Noah Jupe em Honey Boy

Créditos da imagem: Honey Boy/Divulgação

Filmes

Crítica

Honey Boy

Interpretando o próprio pai, Shia LaBeouf faz sessão de terapia pública, mas não esquece de fazer cinema

Natália Bridi
07.09.2019
15h43
Atualizada em
07.09.2019
17h04
Atualizada em 07.09.2019 às 17h04

Shia LaBeouf fez da sua crise existencial um exercício artístico. De plagiador à performer - com uma exibição para se desculpar por ter copiado a HQ de Dan Clowes no curta HowardCantour e uma maratona ininterrupta dos próprios filmes com suas reações transmitidas por streaming - o ex-ator mirim usou a plataforma criada em torno do seu nome para ironizar a indústria hollywoodiana e a si mesmo (nem que seja virando meme). Honey Boy, sua estreia como roteirista em um longa-metragem é mais uma dessas empreitadas. Não só o filme é baseado na sua própria vida, como LaBeouf interpreta o próprio pai.

Acontece que o que antes parecia piada vai se concretizando como uma verdadeira e coerente obra artística. O filme dirigido por Alma Har’el (conhecida por seu trabalho em videoclipes e no documentário Bombay Beach) é um legítimo esforço cinematográfico, elaborado com sensibilidade, atuado com precisão e amarrado por uma construção estética bem resolvida. O fato de narrar parte das desventuras de LaBeouf é certamente um atrativo, mas não é a única fonte de sustentação.

Lucas Hedges interpreta Otis, a versão cinematográfica de LaBeouf, durante a crise que o levou à prisão e ao consequente tratamento contra o vício. É quando a terapeuta (Laura San Giacomo) sugere que ele sofre de transtorno pós-traumático e precisa encontrar a fonte da sua raiva. Entra Noah Jupe como o jovem Otis, na época em que LaBeouf integrava o elenco da série Even Stevens, e seu relacionamento abusivo com o pai, um ex-palhaço de rodeio com histórico de vício em drogas e abuso sexual.

A transição entre os dois momentos de Otis é feita dentro de um set. No primeiro, Hedges, preso a um cabo, é arremessado por uma explosão, em uma clara referência à franquia Transformers. No segundo, Jupe leva uma torta na cara e é igualmente arremessado. Por mais que tenha trocado o nome dos protagonistas e não cite filmes ou séries diretamente, LaBeouf em nenhum momento pretende esconder que o filme trata sobre a sua vida e que a sua percepção dos eventos vem sempre acompanhada de uma mistura de realidade e fantasia, dor e entretenimento, sinceridade e ironia. Daí tornar a sua sessão de terapia sobre o pai um ato público.

Ao interpretar a fonte do próprio trauma, o ator/roteirista vai fazendo as pazes consigo mesmo e com o seu passado. O pai deixa de ser seu inimigo para ser um indivíduo igualmente problemático (e carismático). A boa atuação de LaBeouf não é surpresa, mas a qualidade do texto, do senso de humor e da suas resoluções singelas é. Em meio a todo barulho que seu nome causa a cada empreitada, grita mais alto a sua qualidade como artista.

Por essa ser uma “autocinebiografia”, o autor e protagonista tem controle sobre a narrativa. Assim, ainda que cutuque as próprias feridas, LaBeouf mostra apenas o que quer e conclui a história para a própria satisfação, deixando ainda mais explícito o quê terapêutico do longa. “Vou fazer um filme sobre você”, diz o Otis adulto no seu reencontro com o pai, assumindo mais uma vez a metalinguagem como idioma oficial de LaBeouf, o que é ampliado pelos créditos finais. Ao som de “All I Really Want to Do”, de Bob Dylan, Honey Boy exibe fotos do arquivo da família para deixar claro que entre tantos escândalos, traumas e drogas, há também amor, carinho e a possibilidade de redenção.

Nota do Crítico
Ótimo