Garance | Filme com Adèle Exarchopoulos não sabe o que fazer com sua história
Longa dirigido por Jeanne Herry faz parte da seleção do Festival de Cannes 2026
Créditos da imagem: Festival de Cannes/Divulgação
A melhor sacada de Garance está em como ele começa. Se você não souber a premissa de antemão, o filme de Jeanne Herry passa seus primeiros 20 ou 30 minutos pregando um truque interessante – um que não chega nem perto de ser o suficiente para salvar o filme, e um que vou entregar agora. Dividido em episódios da vida da personagem-título, interpretada por Adèle Exarchopoulos, ele apresenta uma jovem atriz divertida e festeira que – contratada por uma companhia local, mas longe de ser uma estrela – vive de boate em boate com os amigos, provando drinks e pessoas de todo o tipo.
Até aí, tudo bem. Talvez Garance fique até tarde demais fora de casa e sofra com algumas ressacas monstruosas, mas ela nunca perde um ensaio e decora todas as suas falas. Ela pode viver no limite, mas é funcional. Claro, ela está com problemas financeiros e se sente meio perdida, mas o que mais podemos esperar de uma atriz de teatro nos seus 30 anos, solteira e morando na caríssima cidade de Paris? Está tudo bem, né?
Mas não está, e quando Garance deixa claro que é sobre a luta de uma mulher contra a bebida, somos pegos de surpresa ao mesmo tempo em que voltamos a diversas cenas anteriores. De fato, Garance bebia muito. Mas, como ela estava cercada de amigos e música, não percebíamos como nada saudável era seu estilo de vida. É uma jogada fascinante de Herry, porque essa virada não vem como uma reviravolta e sim como uma nova contextualização de tudo o que veio antes. É, também, a última grande ideia do longa.
Dali em diante, o filme se torna monotemático e barrigudo. Sem muito mais a dizer sobre sua personagem ou sobre a luta contra o álcool, a cineasta encena sequências repetitivas onde Garance, claro, bebe além da conta e sofre algumas consequências. Em paralelo, ela planta uma série de histórias coadjuvantes que não vão a lugar nenhum – não no sentido de que nada acontece, mas de que seu propósito na trama nunca se faz claro. Quando ela vê sua irmã grávida enfrentando o câncer pela segunda vez; quando perde o emprego; quando precisa enfrentar a pandemia de 2020; Garance simplesmente continua na mesma sem que o filme jamais desafie sua trajetória.
O que é bizarro, contudo, é como o conflito nunca se torna convincente. Garance passa por desafios que o álcool traz, mas insiste que está bem. Depois de ser demitida, a atriz faz questão de ressaltar como nunca esqueceu um diálogo sequer. Francamente? Ela está certa. Em momento algum, Herry se mostra disposta a desconstruir o conforto de sua protagonista para minar drama ou tensão, e portanto o alcoolismo da personagem jamais se torna tangível. Ao vermos Garance começar a namorar Pauline (Sara Giraudeau), uma pixie dream girl ultra compreensiva, sentimos como se a atitude do filme em relação a ela tivesse se manifestado em carne.
Eventualmente, a personagem decide parar de beber. Enfim fica claro o custo do álcool. Sua saúde pede por socorro e ela finalmente responde. E, então, Garance para. Até sua médica se diz surpresa com o quão tranquilo foi para a menina abandonar o vício, mas em termos dramáticos, isso significa que um conflito nunca tangível é solucionado de maneira igualmente nebulosa. É tudo muito fácil, rápido e leve para que este filme tenha qualquer impacto.
Crítica escrita em 19 de maio no Festival de Cannes. Garance estreia em breve no Brasil.
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