mafioso, cool e vigilante, como fica bem denotado na escolha frequente das lentes grandes-angulares que esquadrinham o espaço e a ação como um sensor de máquina de xerox.

Assim como acontece em seu filme anterior, o excelente Let Them All Talk, cujos planos são frequentemente encurtados no final com um corte meio abrupto, para conservar o impacto de diálogos espontâneos e fortes, Nem um Passo em Falso também é bem econômico nas cenas de sangueira. É a tal busca pelo essencial: a força da violência talvez esteja na sua brevidade, num instante de impacto, e os planos não precisam se alongar além do necessário para pontuar essa violência.

Pois bem: Nem um Passo em Falso conserva muito bem sua energia ao longo da primeira hora, sustentada por sugestões de novas reviravoltas e por essa estratégia de linguagem que privilegia o impacto rápido e desconcertante. Quando o espectador entende o padrão, porém, parece que as coisas esfriam na segunda hora, e o filme caminha para sua conclusão meio que aborrecido com as amarrações que inevitavelmente precisam ser feitas. É o calcanhar de Aquiles do contador de histórias maduro: talvez ele não veja mais tanta graça na narrativa quando ela não oferece mais surpresas ou desafios.

Há formas de driblar esse tédio, claro. Joel e Ethan Coen fizeram com sucesso toda uma carreira no cinema encontrando formas de expressar o aborrecimento com os acasos e a fatalidade da vida, por exemplo, porque nunca dissimularam que o tédio é parte intrínseca desse processo criativo. No caso de Soderbergh, parece que seus exercícios sobre o laconismo ainda estão vindo carregados de vontade - ou até mesmo de otimismo - de provocar o status quo, deixar uma marca, entender o sentido da vida, fazer-se ouvir. E de certa forma esses dois impulsos acabam se anulando, um austero, o outro expansivo.

Nem um Passo em Falso
No Sudden Move
Nem um Passo em Falso
No Sudden Move

Ano: 2021

País: EUA

Classificação: 14 anos

Duração: 115 min

Direção: Steven Soderbergh

Roteiro: Ed Solomon

Elenco: Matt Damon, Benicio del Toro, Ray Liotta, Don Cheadle, Kieran Culkin, David Harbour, Brendan Fraser, Jon Hamm

Nota do Crítico
Bom

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