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Crítica

Isso Ainda Está de Pé? confirma, de vez, Bradley Cooper como grande diretor

Mais convidativo, o terceiro filme do cineasta troca grandes espetáculos por um palco mais íntimo

Omelete
5 min de leitura
19.02.2026, às 10H07.
Isso Ainda Está do Pé?

Créditos da imagem: Searchlight Studios

Antes de Isso Ainda Está de Pé?, não seria um equívoco descrever o cinema de Bradley Cooper, o diretor, como muscular ou atlético. Seus dois primeiros filmes – Nasce uma Estrela, um espetáculo, e Maestro, uma linda, e às vezes cansativa, cinebiografia – são o tipo de cinema ambicioso que chama atenção para si mesmo e, de maneira frequentemente eletrizante, banca a aposta, entregando obras de alto teor técnico e emocional. Um estudante de mestres estadunidenses, Cooper parecia querer se lançar imediatamente ao posto de autor, e no processo disputar a alguns Oscars. 

Ele, sem dúvidas, ainda tinha essas coisas em mente quando fez Isso Ainda Está de Pé?, que dispensa com a grandiosidade de seus longas anteriores para priorizar uma narrativa mais íntima, cotidiana e de menos prestígio. Talvez por isso, seu terceiro trabalho diretorial foi completamente ignorado pelas premiações. Um drama cômico que troca os grandes palcos de orquestras e shows pelas pequenas plataformas de comédia stand-up em bares nova-iorquinos, esse filme, mesmo inicialmente posicionado como aposta da Searchlight na última temporada de Oscar, tem um clima despretensioso que contrasta bem com a excelente realização técnica, e apesar do pequeno impacto mercadológico, é o tipo de trabalho que faz bem para carreiras de cineastas que são regularmente indicados a troféus – o legado de Isso Ainda Está de Pé? é “apenas” ser um ótimo filme.

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Assumindo dessa vez um papel coadjuvante – do instantaneamente hilário personagem Balls –, Cooper coloca (literalmente) Will Arnett no holofote de Alex Novak, um homem de quase 50 anos e carreira confortável no mundo de finanças que, após vinte anos de casamento e dois filhos, está se divorciando (o mais amigavelmente possível) de Tess (Laura Dern). Em sua primeira noite dormindo separado da futura ex-esposa, Alex fica chapado e, numa tentativa de beber sem pagar no meio de Manhattan, aceita participar de um open mic. O resultado é surpreendente. Ele não só vai milagrosamente bem, como encontra naquele espaço a oportunidade para se abrir e, de alguma maneira, processar sua nova fase de vida.

Isso Ainda Está de Pé?
Searchlight Studios

Isso Ainda Está de Pé? não é, apesar do marketing, um filme de comédia stand-up. Essa é uma história pessoal de casamento, divórcio e crises de meia-idade. Isso, contudo, não impede Cooper de pintar o cenário dos comediantes de Nova York de maneira imediatamente intoxicante. Cada bar é repleto de vida, cada personagem uma figura digna de um filme próprio, e cada apresentação de Alex vem acompanhada do magnetismo irresistível de uma noite divertida na cidade. Ajuda muito ter comediantes de verdades nesses papéis, como Chloe Radcliffe, Jordan Jensen, Dave Attell, Reggie Conquest, e outras figuras locais e emblemáticas, mas não tão conhecidas, do meio. O roteiro – assinado por Cooper, Arnett e Mark Chappell – aliás, encontra o equilíbrio ideal para as piadas do protagonista. Elas são boas o suficiente para justificar seu moderado sucesso na área, mas não boas demais para desafiar o seu status de novato*.

*Isso Ainda Está de Pé? é baseado na história de John Bishop, comediante britânico que começou na comédia em situação parecida no Reino Unido em 2000. Bishop, que tem crédito de história no filme, seguiu carreira, mas nunca é sugerido que Alex fará o mesmo.

Consequentemente, compramos a investida inesperada de Alex nesse mundo, mas isso só funciona porque primeiro compramos o vai-e-vem de Alex e Tess. Os dois claramente se amam, mas claramente estão fora de sintonia. Trata-se de um casamento com problemas palpáveis, mas com química o suficiente para torcermos por, e eventualmente acreditar no, eventual reatar dos laços entre eles. Fazendo o típico movimento de um ator cômico que decide mostrar seu lado mais sério, triste e vulnerável, Arnett é muito bom no papel. Seu Alex é carismático, mas sempre bagunçado. Ele é meio perdido, mas nunca sem graça. Suas limitações dramáticas, porém, se tornam evidentes quando ele é colocado lado a lado com Dern. 

Isso Ainda Está do Pé?
Searchlight Pictures

Uma ex-jogadora olímpica de vôlei, Tess também passa por uma jornada de se redescobrir. Mas ao invés de se aventurar em outro mundo, ela decide voltar ao ambiente que um dia deixou – tanto jogando como hobby quanto se tornando uma técnica. Menos detalhado, o arco de Tess é constantemente beneficiado pelo talento de Dern. Ela deixa perceptível a raiva que existe dentro da personagem, mas jamais deixa de abrir espaço para abordar outras facetas de sua personalidade. Sua reação de choque, surpresa, irritação e fascínio ao descobrir a investida de Alex na comédia só perde, em termos de atuação, para a grande briga dos dois lá pelo terceiro ato, quando ela traz a bagagem de uma vida para um argumento que, inclusive, conta com um dos movimentos de câmera mais emblemáticos do filme. No meio de um plano duplo, Cooper eventualmente move o centro da imagem para o rosto da mulher. A sensação gerada é a de um diretor se rendendo ao talento de sua atriz.

Esse é apenas um dos exemplos do talento nato de Cooper como realizador. Seu olhar para as cenas externas, em especial a encenação de um passeio dos dois por uma estação de trem, transforma Isso Ainda Está de Pé? num grande filme nova-iorquino mesmo sem uma idolatria clara pela cidade (afinal, Bradley é da Philadelphia). Já o mix de closes em Alex e planos abertos com as plateias fazem jus ao status icônico de locais como o Comedy Cellar, um dos principais clubes de stand-up nos EUA.

São lances tão grandiosos quanto o que ele fez em seus outros filmes, mas que aqui soam menos como alguém dando um tapinha nas próprias costas e mais como um amigo que, colocando o braço em nossos ombros, aponta para a tela e diz, “cinema não é o máximo?”. Isso Ainda Está de Pé? não é o melhor filme de Bradley Cooper, mas é seu trabalho mais convidativo. As tomadas elaboradas estão lá, mas elas são menos gritantes. Sua função é abrir as portas para entrarmos e concluirmos que, sim, cinema é o máximo.

Nota do Crítico

Isso Ainda Está de Pé?

Is This Thing On?

2025
124 min
País: EUA
Classificação: 14 anos
Direção: Bradley Cooper
Roteiro: Will Arnett, Mark Chappell, Bradley Cooper
Elenco: Andra Day, Will Arnett, Laura Dern, Bradley Cooper
Onde assistir:
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