Bradley Cooper e Carey Mulligan em Maestro

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Em Maestro, Bradley Cooper busca uma assinatura como diretor

Cinebiografia de Leonard Bernstein vem depois de Nasce uma Estrela como uma progressão lógica para o ator/diretor

Omelete
4 min de leitura
06.12.2023, às 06H00
ATUALIZADA EM 13.01.2024, ÀS 17H35
ATUALIZADA EM 13.01.2024, ÀS 17H35

Leonard Bernstein era apenas um assistente de regência na Orquestra Filarmônica de Nova York quando, em 14 de novembro de 1943, recebeu a ligação que mudaria a sua vida: naquela noite, o maestro convidado, Bruno Walter, pegou uma gripe e teria de ser substituído. Foi com esse aviso – e sem ensaio algum – que Bernstein assumiu a posição e teve o seu próprio momento de Nasce Uma Estrela. Bradley Cooper encena esse momento em Maestro com um plano-sequência que transforma o quarto de Bernstein no teatro nova-iorquino em poucos movimentos de câmera. Mais seguro em suas habilidades de diretor, Cooper parece se inspirar na sede de Bernstein para também solar de modo virtuoso.

Dos enquadramentos ao uso de cores, Cooper deixa de ser "ator que quer dirigir" e se torna mais um realizador, o que implica também chamar a atenção do espectador para a mecânica dessa virtuose. Na comparação com Nasce uma Estrela, filme que marcou a estreia de Cooper como diretor, Maestro brilha no lado técnico mas também parece mais romântico.

A história de Bernstein é recontada através do relacionamento com Felicia Montealegre (Carey Mulligan). Figura boêmia e livre, sem distinção de gênero em seus romances, Bernstein muda quando conhece Felicia em uma festa. Cooper protagoniza e encena o momento com o encanto romantizado dos grandes amores; os sussurros, as conversas, os toques, tudo congela ao redor para atribuir ao encontro aquele tom familiar e místico da simbiose completa. 

Essa escolha permite que Carey Mulligan seja alçada a um lugar mais elevado de mitificação, e, enquanto Bradley Cooper se destaca como diretor, a atriz inglesa pode enfim responder à expectativa que Hollywood deposita nela, desde os tempos de Educação (2009) e das comparações com Audrey Hepburn. Interpretando Felicia Montealegre, uma figura com poucos registros públicos para pesquisa, Mulligan tem a oportunidade de construir uma personagem baseando-se na sua performance e nos sentimentos que o encontro romantizado de Maestro instiga, explorando o que significa ser esposa de um homem tão livre quanto Bernstein em uma era conservadora.

No filme, Felicia compreende e aceita a bissexualidade de seu marido, enquanto, simultaneamente, almeja um casamento convencional. De certa forma, Cooper repete na dinâmica do casal uma lógica que havia funcionado em Nasce uma Estrela e talvez pareça ao ator um terreno dramático seguro: tratar um dos pólos do casal como o dínamo e o outro como uma válvula de escape; Mulligan puxa toda a repressão, angústia, o conflito e o desespero calado de lidar com o gênio de Bernstein. Na impossibilidade de nos identificarmos com o gênio, acompanhamos a perspectiva mundana de Felicia. Na cena em que ela recebe seu diagnóstico de câncer, Mulligan prova ser o tecido conectivo que o filme procura estabelecer desde o início. 

Digna de um Oscar, a performance da atriz, no entanto, não consegue sustentar todas as 2h de filme. Aliás, nem deveria. No caso de Maestro, por retratar uma figura tão histórica, mas sem muito alcance hoje em dia no imaginário popular, o roteiro poderia ter dado mais importância à construção do próprio personagem-título, que fica na reserva. Por isso, muitos dos conflitos internos do regente, sua fluidez sexual, compulsões e falhas, surgem e desaparecem sem se fixar no filme. É como se Maestro, que afinal não deixa de ser uma cinebiografia “de prestígio”, evitasse o trabalho árduo de uma eventual desmistificação; as questões de Bernstein são sempre pinceladas ou sugeridas. Tudo fica muito à sombra de Felicia. Quando ela sai de cena, inclusive, o filme perde a paixão e a empolgação retratada nos primeiros encontros entre os dois, tornando tudo muito desconexo. 

A impressão que fica é que Cooper, paradoxalmente, enquanto diminui a figura de Bernstein para preservar a mítica do maestro, mete os pés pelas mãos ao tentar fazer um pouco de tudo. Embora tenha crescido como diretor, um esforço que fica visível nas escolhas de estilo e de encenação, o galã ainda precisa lapidar melhor suas narrativas para ser mesmo o próximo Clint Eastwood, um de seus grandes ídolos e um ícone em Hollywood tanto das narrativas românticas quanto das míticas. Bradley Cooper está nesse caminho, que eventualmente implicará depurar esse estilo que ele tateia. Afinal, nem todos podem ser como Bernstein e assumir uma grande responsabilidade sem alguns ensaios. 

Nota do Crítico
Bom
Maestro
Maestro
Maestro
Maestro

Ano: 2023

País: Estados Unidos

Duração: 129 min

Direção: Bradley Cooper

Roteiro: Bradley Cooper, Josh Singer

Elenco: Bradley Cooper, Matt Boomer, Sarah Silverman, Carey Mulligan, Maya Hawke

Onde assistir:
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