Cena do terror Madres

Créditos da imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Filmes

Crítica

Madres, Mães de Ninguém | Terror compensa falta de sustos com denúncia relevante

Com execução insegura do diretor Ryan Zaragoza, filme encontra razão de ser na mensagem

Eduardo Pereira
15.10.2021
17h13

No que se espera de um filme de terror com a assinatura da Blumhouse Pictures, Madres, Mães de Ninguém serve muito menos das convenções tradicionais do gênero do que o imaginado. Sim, há uso de clichês como lendas sobre antigas maldições, amuletos sinistros, caixinhas de música arrepiantes e aparições assustadoras. Só que, no centro desse representante latino da antologia Welcome to the Blumhouse, estão a denúncia e a discussão de questões sociais relevantes. Assim, a produção exclusiva do Amazon Prime Video surge como uma irmã espiritual de Corra (2017), padecendo na comparação por não conseguir entreter na mesma medida em que informa – mas compensando parte disso com um terceiro ato intenso e a revelação de uma temática central urgente e impactante.

Nos Estados Unidos da década de 1970, o casal de latinos Beto (Tenoch Huerta, privado de carisma) e Diana (Ariana Guerra, carregando dois terços do filme de forma hercúlea) deixa Los Angeles para viver em uma pequena cidade rural da Califórnia. Ela, uma jovem jornalista norte-americana de ascendência hispânica, perdeu o emprego por ter ficado grávida dele. Ele, um jovem imigrante mexicano que dá duro para realizar o "sonho americano", celebra ter se tornado gerente em menos de cinco anos no novo país. Ao chegarem à casa nova, entretanto, as diferenças entre os dois começam a ganhar mais profundidade, ao mesmo tempo em que uma presença misteriosa passa a rodeá-los.

Os roteiristas Marcella Ochoa e Mario Miscione usam a premissa para mostrar diferentes experiências de isolamento e discriminação às quais estão sujeitas as mais diferentes gerações de latinos nos Estados Unidos. Enquanto navega com facilidade pela cultura da Terra do Tio Sam, Diana sofre com a pressão de honrar suas raízes mexicanas por não ter tido o ensino da língua espanhola em suas escolas ou por meio de seus pais. Já Beto, que teve de romper com seu próprio país para reescrever seu futuro em uma terra estranha, sente-se acolhido e refugiado entre aqueles que viveram a mesma experiência; mais até do que com sua esposa. Relevando o excesso de exposição em diálogos que beiram o caricato, é um trabalho competente que garante a boa vontade necessária para que o espectador siga no filme.

Uma mão mais firme na direção saberia como usar essa escalada de tensão familiar, tão flagrante em exemplares mais célebres do chamado "pós-horror" como A Bruxa (2015), Ao Cair da Noite (2017) e Hereditário (2018), para envelopar os aspectos sobrenaturais da trama. Só é uma pena que esse não seja o caso de Ryan Zaragoza. Os flertes iniciais de Madres com um terror mais palpável são tão previsíveis e pouco inspirados que beiram o cômico, dando a impressão de que o mergulho no gênero faz à mensagem um maior desserviço do que qualquer outra coisa. Para piorar, o cineasta parece testar diferentes estilos conforme a trama se desenrola, recorrendo até a uma ramificação de tela ao melhor estilo Hulk (2003) de Ang Lee em um só segmento, apenas para nunca mais usar a linguagem.

Felizmente, para os fãs do gênero, o terceiro ato vê Zaragoza encontrar uma forma para equilibrar o bom conteúdo da história filmada, entregando com execução concisa e coesa uma sequência de belas cenas de horror. Expandindo a mensagem do filme, entretendo e ainda estreitando os paralelos entre ele e Corra, o cineasta se redime a tempo dos créditos finais e eleva a trama para além do panfletário. Esse desfecho envolvente, somado à atuação providencial de Guerra e um epílogo devastador com gostinho de Spike Lee, fazem Madre superar uma primeira impressão de "oportunidade perdida" e valer o stream.

Madres, Mães de Ninguém
Madres
Madres, Mães de Ninguém
Madres

Ano: 2021

País: Estados Unidos

Duração: 83 minutos min

Direção: Ryan Zaragoza

Roteiro: Mario Miscione, Marcella Ochoa

Elenco: Ariana Guerra, Tenoch Huerta

Nota do Crítico
Bom

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