Adriana Barraza no terror O Bingo Macabro

Créditos da imagem: O Bingo Macabro/Amazon Prime Video/Reprodução

Filmes

Crítica

Bingo Hell traz inesperada heroína em macabra sátira da sociedade contemporânea

Lançamento da coletânea Welcome do the Blumhouse é um manifesto em prol do cinema de terror independente

Júlia Tibiriçá
03.10.2021
13h05
Atualizada em
03.10.2021
18h56
Atualizada em 03.10.2021 às 18h56

A edição de 2021 da coletânea Welcome to the Blumhouse abre o mês de outubro mantendo a tradição do projeto de garantir liberdade criativa a produções de baixo orçamento e trazer para as telas rostos pouco conhecidos. O Bingo Macabro (Bingo Hell, no original) tem direção de Gigi Saul Guerrero e conta com a sinistra e adorável Adriana Barraza no papel de Lupita, uma senhora mexicana sexagenária que se encarrega de defender sua comunidade de uma ameaça maligna.

Inquieta com a ocupação de Oak Springs, seu bairro sul-californiano, por uma horda de jovens hipsters, coffee shops descolados e empreendimentos imobiliários, Lupita é a voz da resistência do pequeno grupo de residentes que não abriram mão de suas casas e seus humildes negócios. Entre negros, latinos, ex-drogadictos, imigrantes -- quase todos acima da faixa dos 60 --, os poucos sobreviventes da gentrificação de Oak Springs representam os párias da sociedade, invisíveis e descartáveis para os modernos novos moradores do bairro.

Decididas a promover a sustentabilidade dos pequenos negócios de sua comunidade, Lupita e Dolores (L. Scott Caldwell), sua amiga e parceira de longa data na defesa dos interesses do bairro, organizam uma noite de bingo no centro comunitário local, angariando doações para os vizinhos mais necessitados. A gota d'água para a personagem de Barraza é o desaparecimento de Mario (David Jensen), participante regular dos jogos, e a ocupação do centro comunitário do bairro por uma figura estranha que se apresenta como Mr. Big (Richard Brake).

À medida que Mr. Big inaugura no centro um novo bingo, oferecendo prêmios inimagináveis e sedutores para uma comunidade pauperizada, os jogadores não parecem mais eles mesmos. Cegos de ganância, os habitantes de Oak Springs parecem imersos em um transe que os leva obsessivamente de volta à mesa do bingo, ao som da repetida promessa do anfitrião: venha ser você também um vencedor. Lupita não se deixa levar pelo feitiço que Mr. Big lança sobre seus vizinhos e suas suspeitas disparam quando começa a descobrir os corpos dos vencedores do jogo, mortos em circunstâncias pavorosas.

O Bingo Macabro é uma surpresa oportuna do começo ao fim, não ficando atrás de clássicos das produções de baixo orçamento do gênero, com evidente e acertada influência da obra de Sam Raimi. Caldwell e Barraza são o ponto alto do longa, com performances fortes e carismáticas que dão o tom à trama, mostrando do que Oak Springs é capaz a despeito do abandono e desprezo da sociedade. O caricatural e grotesco Mr. Big é também espetacular -- daquele jeito que apenas um vilão de um bom terror trash sabe ser -- em trazer de forma cômica e, ao mesmo tempo, sombria uma importante crítica à descontrolada ambição por dinheiro e sucesso.

O filme é um verdadeiro manifesto em prol do cinema de terror independente, e é bem-sucedido em sua simpática porém brutal sátira da sociedade contemporânea. Saul Guerrero, já aplaudida pela minissérie La Quinceañera, mostra a que veio e se consolida como promessa do gênero em uma obra autoral, original e com a dose perfeita de humor e crítica social para nos deixar ansiosos por seu próximo lançamento.

O Bingo Macabro
Bingo Hell
O Bingo Macabro
Bingo Hell

Ano: 2021

País: Estados Unidos

Duração: 85 min

Direção: Gigi Saul Guerrero

Roteiro: Gigi Saul Guerrero, Perry Blackshear, Shane McKenzie

Elenco: L. Scott Caldwell, Adriana Barraza, Joshua Caleb Johnson

Nota do Crítico
Ótimo

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