Filmes
Crítica
Iron Lung é fenômeno, é marketing. Mas não é cinema!
Filme independente custou 3 milhões e já vez mais de 30 milhões nas bilheterias
3 min de leitura
E do nada, lá estava eu, em Los Angeles, numa sexta-feira à tarde sentado em um cinema (naquele momento) vazio, prestes a ver Iron Lung (2026). Não sou o maior fã de filmes de terror, não sou gamer e não sou inscrito no canal Markiplier - aliás, nem o conhecia até saber que ia ter que ver seu filme. Mas, mesmo assim, lá estava eu (sem pipoca, porque só o cinema já tinha custado mais de 100 reais convertidos do dólar para o nosso pobre real) pronto para descobrir porque um filme independente tinha se tornado um dos maiores sucessos do ano nos EUA.
Continua depois da Publicidade
Antes de falar do filme, é preciso explicar quem é Markiplier. O youtuber Mark Fischbach tem milhões de inscritos em seu canal e ganhou notoriedade por fazer gameplays de jogos de terror de uma forma bem performática. Um dos títulos que ele experimentou ao vivo e se apaixonou foi justamente Iron Lung, game independente de 2022 criado por David Szymanski. E como bom marketeiro e maker, Markiplier comprou os direitos para adaptar o game para o cinema em um filme que ele mesmo produziu, roteirizou, dirigiu e protagonizou.
Mais importante do que o filme, acabou sendo o processo. Ele foi cirúrgico nas suas postagens, compartilhando a exaustão, o desconforto, o medo de falhar com seus seguidores e fãs do jogo. Ele nunca entregou a narrativa e esta vulnerabilidade foi "ganhando" o público, que passava a torcer por Markiplier e até mesmo a baixar a expectativa para o resultado final.
E isso acabou sendo algo positivo, afinal, Iron Lung é limitado ao seu enxuto orçamento. O roteiro seguiu o pedido feito pelo criador do jogo e explica apenas o necessário: Em um universo pós-apocalíptico em que a maioria dos humanos e todas as estrelas desapareceram, Simon (Mark Fischbach) é um prisioneiro obrigado a navegar por um mar de sangue a bordo de um submarino enferrujado (o tal Iron Lung - Pulmão de Ferro, em tradução literal). Seu contato com o mundo exterior é a comunicação feita por rádio e uma espécie de raio-x que fotografa o que está no exterior do seu receptáculo - e muitas vezes seria melhor não saber o que está lá fora!
Continua depois da Publicidade
Parece promissor, mas a verdade é que isso é praticamente tudo o que o público vai saber sobre este universo. Ao tentar não explicar demais, o filme não explica nada e, assim, quem não tinha ligação com Markiplier ou com o jogo, dificilmente vai criar algum vínculo.
Sem dinheiro para computação gráfica, a produção criou um set físico e colou a câmera na cara de Mark, gerando uma claustrofobia que não se via talvez desde Enterrado Vivo (Buried, 2010), com Ryan Reynolds. Porém, sem a mesma qualidade técnica. Se o som do metal sofrendo com a pressão submersa e o bipe constante da máquina de raio-x causam uma angústia enorme, os diálogos sofrem junto em algumas falas quase inaudíveis. E isso por mais de duas horas!
Os famosos 300 mil litros de sangue falso — que quebraram o recorde de Evil Dead (2013) — estão lá, visíveis e viscosos, mas não se tornam um diferencial dramático. Simon é descartável, a missão nunca se organiza dramaticamente e, sem apego ao personagem, não há sofrimento possível — nem com ele, nem por ele.
Criar uma história sem contexto, sem herói, sem esperança, sem dinheiro e ainda assim se dar bem é o grande mérito de Iron Lung e Markiplier. Muitos motivos podem ter levado as milhares de pessoas aos cinemas para ver o projeto. Talvez tenha sido o carisma inegável de Markiplier (algo que seu personagem nunca conseguiu ter). Ou o apoio por todo o seu desgaste no processo de criação. Pode até ser pela curiosidade.
Continua depois da Publicidade
Mas uma coisa eu garanto, não foi pelo filme.
Continua depois da Publicidade
Iron Lung
Iron Lung
Publicidade