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Crítica

Natal Amargo | Pedro Almodóvar faz exploração básica da autoficção em novo filme

Cineasta espanhol trata de metalinguagem em comédia dramática que nunca sai do morno

Omelete
3 min de leitura
19.05.2026, às 16H21.
Natal Amargo

Créditos da imagem: Divulgação

É uma experiência curiosa assistir a Natal Amargo no Festival de Cannes 2026, onde filmes como Histórias Paralelas e El Ser Querido já exploraram as fronteiras entre realidade e ficção com efeitos tão claros – um para o negativo e outro para o positivo. O novo longa de Pedro Almodóvar existe num meio termo morno até demais entre o nada-com-nada dirigido por Asghar Farhadi e o grande trabalho de Rodrigo Sorogoyen. Se comportando de forma muito parecida a seu último lançamento, O Quarto ao Lado, essa história sobre pessoas que não conseguem parar de transformar acontecimentos reais em histórias sugere um cineasta numa zona de conforto.

Levemente engraçada, levemente cativante e levemente dramática, a história de Natal Amargo é tanto sobre Elsa (Bárbara Lennie) quanto sobre Raúl (Leonardo Sbaraglia). Os dois são diretores de cinema, já passaram um tempo trabalhando em comerciais e estão há alguns anos sem dirigir um longa-metragem. Para saírem do marasmo, eles observam suas próprias vidas para encontrar inspiração para seus novos roteiros, argumentos que os dois escrevem quase de maneira compulsória, como se precisassem daquilo para sobreviver. Há, porém, algumas diferenças cruciais entre Elsa e Raúl; a maior delas é que a primeira foi inventada pelo segundo.

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Elsa é a personagem principal do novo filme de Raúl, que diferente de sua criação teve uma carreira de sucesso e já foi reconhecido internacionalmente com prêmios. Claramente baseado no próprio Almodóvar, até no penteado, o cineasta vive com o namorado bem mais novo (assim como Elsa) e testemunha enquanto pessoas à sua volta sofrem com luto e mudanças (assim como Elsa) enquanto Natal Amargo transforma isso numa ficção dentro da ficção. É claro que o novo projeto de Raúl também se chama Natal Amargo.

Almodóvar, porém, não faz um grande alarde dessas semelhanças, e algumas não são tão óbvias. Parte do prazer de Natal Amargo é perceber como Raúl transformou uma ou duas figuras de sua vida numa única pessoa em seu texto, e onde mais os ecos entre criador e criação podem surgir de forma inesperada. Sem nunca intensificar o conflito ao máximo, Almodóvar cria uma experiência saltitante e divertida, temperada com bons risos, onde os problemas são típicos de pessoas que vivem bem e têm casas de praia para escaparem da confusão diária.

Assim, entramos num ritmo pouco desafiador. Novamente embelezando seus personagens e ambientes com o melhor das roupas e decorações, Almodóvar não se aventura demais no que é, essencialmente, uma análise de si mesmo. Há algumas denúncias aqui e ali sobre como cineastas e escritores vivem buscando suas histórias nos outros, ao ponto de nem sempre considerarem suas emoções… mas falta algo mais substancial.

Curiosamente, é isso que Raúl diz sobre seu próprio filme. Espelhar as falhas de Natal Amargo dentro da própria narrativa não as invalida, mas esse paralelismo permite que Almodóvar encontre uma saída junto com seu personagem. A princípio, ela vem com uma jogada barata – uma tentativa de suicídio de uma coadjuvante com quem não passamos quase nenhum tempo. É um movimento criticado pela agente de Raúl: como podemos nos importar com alguém que só foi aparecer no terceiro ato?

Então, Natal Amargo entra em foco. Tarde demais (talvez intencionalmente), mas entra. Como se tivessem gritado “eureka” ao mesmo tempo, Almodóvar e Raúl percebem que a chave para destravar seus roteiros está na agente Moníca (Aitana Sánchez-Gijón) – e enquanto o diretor de verdade encerra seu filme no auge, o fictício precisa reinventar o seu Natal Amargo com um novo título e uma nova inspiração para Elsa. É hora de voltar ao teclado.

Esta crítica foi escrita no Festival de Cannes 2026. Natal Amargo estreia em 28 de maio no Brasil.

Nota do Crítico

Natal Amargo

Amarga Navidad

2026
111 min
País: Espanha
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón
Onde assistir:
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