Meryl Streep e Jeffrey Wright em A Lavanderia

Créditos da imagem: A Lavanderia/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

A Lavanderia

Hollywood se mostra altiva como nunca em comédia pela reforma fiscal nos EUA

Marcelo Hessel
20.10.2019
14h56

Quem diz que a postura dos liberais americanos é mais uma questão de estética do que de princípios - como o fato de Ellen DeGeneres rechaçar Donald Trump mas se misturar com George W. Bush - tem no filme A Lavanderia um caso de estudo bastante interessante. Por trás de sua carta comovida de boas intenções o filme de Steven Soderbergh não consegue disfarçar a visão de mundo autocentrada.

Uma das características do inglês é desenvolver com rapidez expressões de idioma para dar conta de mudanças de comportamento e outros sinais dos tempos. Uma dessas expressões é "virtue signaling", "sinalizar virtude", popularizada para definir quem se mostra valoroso em público em troca de aplauso. Não que A Lavanderia seja hipócrita no seu relato didático sobre lavagem de dinheiro e evasão fiscal, mas há um ranço por trás dos elegantes planos-sequências de Soderbergh, como se o filme estivesse realmente atacando assuntos de importância mais para falar de si mesmo.

O longa aborda o escândalo dos Panama Papers, com base no livro The Secrecy World, do jornalista Jake Bernstein, sobre um vazamento de emails que expôs o universo de empresas de fachadas sediadas em paraísos fiscais usados globalmente para sonegar impostos. Antonio Banderas e Gary Oldman vivem os donos da firma panamenha que gere essas empresas, e ao mesmo tempo eles quebram a quarta parede para explicar tudo ao espectador. A desculpa é a mesma dos filmes de prestígio de Adam McKay, como A Grande Aposta e Vice: tratar finanças ou a burocracia do governo de um jeito pedagógico numa conversa informal com o público, para expor o absurdo que há na complexidade jurídica desses universos.

Quem lê a sinopse e encontra Meryl Streep no topo do pôster pode suspeitar que Soderbergh estaria refazendo um trajeto parecido com o do seu Erin Brockovich, um elogio do cidadão médio que, esmagado pelo sistema, encontra no próprio espírito empreendedor americano as forças para vencer e reorganizar o mundo à sua volta. A jornada edificante de A Lavanderia é bem diferente, porém, e está mais próximo dos filmes de McKay na ambição de desenhar, com senso de humor quase sádico, um painel de subtramas ao invés de eleger uma só como epicentro dramático.

O resultado denota um desinteresse e um desprendimento que já estavam meio sugeridos nos planos-sequências com Oldman e Banderas; A Lavanderia começa forte e envolvente, pegando o espectador de surpresa em momentos de impacto filmados de forma seca e direta (como o acidente de barco e os tiros na firma do Panamá), e nesses momentos o desprendimento funciona a favor do impacto. À medida que o filme avança, porém, e escolhe outras subtramas sob o pretexto de dar mais substância ao "big picture", tudo em A Lavanderia tende a parecer mais gratuito - até a reviravolta final e o desfecho, que se sucedem sem suspense e caem no filme como um oportuno deus ex machina, atendendo às preces da massa.

Essas escolhas têm em comum um sentimento de superioridade moral: a amarração descompromissada, o exibicionismo dos travelings, as pegadinhas, o desvio na trama para caricaturizar o estrangeiro (o sotaque carregado dos latinos e dos africanos, a frieza e a histeria dos chineses) e finalmente o refúgio na torre de marfim de Hollywood. Porque a maior arma da esquerda liberal americana sempre foi o bom gosto, o charme e a altivez dos seus astros de cinema, porta-bandeiras das causas mais nobres. Se há um elemento de pedantismo em A Lavanderia, isso fica mais do que latente no final, em que Meryl Streep se desnuda nos bastidores para mostrar o que faz dela uma autoridade aqui: simplesmente ser Meryl Streep.

Não fique a dúvida: quando quebra a quarta parede no final, A Lavanderia está apenas repetindo e deixando muito clara uma estratégia presente desde o início, que é operar sob um prestígio que precede o filme, o prestígio de deixar o pobre espectador espiar por dentro dos corredores de um cenário de cinema, acompanhado de um ícone latino e de um versátil vencedor do Oscar. Na comparação, pelo menos os filmes de McKay, sempre em chave amarga, nunca esconderam que seu desprezo pelo espectador era também um desprezo por si. Já A Lavanderia tenta nos convencer - já que o discurso hollywoodiano sempre é o da autoafirmação - que seu paternalismo na verdade é para o nosso bem.

Nota do Crítico
Regular